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16/04/2026

Jornal Torrejano – Nº 1229 - Miau

Jornal Torrejano – Nº 1229 – 17/04/2026

Miau

Se eu tiver 20 ovelhas e o meu vizinho nenhuma, em média, cada um de nós tem 10 ovelhas. Sem análise crítica, a estatística pode espelhar tudo e qualquer coisa, menos a realidade. Mas são necessários números para iniciar todo o processo. Sem recenseamento, não há números sequer.

Uma gata fica apta a reprodução por volta dos 8 meses de idade. Uma gata tem geralmente 3 ninhadas por ano. Cada ninhada tem geralmente 5 crias. Uma gata de rua tem uma esperança média de vida de 7 anos. Com tudo a correr dentro da média, uma única gata, gera 105 gatos ao longo da sua vida.
Considerando que as crias fêmeas ficam aptas para reprodução aos 8 meses, é fácil perceber que ao longo dos 7 anos de vida da matriarca, o crescimento da população de gatos é exponencial. Daí a importância de controlo populacional via esterilização.

Os gatos, silvestres e semissilvestres, o que vulgarmente chamamos "gato de rua", são naturalmente esquivos. Só com meses, por vezes anos, de convívio com seres humanos é que se torna possível o contacto físico. Alguns, nunca. Para os esterilizar, primeiro, tem de ser possível apanhá-los. É aqui neste ponto que os cidadãos, voluntários e associações sem fins lucrativos que cuidam das colónias de gatos de rua, já com confiança conquistada à maioria deles, se tornam fundamentais no processo. Os idiotas de opinião que não se deve alimentar, desparasitar, disponibilizar abrigos, aos gatos de rua, são autistas aos factos: Se o animal não for alimentado vai revirar caixotes do lixo à procura de comida, vai caçar pequenas aves, roedores e répteis até à extinção, causando danos significativos no ecossistema. Se não for desparasitado regularmente, vai contrair e espalhar doenças. Sem contacto com seres humanos, será dificílimo capturar o animal para castração e, mesmo que o consigam, tenho pena do veterinário e auxiliar que tentar executar a cirurgia. Cuidar de colónias de gatos, é a liberdade cívica a actuar onde a decência institucional se demitiu.

O governo português, de uns anos a esta parte, providencia uma verba anual às câmaras municipais destinada à castração de animais de rua. Associações e particulares podem (devem) solicitar aos serviços veterinários das respectivas câmaras municipais a castração, sem custos. Esgotada essa verba e perante a persistência do problema, a Câmara Municipal de Torres Novas, atribuiu um financiamento de 7.000€ para as castrações.

Portugueses que somos, preferimos usufruir desta quase borla nos animais domésticos, poupando uns cobres na castração do bichano lá de casa no veterinário da Câmara, em vez da clínica privada. Subtraindo assim eficácia na resolução do problema dos animais errantes. Resultado: veterinários das câmaras municipais atascados em trabalho e, as colónias de rua a continuar a crescer.

Quem já passou pelo processo com animais de rua, ficou a saber em detalhe como tudo funciona.

Primeiro, temos de conseguir capturar o animal. A Câmara Municipal pode providenciar armadilhas, mas, como as que possui são em número muito limitado, sugere ao cidadão que capture o animal pelos seus próprios meios.

Segundo, é da responsabilidade da Câmara Municipal assegurar a recolha e posterior entrega do animal, mas, é preciso uma transportadora. A Câmara pode providenciar transportadora, mas, como as que possui são em número muito limitado, sugere ao cidadão que use a sua. E, já agora, a sua viatura particular para entregar e recolher o animal.

Terceiro, é condição obrigatória jejum de 12 horas para a cirurgia. Caso o cidadão não o consiga assegurar (como pode, se é um animal de rua?), o bicho é recolhido, fica enclausurado na transportadora durante 12 horas nos serviços veterinários da Câmara Municipal, após as quais é operado e, devolvido dentro da mesma transportadora. Invariavelmente encharcado em urina, fezes, e sangue. Destinado a ser devolvido imediatamente à rua.

Quarto, a cirurgia é feita sob anestesia. Ou o cidadão providencia o período de recobro, ou o gato é atirado à rua a cambalear, ainda meio adormecido, sujeito ao que possa acontecer. Cara ou coroa. Ou sobrevive, ou morre. Uma vez que não se pratica a eutanásia, deixa-se a sorte decidir.

Seja como for, garante-se temporariamente a redução do número de animais errantes. E isso é sempre uma estatística favorável às políticas e aos políticos. A estatística confirma ter sido uma óptima ideia. Confirma que o sistema funciona. Não ilustra como e em que condições. Os números? Ninguém sabe. Não existe recenseamento. Mas, se a totalidade da verba fosse gasta exclusivamente em castrações de gatas de rua, dava para 74! Faz-se a matemática ao contrário. A verba determina o recenseamento. Oficialmente, no concelho de Torres Novas, existem 74 gatas. Ponto. Porque a Câmara Municipal tem sempre razão e está empenhada em efectivamente resolver o problema. É impossível gente tão importante, tão bem formada, tão bem vestida, estar-se a borrifar.




03/04/2026

Jornal Torrejano – Nº 1228 - O castelo fácil

Jornal Torrejano – Nº 1228 – 03/04/2026

O castelo fácil

Uma estratégia comercial converteu-se em moda social. Não é propriamente inédito, diversas tentativas de estimular o consumo fizeram-no inúmeras vezes. Refiro-me especificamente à "experiência". Produtizou-se a "experiência" com o intuito de revitalizar turismo, restauração, hotelaria, entretenimento e cultura.

Jantar fora é banal, experiência gastronómica já não. Mesmo que se coma exactamente a mesma coisa, no mesmo sítio, em ambas as situações. A distinção semântica cria percepções diferentes, simulando patamares sociais desnivelados. Uma, é apenas refeição para o Zé. Outra, é uma experiência fotografada, filmada, partilhada e comentada nas redes sociais. Mas o Zé é o mesmo.

Agora que satirizei e reduzi o ego da experiência à sua justa insignificância, já me sinto confortável para falar da experiência onde ela é útil para enriquecer a consciência e criar conhecimento.

O memorial do holocausto em Berlim, foi construído numa arquitectura que propositadamente causa desequilíbrio físico e desorientação ao visitante. A sala museu documental é subterrânea, sem clarabóias, impondo a sensação de opressão e claustrofobia. Em todo o monumento não existe qualquer decoração, qualquer sugestão de beleza ou conforto. A experiência da visita é profundamente deprimente a par de solene. Como a morte de milhões de seres humanos deve ser. Todo o monumento foi objectivamente projectado para infligir experiência. Sem na realidade existir no local qualquer cemitério, depósito de cinzas, um singular cadáver, qualquer dispositivo destinado à tortura ou causar a morte, a sensação de tudo isso é omnipresente. Uma arquitectura inacreditavelmente hostil conduz o visitante ao estado de espírito certo, susceptível de perceber a mensagem. De forma indelével. A história é transmitida por via emocional. A experiência resulta em conhecimento.

Os castelos, tanto os de função militar como os decorativos, foram construídos em locais altos por várias razões. Sendo as principais, o maior alcance da vista e, a inacessibilidade. Repito: A inacessibilidade. Ver mais longe, para identificar qualquer potencial ameaça o mais precocemente possível. Dificultar ao máximo a aproximação da ameaça, com acessos tortuosos, difíceis e desgastantes. A subida íngreme e acidentada até ao (preferencialmente) único ponto de acesso ao interior, garantia que o inimigo chegava exausto, sem forças para lutar. O portão principal, no fundo de um funil de pedra, permitia que uma pequena força conseguisse deter e aniquilar invasores em número substancialmente superior. Ali chegados, viam-se entalados num espaço exíguo sem mobilidade, entre as armas dos defensores frescos à sua frente e a pressão dos restantes invasores a empurrar nas suas costas. Exaustos pela subida exigente, as vantagens somam do lado dos defensores do castelo. Uma zona de matança perfeita.

Diversos castelos europeus têm na sua história episódios que demonstram a eficácia desta arquitectura e posicionamento estratégico. O de Torres Novas também.

A construção de acessibilidade ao castelo, pode ser (mais) um exemplo ilustrativo do divórcio entre o município e a cultura. Pode ser (mais) um exemplo de delapidação do património. Pode ser (mais) um exemplo de erosão da identidade de Torres Novas. Mas desconfio que se trata apenas de (mais) um exemplo de oportunismo de candidaturas a financiamento. Se um dia abre programa de financiamento para formar palhaços, Torres Novas derruba o castelo e monta uma tenda de circo. Defendem-se dos invasores atirando tartes.

A experiência, seja pelo prisma de moda social, seja pelo prisma pedagógico, passa a oportunidade perdida se não acontecer mais nada além da iluminação LED e passadiços. Até parece que Torres Novas e seu castelo não têm história que justifique outro género de abordagem. Para quem não gosta de ler e só vê os bonecos, basta ir à praça 5 de Outubro olhar para o painel de azulejo que lá está. Mesmo degradado e sem manutenção, dá para ter uma ideia da história que nos assiste. Como se discute actualmente noutros locais noutros ambientes: o facilitismo só traz malefícios. Entre o pedagógico e o decorativo, não me parece existir dúvida acerca de qual é fácil.




19/03/2026

Jornal Torrejano – Nº 1227 - Zôon politikon

Jornal Torrejano – Nº 1227 – 20/03/2026

Zôon politikon

Não posso, nem quero, precisar um ponto no tempo para quando se iniciou o processo mas, decorreu algum, desde que existe investimento significativo numa engenharia social destinada a politizar o maior número possível de aspectos da vida do cidadão. A sexualidade, a alimentação, o vestuário, utilitários domésticos, meios de transporte, foram politizados.

Comportamentos sociais, preferências pessoais, hábitos de consumo, foram politizados. Não estamos longe do pináculo do processo, onde, rigorosamente tudo, estará politizado. Partidarizado. Polarizado. Até uma escova de dentes pode vir a denunciar preferências ideológicas. A cultura de cancelamento compete taco a taco com a santa inquisição.

Existe uma pressão inequívoca aplicada ao cidadão para que ele tome uma posição. Para que ele assine por um clube. Já que o interesse do cidadão pela política está reduzido a mínimos desprezíveis, como demonstrado pelos números elevados de abstenção nos actos eleitorais, leva-se a política ao cidadão de outras formas. A parábola da montanha e Maomé.

Além do óbvio, dividir para reinar, reiterado por tantos impérios na miserável cronologia humana, há uma lógica inegável de causa efeito. Se se estão a formar equipas, inevitavelmente, irá acontecer um jogo.

A engenharia social opera em múltiplos parâmetros simultaneamente, afinados para produzirem resultados que oscilam entre o muito provável e o garantidamente certo. Dividir para reinar, aglomerar pessoas por denominador comum arbitrário, são degraus num percurso com destino previsível. Depois de fabricado o inimigo, entra a dessensibilização do cidadão para a guerra e implícitos horrores, oferecendo miséria e violência em formato de entretenimento para as massas. Normalizar divergência de interesses resolvidos á bofetada, envenenando a via do diálogo e diplomacia, manchando-a com fake news, incumprimento de compromissos e outros insucessos, reais ou inventados. Subvertendo o significado das palavras, digno de pesadelo orweliano, instrumentalizando a falta de ética mediante circunstância conveniência ou argumentação, os canalhas são sempre "os outros".

A desumanização e demonização dos alvos, inibe a empatia, o remorso, a culpa e por último, a responsabilidade, nos actos hediondos cometidos sobre eles. Ninguém hesita em esmagar uma viúva negra com a bota, sem remorsos. Lá ia ela descansada da sua vida, a pensar caçar um mosquito para a janta, não se meteu com ninguém, não provocou ninguém, ingénua vítima de péssima imagem pública, pimba, já foste. Apenas culpada de ser demasiado pequena para possuir tanto poder.

A ciência diz-nos que um ser humano mentalmente são, sozinho, isolado, não tem propensão para a violência. Em grupo, o caso muda radicalmente de figura. A ciência diz-nos também que, o distanciamento do indivíduo ao acto violento, tem um papel fundamental. Matar com as próprias mãos, pela proximidade física, contacto directo com a pele da vítima, é raro. Matar com uma espada, cria distanciamento, já se torna mais fácil, o peso moral diminui. Com uma arma de fogo, o distanciamento é ainda maior, torna-se ainda mais fácil, foi a bala não fui eu. As tripulações dos bombardeiros olham para si próprios como aviadores, e não soldados. Os controladores remotos de drones, são classificados como especialistas em alta tecnologia, e não soldados. Seguindo a lógica desta escala até uma sala climatizada, luxuosamente decorada, cadeiras ergonómicas em pele de búfalo, mesa de mogno com motivos embutidos em madeiras exóticas, esticar um dedo, carregar num botão e, matar milhares de seres humanos no outro lado do planeta, chama-se... pequeno almoço.

O que descrevo atrás, explica com mais ou menos detalhe porque, tomar conhecimento pela televisão de crianças decapitadas e com as tripas de fora é menos chocante e preocupante que a eventual subida da prestação da casa. Explica. Mas não justifica.

A fase final desta culinária altamente elaborada, transferir a responsabilidade dos actos horrendos perpetrados pelos governantes para os cidadãos, porque, afinal, foram os cidadãos que os elegeram em acto democrático perfeitamente legal, fechará o círculo. E então, só então, serão exigidas justificações.

Assegurar a sobrevivência e bem estar à custa da vida de outrem, encaixa na definição de parasita. Preferem ver lobos e tubarões quando se olham ao espelho, mas a realidade devolvida pelo reflexo é de carraças e pulgas.

Segundo Aristóteles, o homem é um animal social. Á organização social, chamamos política. Logo, o homem é um animal político. Por a existência humana ser indissociável da tecnologia, a mais recente proposta para a designação que nos identifica é, homo techno-sapiens, substituindo o anterior homo sapiens sapiens. Sociais, políticos e tecnológicos, vazios de humanidade, pode-se remover o homo com elevado grau de segurança.


Para o leigo, a tecnologia é indistinguível da magia.

Terceira lei de Clarke.

(Arthur C. Clarke, 1917/2008).