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28/02/2022

Jornal Torrejano - Nº 1099 - Mais rápido que a própria sombra.

Jornal Torrejano – Nº 1099 - 20/11/2020

Mais rápido que a própria sombra.

As árvores, além de produzirem oxigénio e servirem de lar para uma série de bicharada, têm num dos efeitos colaterais à sua existência, o arrefecimento do ar. Onde há árvores, fica mais fresquinho. Seria de esperar que, numa localidade onde o calor no verão ultrapassa os 40 graus com frequência, as árvores fossem estimadas e prioritárias. Não. Na cidade sem Dalton mas com muitos Ran-Tan-Plan, corta-se primeiro e pergunta-se depois. Em caso de dúvida ou empate, corta-se.

Senão vejamos, arrancaram-se os castanheiros da avenida porque as raízes estragavam o piso. Depois de matarem os castanheiros, o piso da avenida ficou lisinho e nivelado? Não.

Cortaram-se faias, porque sujavam muito as ruas e causavam rinite a muitos torrejanos. No fim de matarem as faias, as ruas ficaram limpas? Não. Deixou de haver casos de rinite em Torres Novas? Também não.

Cortaram-se as árvores que ladeavam o planalto, porque eram desadequadas, não serviam para nada e, tinham custos de manutenção. Ficou uma área que, alguém teimosamente insiste em classificar como privilegiada para lazer e desporto. Exposto à torreira do sol desde que nasce até que se põe. Alguém usa, alguém lá vai? Não. Os custos de manutenção baixaram? Também não. A muito custo lá plantaram três ou quatro árvores para disfarçar, ao longo de várias intervenções. Aliás, pelo dinheiro que se enterra ali, deve lá haver petróleo, desconfio.

Os chorões, prejudicavam as margens do rio, removeram-se. O rio ficou mais protegido? Não. O rio vai castanho. Como não é poluição, são sedimentos arrastados pela chuva, a malta relaxa. Erosão não é mediático. Mas, havendo árvores, são esses os sedimentos que as raízes retêm, outro efeito colateral da sua existência, prevenir a erosão dos solos.

Plantou-se um pequeno espaço verde, vizinho a um monumento histórico, com visibilidade turística, alegadamente. Alguém regou, aparou, cuidou? Não. Morreram as árvores e o resto é mato. Lindo de se ver, atrai excursões de muito longe. Se por um devaneio qualquer resolvessem fazer hoje um pequeno bosque de plátanos, lá para 2120 quando se usufruísse plenamente da sua presença, alguém na câmara ficaria a coçar a cabeça acerca de como teria o descalabro chegado àquele ponto, já que nunca ninguém tinha regado aquilo. Chegavam rapidamente à conclusão que as folhas secas sujam muito as ruas e o fresquinho faz mal à sinusite. Intolerável, portanto. Ouvem-se motosserras. Motosserras laser, porque é 2120. Uma avaria-se, a Câmara não tem contrato de manutenção, obrigando a intervenção, planeada ao detalhe com muita antecedência, a resvalar em prazo e em custo, para o triplo. Um fulano magrinho da Rua J expõe a entropia do sistema e forma o movimento “Irra Nabasta Já?”, convoca manifs, sensibiliza a malta e salva os plátanos. Tudo isto antes do processo de aquisição por ajuste direto para a reparação da motosserra ser lançado, sequer. Há que aproveitar as falhas do sistema.

De volta ao presente, um antepassado daquele ativista vê-se envolto num cheiro nauseabundo para chamar a atenção da malta. Porque a malta anda distraída. Não Basta ser entidade altamente poluidora, um tribunal mandou-a encerrar. A poluição cessou? Não. O que fazem as entidades competentes? Nada. Estão atentas, dizem. Logo que se produza ali alguma árvore, caem-lhes em cima. Mais rápido que a própria sombra.




27/02/2022

Jornal Torrejano - Nº 1098 - Para quem é, bacalhau basta.

Jornal Torrejano - Nº 1098 - 06/11/2020

Para quem é, bacalhau basta.

Quando vou a um restaurante e peço um bife, a minha expectativa é que a próxima pergunta do empregado de mesa seja: “Quer da vazia, lombo ou alcatra?” Sei que estou no sítio errado quando as expectativas são defraudadas pela pergunta: “Quer bem ou mal passado?” Sem me poder considerar mundano, sou suficientemente rodado para perceber a diferença, tanto de qualidade como de preço, entre as duas perguntas. Apesar de cair pontualmente na tentação da mixórdia de gordura e farinha, com um picle, a que chamam eufemisticamente fast food, não considero tais sucursais de consumo, restaurantes. Porque, por todos os parâmetros, não o são. Muito me admira a existência de quem os considere como tal. Pior, quem os considere de nível. A ponto de levarem a família ou os amigos a comer lá por ocasião de celebrações festivas. Datas especiais que ficam marcadas por fezes quase líquidas, não é propriamente compatível com o apreço que tenho pelos meus e os que me são próximos. Prefiro assinalar esses momentos de forma mais sólida e consistente. O facto de tais estabelecimentos serem percebidos por alguns, muitos, como restaurantes de alto gabarito e qualidade, diz muito, senão tudo, sobre o patamar social de determinada região. Referi “social” excluindo propositadamente o “económico” porque de facto, não tem nada a ver com poder económico, dinheiro. E tudo a ver com informação, educação e cultura. Perfeitamente capazes de ir passar férias com a família a um paraíso tropical, e, comer sistematicamente a tal mixórdia de gordura e farinha, com um picle, porque são férias. Já basta as limitações a que se sujeitaram o ano inteiro para conseguir uma semanita de liberdade, vamos lá gozar isto à grande. Lanchar um par de maçãs e visitar o museu Carlos Reis, passear pela avenida e ler um livro na biblioteca Gustavo Pinto Lopes, é para quem gere os recursos mediante outras prioridades. É uma realidade social e não económica. Por esta perspetiva, entendo ser de grande responsabilidade governativa, um ordenamento urbano que coloque macieiras à volta das escolas (impraticável porque a política camarária é adversa às árvores) e os hidrocarbonetos saturados fora do alcance fácil de quem, sujeito às pressões de integração social e afirmação de personalidade próprias da juventude, ainda não sabe escolher bem. Em tempos decidiu-se que num raio de X metros à volta de uma escola, não poderiam existir salões de jogos. Serviram todas as justificações baseadas na saúde (nessa altura podia-se beber álcool e fumar em todo o lado) assim como a vulnerabilidade infantil e juvenil na exposição ao jogo e outros vícios. Apesar de nenhum jogo de snooker causar diabetes nem uma jogatana de flippers causar obesidade mórbida, concordei com o princípio. Como consequência, houve investimentos sem retorno, postos de trabalho perdidos, áreas de negócio inviabilizadas. Assumiu-se este custo por um bem comum, superior. Para muita pena minha, estes valores não são refletidos na gestão autárquica atual. Perderam-se. Ou melhor, venderam-se. A troco de meia dúzia de postos de trabalho precário, a troco do que é popular, a troco do que é nefasto. Não duvido que haja retorno em votos. Retorno líquido, certamente.




26/02/2022

Jornal Torrejano - Nº 1097 - É um pássaro!? É um avião!? Não! É o Super Mercado!!

Jornal Torrejano - Nº 1097 - 23/10/2020

É um pássaro!? É um avião!? Não! É o Super Mercado!!

Corria o distante ano de 1987 quando foi inaugurado o segundo hipermercado em território nacional, na Amadora. O primeiro foi em Matosinhos, em 1985, mas por causa da pronúncia do norte, foi mal interpretado e a malta não ligou. Os torrejanos, sedentos de modernidade, apressaram-se a ir à Rodoviária Nacional, que hoje é um monte de entulho vedado por um muro para não ferir suscetibilidades, alugar uns autocarros para excursionarem probatoriamente a novíssima coqueluche do consumo, tudo muito cosmopolita, claro. Mal o sol se erguia, estavam todos de mala vazia na antiga garagem dos Claras, que hoje é… Bom, ninguém sabe muito bem o que é aquilo, por isso chamemos-lhe “a coisa” que assim toda a gente percebe, para partirem rumo à capital, a cidade da Amadora, com o intuito de encher a mala, alguns, ver as vistas, outros. Lá, nesse destino de sonho, descobriram as mais recentes novidades que só a modernidade e o progresso poderiam oferecer. Deslumbrados com tanta luzinha, tanta corzinha e o ritmo frenético com que tudo se processava, compraram laranjas do Pafarrão, doces e suculentas. Figos de Torres Novas, enormes e brilhantes como se tivessem sido encerados. Garrafas de bebidas espirituosas, temperadas com álcool destilado em Torres Novas. Rolos de papel higiénico, macio, dupla folha, imaculadamente branco, fabricado na Zibreira. Álcool em gel fabricado nas Lapas (não viesse para aí uma virose qualquer e, mais vale prevenir que remediar). Azeite virgem, fabricado a partir das azeitonas do concelho de Torres Novas. E outros artigos igualmente raros.

Quando as malas já estavam cheias de todas estas iguarias, apenas acessíveis aos que heroicamente se aventuraram na expedição, regressaram ao burgo com as palas dos autocarros a arrojar pelo chão. Chegados cá, do alto da sua recém adquirida urbanidade, esfregaram na cara dos conterrâneos, saloios cobardes, que não se interessaram pela aventura da expedição ao progresso, toda uma experiência transcendente, a roçar o religioso. E feitas as contas, considerando o custo da viagem, os bens de consumo terem ficado pelo dobro do preço, não fazia mal nenhum. No dia seguinte, na Amadora, as prateleiras foram repostas com indiferença por indiferenciados. Em Torres Novas, o rio Almonda recebeu os bens de consumo, depois de processados pelo aparelho digestivo dos torrejanos, nunca mais se recompondo do trauma até aos dias de hoje. Dizem as lendas desses dias longínquos, acerca da profundidade do impacto desta heroica expedição que, houve homens feitos, de barba rija, a jurar de lágrimas nos olhos que, se um dia Deus permitisse a vinda de tais supermercados para Torres Novas, cairiam de quatro, esticavam a língua e ficariam de cauda a abanar, arfando em êxtase.

Não sou aventureiro expedicionário, talvez por isso me ecoem na cabeça as palavras do meu avô: “Não sirvas quem nunca serviu”.




25/02/2022

Jornal Torrejano - Nº 1096 - Está tudo mal. Tudo.

Jornal Torrejano - Nº 1096 - 09/10/2020

Está tudo mal. Tudo.

Em amena cavaqueira entre amigos, a discutir o desempenho autárquico, ou a falta dele, surgiu a frase: “…criticar a Câmara Municipal é fácil…”. Concordei de imediato. Aliás, reforcei que é O MAIS fácil. Pela frequência com que se põem a jeito. É difícil ficar impávido perante a abundante oferta. Ir a Torres Novas é como visitar aquele amigo que é muito desarrumado, quando desvias a pilha de revistas que está em cima do sofá para te poderes sentar, ele diz “deixa estar isso aí, senão perco-lhes o norte”. Não é erro, é funcionalidade. Num cenário rico em asneiras, micro e macro, a crítica ou discordância irá brotar em igual proporção. Mas o escrutínio popular, a opinião critica, é mal recebida por alguns indígenas. É vulgar respostas do género: “nunca estão satisfeitos”, “preso por ter cão, preso por não ter”, “só sabem dizer mal”, “nunca está nada bem”. Não exatamente assim como escrevi, mas pejado de erros gramaticais e ortográficos.

Esta assimilação da asneira como relíquia cultural, a veneração a quem a fez e perpetua, é endémica. “Nós sabemos que é uma asneira. Deixa ser. Desanda e vai criticar o raio-que-te-parta”. Esta reação emocional denuncia um sentimento de pertença/propriedade, bairrismo, não é uma reação ponderada e carece de uma avaliação imparcial do tema em causa. Reage-se á crítica da gestão pública como se reage no futebol: irracionalmente fiel ao nosso clube. O General Custer também levou até ao fim as consequências das suas (más) decisões, condenando um destacamento inteiro a ser massacrado, incluindo ele próprio. A lealdade e confiança dos seus homens de nada adiantou para alterar o desfecho.

Também endémico, e totalmente dicotómico, é o desdém pela prata da casa e idolatração ao que vem de fora. Eu sei, eu sei. Um exército de psiquiatras ficava de mãos cheias durante muito tempo. Se calhar é isso que é preciso para mudar as coisas: um executivo importado. Um conjunto de pessoas que não saiba rigorosamente nada sobre o concelho e sobretudo, não conheça ninguém do concelho. Julgo impossível um executivo totalmente ignorante da realidade e das necessidades de Torres Novas, fazer pior trabalho que o que tem sido feito pelos indígenas conhecedores dos cantos á casa. Até a guardar cabras falharam. Sim. Bateu no fundo. Quando se gasta 20 mil euros em promoção interna, não havendo nada de assinalável para promover no mercado interno, muito menos para um target de domésticas e reformados, confirma-se o andar á deriva. Quando a autarquia faz asneira e, perante o parecer negativo da entidade reguladora estatal, insiste na asneira, levando-a até às últimas consequências, que é que se pode esperar se não as últimas consequências? Se a CMTN é um alvo fácil, a responsabilidade disso é da CMTN. E para um alvo tão fácil, que se põe a jeito com uma frequência tão elevada, admira-me a reação de alguns opositores, ora anémica ora pueril, isto quando se dignam a sair da apatia. Restam os odiados críticos e insatisfeitos. Cada um tem o que merece.




24/02/2022

Jornal Torrejano - Nº 1094 - As cabras do Reino.

Jornal Torrejano - Nº 1094 - 11/09/2020

As cabras do Reino.

Era uma vez um reino. O Rei, tomou conhecimento que uma república aliada, doava dinheiro a quem quisesse criar cabras com o intuito de limpeza do mato nas serras, de modo a diminuir o risco de incêndios. Uma solução barata, neste caso de borla, e acima de tudo não poluente, amiga do ambiente, tema muito em voga entre os gentios. Era isso mesmo que o Rei precisava, ser popular entre os gentios. Se bem o pensou, melhor o fez. Vindo o financiamento a fundo perdido, o Rei delegou a operacionalização num dos Nobres da sua confiança. Passou um ano. Lá para o lado esquerdo do reino, estava uma Amazona descansadamente em casa a ver TV. Não havia zapping que a livrasse de ser bombardeada com a notícia de um incendio numa serra distante que vitimou uma quantidade de animais. Serra + incêndio + animais… Acendeu-se uma lamparina cerca de quinze centímetros acima da sua cabeça. “Pois é. Que será feito das cabras? Após a pompa e circunstância da inauguração desse projeto, nunca mais ninguém ouviu falar delas”. Pôs-se a caminho e, foi solicitar audiência na coorte. Ia inteirar-se do ponto da situação. Os elementos da coorte olharam uns para os outros, encolheram os ombros e responderam que não sabiam nada. De nada. Perante a ignorância e falta de resposta acerca de uma ideia sua, o Rei, viu-se numa situação desconfortável. Rapidamente e em segredo, foi perguntar ao Nobre a quem delegara a responsabilidade, o que se passava. O Nobre, com a maior cara de pau que conseguiu afivelar, respondeu: “Excelentíssimo e Iluminado Rei, segui o seu exemplo. Tal como vós fizestes com a recolha de lixo e limpeza das ruas do Reino, subcontratei o serviço. Infelizmente, o subcontratado foi de uma incompetência tal, que deixou morrer as cabras à fome e sede”. O Rei percebeu que as palavras do Nobre nunca poderiam chegar à Amazona, muito menos à plebe. Decidiu ser ele a responder diretamente à questão. Na sessão pública seguinte, perante a Amazona e os muitos gentios que se a acotovelavam ao fundo da sala para saber as novas, aflito, pelo golpe que a notícia de tal incúria iria trazer à sua imagem, quis expulsar os jornalistas da sala… não espera, isso foi o outro. É o que dá ter Reis consecutivos da mesma cor, um gajo baralha-se. Onde ia eu? Há! O Rei, num golpe de genial improviso, aclarou a voz e disse: “Trago más notícias. As cabras andavam a pastar junto da nascente do rio, desequilibraram-se, caíram à água e… foram sugadas pela turbina da Renova.” Assim tudo encaixava, o assunto estava encerrado sem penalizações para ninguém, exceto as cabras. Acidentes acontecem. A Amazona, pouco convencida, regressou a casa, e à sua TV. Um canal estava a transmitir uma reposição da série Baywatch. Calções + biquínis + água… Acendeu-se uma lamparina cerca de quinze centímetros acima da sua cabeça. “Pois é. Que será feito das piscinas?”

Porquê uma parábola monárquica? Porque numa República existe uma constituição, leis, regras, protocolos. E penalizações por incumprimento.