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19/09/2025

Jornal Torrejano – Nº 1215 – Um país a brincar

Jornal Torrejano – Nº 1215 – 19/09/2025

Um país a brincar

"A malta sabe que é curto. Mas vai ter de dar." Episódios ilustradores da mentalidade portuguesa, em versão condensada. Ou, a cronologia recente em pontos altos do culto da irresponsabilidade endémica lusitana.

Acidente de aviação na ilha da Madeira em 1977, do qual resultaram 131 mortos. Consequência de aterrar um Boeing num selo de correio, ser considerado prática viável e segura, mesmo com chuva intensa. Ainda hoje, depois da pista substancialmente alongada, aterrar significa travões a fundo mal as rodas toquem no chão, levantar voo significa acelerador a fundo antes de soltar o travão de mão.

Acidente ferroviário de Alcafache, linha da Beira Alta, em 1985, do qual resultaram 150 mortos. Oficialmente, "falhas de comunicação" provocaram a colisão frontal de dois comboios a circular em sentidos opostos na mesma linha, a cerca de 100km/h de velocidade.

Acidente rodoviário de Entre os Rios em 2001, do qual resultaram 59 mortos. Extracção de areia em excesso no rio, falta de vistorias e ausência de manutenção (reparação e reforço dos pilares), teve como consequência o colapso de uma ponte de travessia do rio Douro com todas as viaturas que lá circulavam em cima.

Incêndio de Pedrogão Grande em 2017, do qual resultaram 47 mortos. Quilómetros e quilómetros de explorações de eucalipto, com pouco mais de 50cm entre as árvores, potenciaram a devastação pelo fogo, com uma rapidez e intensidade de proporções épicas.

Acidente rodoviário de Borba em 2018, do qual resultaram 5 mortos. Aluimento de terras arrastou um segmento de estrada municipal (ladeada por pedreiras de ambos os lados) e viaturas que lá circulavam. A versão lusitana da "ruta de la muerte" boliviana. Distância de defesa não era respeitada, fissuras foram detectadas, avisos foram emitidos.

Acidente ferroviário do Elevador da Glória em Lisboa em 2025, do qual resultaram 16 mortos. Um cabo rompeu-se. Manutenção sujeita a prioridades economicistas, estrutura e tecnologia do século dezanove, sem redundância de segurança.

Até a tragédia acontecer, tudo era extremamente seguro e fiável, nas mãos de profissionais da mais elevada competência. Tudo respeitava com rigor a legalidade e as boas práticas. Mesmo depois, mantém-se essa posição, apesar de incompatível com o drama da realidade. Prioridades económicas e facilitismos, criaram as condições necessárias para que, seis incidentes em menos de 50 anos, ceifassem mais de 400 vidas. Não foram catástrofes naturais, imprevisíveis, foram ineficiências humanas. Más decisões e cedências.

O que têm todos estes eventos em comum? Muita coisa. Aconteceram em Portugal. Causaram vítimas mortais. Tiveram origem em problemas estruturais deliberadamente ignorados durante anos a fio. Solucionáveis investindo largas somas de dinheiro, ou, inibindo largas somas de lucros. Em suma, resolver preventivamente era caro, ou, iria incomodar interesses que seria melhor não irritar. Tirando algumas demissões pontuais, e provavelmente o operacional que se via obrigado a fazer omoletes sem ovos para conseguir cumprir ordens e manter o emprego, ninguém, nenhum decisor, foi culpado, multado, penalizado, preso, prejudicado no seu percurso. Excepto as vítimas que pagaram com a vida. Propõe-se umas indemnizações à laia de rolha. Os mortos não falam, compra-se o silêncio dos vivos.

Mesmo reduzindo tudo à perspectiva economicista, insensível aos custos humanos, o dinheiro que se gasta depois, não é o mesmo (ou mais) que se gastaria antes? Evitava-se a tragédia.

Um país a brincar.




04/09/2025

Jornal Torrejano – Nº 1214 – À deriva? Ou derivado?

Jornal Torrejano – Nº 1214 – 05/09/2025

À deriva? Ou derivado?

Quando as cadeiras do poder são ocupadas com saudável rotatividade, daí as regras democráticas o potenciarem, há sempre a possibilidade de atribuir responsabilidades aos ocupantes anteriores pelas asneiras, cujas consequências, agora, têm de ser enfrentadas e resolvidas. Não contribui em nada para a solução mas, é um salvar de face usado com frequência pelos políticos. Sacudir a água do capote instrumentalizando a legitimidade conferida pelo histórico da governação.

Quando as cadeiras do poder são ocupadas pelos mesmos ao longo de trinta anos, sacudir a água do capote torna-se um exercício difícil, senão de todo impossível. Mesmo num contexto de povo com fraca memória.

Quando tomada a decisão de realocar a Câmara Municipal para o edifício do antigo hospital, a questão da escassez de estacionamento que isso iria provocar foi colocada. Duas instituições de grande dimensão fisicamente tão próximas, a Escola de Polícia e a Câmara Municipal, iriam competir pelos lugares de estacionamento, já manifestamente insuficientes para uma só, como fez prova a anterior convivência da Escola de Polícia e Hospital. Inclusive, numa tentativa despropositada de mitigar o problema, ocorreram expropriações injustas que penalizaram significativamente património imobiliário privado (prioridades pertinentes se elevaram). A resposta da autarquia, na altura, a esta questão foi a do costume: Nunca estão satisfeitos. Só sabem criticar. Está sempre tudo mal. Se fazemos é porque fazemos, se não fazemos é porque não fazemos. Desdém. O estacionamento do Virgínia foi dando alguma ajuda no escoamento mas, agora, com a "requalificação" desse espaço, inibindo a possibilidade de ali estacionar, a bolha estoirou.

Sem assumir e enfrentar as decisões do seu próprio passado, a autarquia surge então com soluções idiotas, vendidas como poção mágica. Impõe-se evitar a todo o custo admitir erros e mau planeamento. A gravidade de uma ausência gritante de planeamento urbanístico, é, mais uma vez, ocultada por cortinas de fumo. Permanece a postura de arrogância e prepotência característica do provincianismo, pequeno demais para lhe ser concedido poder. Um penso rápido para acudir a uma hemorragia arterial e aparecem sorridentes quais salvadores da pátria. O importante é fazer coisas. Ineficazes, inúteis, inadequadas. Porque o importante é ter uma lista de coisas feitas, para atirar à cara de quem ousar ver através da cortina de fumo.

A primeira "grande" intervenção do Partido Socialista quando chegou ao poder foi arrancar os castanheiros da Avenida Dr. João Martins de Azevedo. As raízes do Castanheiro são de características radiculares (espalham-se em estrela próximo da superfície), estavam a causar danos no pavimento, às infraestruturas de águas e esgotos e já começavam a ameaçar as edificações. Foi uma intervenção necessária que, para alívio de muitos interesses imobiliários (na política as prioridades são muito fluidas e dinâmicas), aconteceu em tempo útil. No contexto urbano, preferencialmente usam-se árvores de folha caduca, de modo a providenciar sombra no verão e sol no inverno, de crescimento rápido, para não ter de se esperar séculos pelos benefícios e, raiz a prumo (raiz vertical), evitando assim eventuais danos nas infraestruturas urbanas. Carvalho Vermelho, Tília e Plátano são alguns exemplos de árvores com estas características. Trinta anos depois deste conhecimento adquirido, o que é que o mesmo Partido Socialista, ainda no poder, planta na Avenida 8 de Julho? Dica: não são Carvalhos Vermelhos, Tílias ou Plátanos.

Comportamento errático, contraditório, sem um rumo, sem uma rota, sem um plano. Vão-se fazendo coisas, porque o importante é ter uma lista de coisas feitas.

Assegurando continuidade à pouca coerência camarária, faz-se mais um arraial. Música na Ald... Festival na Vila. No programa consta algo tremendamente impressionante e inovador, o video mapping (prática existente desde os anos 60 do século XX, embora imensamente melhorada pela tecnologia actual). A espetacularidade do video mapping depende directamente da morfologia da superfície onde o video está a ser projectado. Quanto mais liso e uniforme, mais pobre o espetáculo. Até parece que alguém foi a Paris por ocasião dos jogos olímpicos, achou piada ao video mapping mas não percebeu a pertinência de um ecrã potenciador do propósito. Arco do Triunfo e Torre Eiffel, são telas substancialmente diferentes da Praça 5 de Outubro. Beber cerveja e mijar pelos cantos mantém o povo feliz, siga-se esse caminho, o tradicional. Pela cultura, dizem eles, enquanto debitam entretenimento popular. Também nisto, não fazem a mínima ideia do que é, nem como se faz. Se Torres Novas for elevada a cidade, talvez algo mude. Ou não.