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05/11/2026

Jornal Torrejano – Nº 1242 - Repressão policial, terrorismo oficial

Jornal Torrejano – Nº 1242 – 06/11/2026

Repressão policial, terrorismo oficial

A carga policial injustificada sobre uma manifestação pacífica e justa, arruinou anos de investimento das forças policiais em relações públicas. Apoiar idosos, ajudar automobilistas em dificuldades e salvar gatinhos, foram imediatamente remetidos ao ridículo numa questão de minutos. Apesar de achar que deviam rolar cabeças em consequência desta acção deveras censurável, não é sobre isto (mas também) que quero escrever.

As recentes manifestações em Portugal objectivamente sobre o tema do acesso a habitação, apresentam-se bastante focadas na árvore e não na floresta. A exiguidade da lente pode transmitir a ideia que está tudo bem excepto para os jovens alugarem ou comprarem casa. O resto, aceita-se. Embora a informação que chega ao cidadão comum seja substancialmente filtrada, pelo resto da Europa o âmbito do descontentamento é sobejamente mais alargado. Não é só uma idosa despejada em Espanha e umas escolas sem condições em França. É muito mais que isso. Por cá, deveria acontecer um descontentamento maior e mais abrangente, só que não. Resume-se aos jovens quererem casa e não terem, segundo eles próprios.

Os pais desses jovens, começaram a apertar o cinto lá mais atrás, para lhes poder proporcionar formação académica superior. Depois de a conquistarem, os jovens caiem no lamaçal dos estágios não remunerados, da contratação precária, do trabalho temporário e dos salários baixos. Continuam a precisar da ajuda dos pais, o cinto continua apertado. Para a minoria que consegue atravessar o lamaçal e pensa que daí em diante basta dar ao chinelo com convicção para ir subindo na carreira e na remuneração, rapidamente descobre que competência e dedicação valem zero face ao pedigree. Os pais destes jovens, rendidos ao cinto apertado, continuam a acreditar que os filhos têm hipótese de enfrentar a realidade das barreiras consecutivas e saírem vitoriosos. Isto enquanto um único depósito de combustível lhes leva quase um décimo do rendimento mensal, são consumidores de produtos de linha branca no supermercado e, desde há algum tempo, os pais deles, avós dos jovens, também já fazem parte do esquema de ajudas. Sim, porque subir o salário mínimo não é sinónimo de subir toda a escala. O salário médio fica praticamente no mesmo sítio. É assim que se extingue a classe média. Não está mal pensado. Estes predicados não se aplicam a famílias com rendimentos elevados. Aliás, o fosso é tão grande que, as famílias com rendimentos elevados vivem numa realidade à parte. Ir ao supermercado não é para eles, é para os serviçais.

Em 2021, Portugal ocupava o segundo lugar na tabela da maior diferença salarial entre os postos de trabalho das funções elementares (base da pirâmide) e os postos de trabalho de gestão (topo da pirâmide), na união europeia. Estando Chipre na primeira posição, Dinamarca na última.

É essa classe, a viver numa realidade à parte, que nos governa. Tanto no público como no privado. O desmembramento do SNS, a decadência do ensino público, a inépcia do sistema legal, a engenharia social que colocou pobre contra pobre, que fabricou a mentira da meritocracia, tudo isto resulta na contestação cuja face visível, agora em Portugal, é o acesso á habitação. Como testemunhado pela Europa fora, degenerando eventualmente em algo mais conflituoso que protestos pacíficos, na realidade, é um grito sobre a distribuição desequilibrada de riqueza e da corrupção generalizada.

É plenamente justo protestar acerca do problema da habitação, ele é bem real e tem vindo a avolumar-se sub-repticiamente. Basta um olhar superficial sobre as áreas de actividade económica em franco crescimento para identificar um boom significativo de agências imobiliárias e consultores imobiliários independentes. Brotaram como cogumelos nas duas últimas décadas e a curva crescente ainda não terminou a subida. Não é coincidência, é indicador. Outro olhar, desta vez mais atento, às câmaras municipais e, verifica-se que aquelas com as contas mais equilibradas, lucros até, conseguem-no à custa da alienação de terrenos (ou deverei antes dizer território?). Revisões dos PDM em prejuízo de zonas protegidas e reservas tanto naturais como agrícolas, seguidos de loteamentos questionáveis. Uma análise criteriosa e idónea desta realidade, configura um quadro de servilismo ao grande capital. A fronteira entre Portugal continental e o oceano Atlântico já não é a praia pública, são condomínios fechados, resorts de luxo e campos de golfe, tudo privado. Muito bem vedados, muito bem guardados por segurança também ela privada, porque pobreza pode ser contagiosa, nunca se sabe. As ramificações implícitas ao problema dos jovens não conseguirem alugar ou comprar casa são extensas e complexas. A desigualdade patológica, a corrupção infecciosa, o oportunismo javardolas, são os males que as gerações mais recentes repudiam, muitos sem o saber. A proverbial gota de água acaba por ter o nome que tiver. Ainda não foram corrompidos pelo sistema e fazem uso da energia que os mais velhos, embora menos ingénuos, esgotaram com tanto aperto de cinto. No entanto, devem isolar e excluir dos protestos aqueles que só lá estão porque gostam de ver tudo a arder. O poder instituído deve sentir-se ameaçado, deve temer a perda de controlo, mas a vitória só é válida se conquistada a respeitar as regras do jogo. Não se consegue aldrabar aldrabões, eles têm mais experiência.

Sr. Primeiro ministro, não estamos a importar comportamentos selvagens de outras paragens. Escravizados e insultados repetidamente por vós e a pandilha de "empreendedores" que sistematicamente subsidia com o nosso sangue suor e lágrimas, estamos, finalmente, a manifestar publicamente a nossa indignação. Enquanto na Assembleia da República o fascismo emergente nos quer fazer crer que o problema reside na imigração pobre, a imigração rica expulsa-nos da nossa casa, do nosso território. E a sua resposta é, bastonada em quem protesta. Que conclusão pretende como resultado? Paz, pão e liberdade, com cravos? Ou, Liberté, Égalité, Fraternité, com tudo a arder? Sendo Grândola Vila Morena hino dos egoístas, despertador da fúria do poder institucional implacável, teremos de procurar outras opções.




15/10/2026

Jornal Torrejano – Nº 1241 - Só um bocadinho

Jornal Torrejano – Nº 1241 – 16/10/2026

Só um bocadinho

Torres Novas na frente da inovação, cria, ou permite que seja criado, o conceito de farmácia itinerante. O CHMT inova com o serviço de cuidados domiciliários, a iniciativa privada responde com a farmácia itinerante. Que golpe de mestre! Pedrogão, Quinta da Silvã, Centro Comercial. Para já. Desconhecem-se as próximas paragens do percurso, mas, analisando o realizado até aqui, a tendência será em direcção ao Entroncamento, para apanhar o comboio para Lisboa, deduz-se. É lá que está o negócio a sério. A prioridade é a facturação, o crescimento, o desenvolvimento, o progresso e, Portugal é Lisboa, o resto é paisagem.

Tudo isto, "um bocadinho vinculado à legalidade". Como o fulano que estava um bocadinho morto, ou a miúda que estava um bocadinho grávida. Era só um bocadinho, mal se notava, não fazia mal nenhum. Uma Câmara Municipal "totalmente vinculada à legalidade", isso sim, seria inovador. Inaudito, original, sem precedente.

No episódio evidenciam-se também propostas de física teórica passadas a física aplicada, num estalar de dedos. "Existem alternativas a poucas centenas de metros." A contar a partir de onde? Da primeira ou da última paragem da farmácia itinerante? Para um jovem de 20 anos com uma constipação num Ibiza fumarento, ou para um idoso com problemas oncológicos numa cadeira de rodas? O TUT é solução sequer? A relatividade, ai a relatividade! Essa teoria manhosa. A farmácia chega mais depressa ao centro comercial que o idoso à tal farmácia alternativa "a poucas centenas de metros". Deve ser a tão badalada "política de proximidade" a afirmar-se em todo o seu esplendor.

O que deve manter-se no patamar do "só um bocadinho" a todo o custo, é mesmo o vínculo à legalidade. Imagine-se o que aconteceria à nascente do Almonda e à Renova? Que postura a Câmara Municipal seria obrigada a ter, se o vínculo à legalidade não fosse só "um bocadinho"? Provavelmente teriam de organizar visitas guiadas ao ground zero do acontecimento. Mostrar ao cidadão, pagador de impostos e comprador de papel higiénico, a cratera de impacto. Teriam de explicar muito bem explicadinho os comos e os porquês de aquilo ter acontecido. E, justificar porque assim permanece, ano após ano. Provavelmente também teriam de recrutar recursos humanos para as funções de guia turístico, transporte, catering e segurança. 28 recursos deveriam ser suficientes para suprir a necessidade emergente. Porque não sendo emergente, teria de ser planeado. E planeamento é coisa que não assiste a existência lusitana.

Uma vez que a sigla TUT já está ocupada, podia chamar-se TRUJA Tours (Turismo Rasca e Utilitarista à Jazida do Almonda). Pagando à Renova o direito de acesso ao espaço, claro. Isto admitindo que a multinacional estaria interessada nesta joint venture para rentabilizar a... chamemos-lhe, singularidade. Transformar a adversidade em oportunidade, seguindo os conselhos que se podem ler algures no livro de um empresário de sucesso, muito católico, aspirante a imperador, ou divindade, ou ambos. O autor tem o nome de um pato, já não me recordo bem. (*) Tudo isto a acontecer um bocadinho dentro da legalidade, claro.


(*) Trump Never Give Up: How I Turned My Biggest Challenges into Success 

(John Wiley & Sons, 2008)




01/10/2026

Jornal Torrejano – Nº 1240 - Esposas, mães, filhas, irmãs, mulheres

Jornal Torrejano – Nº 1240 – 02/10/2026

Esposas, mães, filhas, irmãs, mulheres

Para escrever as crónicas no Jornal Torrejano, habitualmente faço previamente um périplo pela imprensa regional para me inteirar da realidade, ficar a saber o que se passa. Nem sempre o tema seleccionado é o mais relevante da actualidade, depende da inspiração para escrever, depende de factores, muitas vezes, aleatórios. Hoje, domingo, enquanto fazia precisamente isso, recebi uma mensagem da minha mulher que tinha saído à rua. Devido a coleccionar grupos de risco, ocorre desde algum tempo uma pressão significativa no seio familiar no sentido de este preguiçoso crónico fazer exercício físico. Tenho resistido ferozmente à pressão, embora reconheça a pertinência. Suspeito que os médicos que ocasionalmente consulto tenham subornado a minha mulher. Preço a pagar por me fazer acompanhar de secretária nas consultas. Dizia a mensagem, estava a decorrer uma aula aberta (gratuita) de ginástica e bicicleta estática na praça em frente à Câmara Municipal do burgo onde pago IMI. Aula mista, com homens e mulheres. Ao som de AC/DC. Era esse o argumento motivador. A música que acompanhava o processo cruel de tortura colectiva estava dentro do meu espectro de preferências. Calculo que para muitos, seria o contrário. Cada um mata-se como quer, mas para mim, Highway to Hell ou Hells Bells fazem todo o sentido naquele contexto.

Como os pensamentos são como as cerejas, mesmo que não fossem, o meu subconsciente faria o que fosse preciso para expelir a ideia de esforço físico da minha mente, fui conduzido à questão da mentalidade e sua plasticidade. Recuando uns anos, seria improvável senão impossível, um evento deste género acontecer ao som de Hard Rock. As mentalidades mudaram, evoluíram. Seguindo esta lógica, dado o tempo necessário, quando acontecer ao som de Black Metal, já será tarde para mim. Ou lá estarei, de andarilho, a arrastar a botija de oxigénio, a marcar o tempo do blast beat com o indicador direito na armação de alumínio, os menos atentos interpretariam no gesto um tique da doença de Parkinson. Porque o estado da coluna vertebral já não permite abanar a cabeça sem consequências sérias. Já hoje não permite e, o cabelo já se foi há muito. O importante é participar.

Atrás, referi-me sempre à minha esposa como "mulher", referi-me aos participantes da aula como "homens" e "mulheres". Foi intencional. Um cidadão foi assaltado em Torres Novas e a polícia viu-se incapaz de acudir em tempo útil porque os recursos disponíveis estavam alocados a um caso de violência doméstica. O percentual das ocorrências de violência doméstica onde a mulher é vítima, em Torres Novas, situou-se nos 83 pontos em 2025 e, nos 72 no primeiro semestre deste ano. Maioritariamente no seio familiar, em casa. No global (números nacionais), estes cenários ocorriam inseridos num contexto de alcoolismo. Os tempos mudaram, as mentalidades mudaram, hoje o alcoolismo é menos preponderante, a noção inapropriada de posse toma o seu lugar. O bêbado sai, o labrego fica.

Embora a falta de recursos humanos e materiais da polícia seja um facto preocupante, a má formação do cidadão e a mentalidade retrógrada estão na origem deste problema específico. Problema que consome os parcos meios, solicitados com urgência para outras ocorrências. Se o fígado gordo estivesse a perder peso numa aula de exercício físico, idealmente como actividade conjunta de casal, saíam todos a ganhar. Consumiam-se energias, reforçavam-se laços. Provavelmente seria a mulher a dar uma palmada ao homem por ele estar a olhar para as nádegas da miúda da frente. Mesmo que fosse ao som de Pimba, evitavam-se problemas maiores. Na impossibilidade de possuir ou aceder a uma rage room totalmente equipada, arrear num ser humano, ou animal, é inaceitável.

Mas isto sou eu, a escrever refastelado no sofá a ouvir música rápida e furiosa em volume moderado, a afagar três gatos no colo. Baixa a tensão, normaliza o ritmo cardíaco, reconforta e acalma. Com todos estes luxuosos meios, falar é fácil.