Jornal Torrejano – Nº 1199 – 24/01/2025
Chitty Chitty, Bang Bang
Imaginemos
um indivíduo, proprietário de um carro velho. Tudo correu bem durante muitos
anos mas, chega uma altura em que as despesas de manutenção são elevadas, as
peças para substituição escasseiam, o conforto e segurança estão comprometidos,
os acessórios tecnologicamente obsoletos. Em suma, a sua utilidade tornou-se
limitada. O indivíduo decide então desfazer-se do velho e fiel companheiro,
agora pouco fiável e demasiado dispendioso. Dirige-se a um stand automóvel
e, compra outro carro. Mais recente mas, de qualidade inferior. Sem acessórios
de utilidade prática mas carregado de tecnologia supérflua, menos confortável,
menos espaçoso, com potência inferior, consumo de combustível elevado,
manutenção caríssima. Ficou pior do que estava anteriormente mas, tem um carro
novo. Isso é que importa.
Provavelmente,
até seria melhor não trocar carro por carro. Uma camionete talvez fosse mais
adequado. Tem de ter espaço, potência e arcaboiço para levar um mercado
municipal que já foi novo mas, chegado a velho sobrevive de esmolas,
envergonhado perante o esplendor dos interesses que o asfixiam. Uma
infraestrutura fabril histórica que, já foi solução para todos os problemas,
deixada á deriva, cria exponencialmente mais problemas. Um centro histórico que
já foi vivo, entretanto defunto por desgosto de promessas cumpridas a conta-gotas,
perpétuamente a correr atrás do prejuízo. Umas piscinas que já foram obsoletas,
uma vez modernizadas, renasceram insuficientes para o propósito, além de esteticamente
ofensivas, urbanisticamente incómodas. Um rio que já foi despoluído e vivo, tradicionalmente
desprezado, deixado á sua sorte. Uma nascente que já foi pública, privatizada
pela razão da força. Uma via pública que já foi romana, agora de propriedade
anónima. Uma vila romana que já foi histórica, lixeira, novamente histórica,
finalmente, desdenhada. Compre-se também um atrelado para a bagagem. Não vá faltar
espaço para viveiros de empresas, estufas de fast food, berçários
de supermercados, associações e revistas de utilidade dita pública, porque sem propaganda,
a competência é invisível. A frota de carros velhos trocados por novos mas
inferiores é extensa e, a bagagem entretanto acumulada, muita.
Esta
é a parábola da governação torrejana. É este paradigma que, pelo menos alguns
torrejanos, gostavam de ver interrompido. O carro velho tem de ser encostado,
nisto toda a gente está de acordo. Durou trinta anos, está esgotado e já não
passa na inspecção. Que carro novo comprar para a substituição, é um problema.
O problema.
O
primeiro imbróglio é, a escolha estar limitada à oferta existente nos stands locais.
O segundo imbróglio é, não irmos com a cara dos donos dos stands com
a melhor oferta. O terceiro imbróglio é, estarmos à procura de um carro perfeitamente
adaptado aos nossos hábitos vícios e manias, ao invés de sermos nós a
adaptarmo-nos a uma nova forma de conduzir.
Não é claro se a responsabilidade do condicionamento na escolha recai sobre a oferta limitada do stand, ou, se o vendedor afinal é intrujão. A mensalidade do ALD, essa é garantida, sem oferecer garantias. Só os quilómetros ditarão a distinção entre investimento ou custo.
