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17/06/2022

Jornal Torrejano - Nº 1137 - Tomatina

Jornal Torrejano – Nº 1137 - 17/06/2022

Tomatina

Até os mais distraídos na escola, fui um deles, se devem lembrar do princípio mais básico da física. Para qualquer ação, há uma reação. Por incrível que pareça, por muito tosco que seja, é o princípio base que orienta e rege todo o método científico, até o de ponta. Sabendo previamente a quantificação e qualificação da ação, temos todo o interesse em observar atentamente a reação. É desta observação detalhada que surge conhecimento. Agarra-se, por exemplo, no pedacinho mais pequeno de matéria que temos por aí à mão de semear, o átomo de hidrogénio, acelera-se o gajo ao máximo que se conseguir, por meio de indução electro magnética chegando quase quase à velocidade da luz (chegar mesmo lá, é uma impossibilidade técnica) e quando a velocidade está no seu auge, espeta-se um obstáculo parado, sólido, no seu caminho. Observa-se detalhadamente o que acontece. Medindo muito bem todas as consequências deste desastre provocado, gera-se conhecimento. Resumi o funcionamento de um ciclotrão no parágrafo anterior. Quem cedeu à moda de ler livros, “de letras”, com o Dan Brown (concedo-lhe o mérito de ter conseguido fazer sozinho aquilo que inúmeras campanhas e alguns milhares, milhões, de euros, nunca conseguiram fazer: pôr a malta a ler) (nunca mais leram nada, mas, por uma vez na vida, leram um livro “de letras”) sabe na generalidade a mecânica da coisa. O conceito resumido pode ser confirmado na transversal e popular alegoria: Uma maçã cai na cabeça de Newton e o fulano tem automaticamente uma ideia. Mesmo quem não sabe que Newton é na realidade Sir Newton, conhece esta alegoria. Os espanhóis captaram muito bem a essência da coisa e, uma vez por ano, arremessam tomates maduros à cabeça uns dos outros. Porquê? Não fazem ideia. Preservou-se a essência. Algures no percurso, perdeu-se o propósito. Faz-se porque sim. Resultou com um inglês, segundo dizem. O absurdo da tradição que teima em bloquear o conhecimento científico. Embora possível, as ideias não surgem maioritariamente em acidentes leguminosos. (Porque “frutíferos” contraria a linha de raciocínio. Descambava na exploração de detalhes semânticos e etimológicos para dar a volta. Engatava a crónica). A pergunta que se impõe: levando com uma abóbora a ideia era maior, melhor? Ninguém sabe. Só se sabe que, com tomates maduros, não resulta. Pelo menos para os espanhóis.

Publicar uma revista, cujo propósito declarado se autoilustra tanto na capa como no artigo principal do primeiro número, é considerado “boa ideia”. Claramente o alvo da tomatada tem um vencedor. A pertinência do formato físico é questionável. Século 21, era digital, autoestrada da informação, e a asfixiante contenção de custos. É preciso tirar um curso? Em papel? Dah! O propósito de “divulgação da marca TNovas” não é justificado por uma estratégia de distribuição da publicação. Uma análise que sustente decisão mediante um público alvo, ao invés das mesas dos cafés e salas de espera. Função de folheto publicitário, portanto. Quem paga isto são os anunciantes, dizem. Até pode ser. Acredito. A Câmara Municipal é anunciante na TNFM a 1.200€ por mês. Pelas contas públicas. Não estou a cometer uma inconfidência. Se uma simples maçã despoletou um pensamento que se reflete na física quântica 300 anos depois, imaginem o que não sairá com uma revista de propaganda? Tiveram sorte não acertar num inglês. Um Sir, então… subia de nível. Comigo, preferi canalizar os recursos para ajudar os espanhóis na investigação deles. Envolve tomates e não se sabe se um dia sai dali também uma “boa ideia”. A tradição marcava finalmente um ponto. Seria surpreendente.




03/06/2022

Jornal Torrejano - Nº 1136 - Aquela máquina.

Jornal Torrejano – Nº 1136 - 03/06/2022

Aquela máquina.

Somos conhecidos no mundo inteiro como o povo do desenrasca. Não é pelo vinho do Porto, não é pelo CR7, não é pelos descobrimentos, não é pelo clima e pelas praias. É pelo desenrasca. Como testemunham os hábitos de leitura nacionais, temos uma facilidade nata em absorver conhecimento pela prática. Pela teoria, somos alérgicos. Quem ler o manual antes de tentar colocar qualquer equipamento a funcionar, é sumariamente achincalhado por todos como maricas e tótó. Experimenta-se tudo e mais um par de botas primeiro. Só quando nada resulta, então, recorre-se ao manual. Ainda assim, a contra vontade, emitindo em voz alta imensas críticas à organização e redação do mesmo, impregnando as inflexões com o maior desdém possível. Muitas são as histórias na mitologia popular acerca de problemas insolúveis num qualquer estaleiro ou fábrica num país distante em que chamam o português e, ele põe aquilo a funcionar, o que quer que “aquilo” seja, desenrascando a situação, salvando o mundo de desastre iminente. Qualquer fabulosa máquina, projetada pela engenharia alemã com design sueco e fabrico japonês que empanque por motivo desconhecido em qualquer canto remoto do planeta, arrisca-se a enfrentar um português. Recrutado para equipa de limpeza e destacado de urgência para a linha de produção pelos quadros superiores com aval da administração, aflita. Macacão seboso, barba de três dias, cigarro ao canto da boca, arrastando atrás de si uma grade de minis, aproxima-se da máquina, cospe para o chão, limpa o suor da testa com algumas folhas amarfanhadas do manual técnico, faz saltar a carica de uma mini com o isqueiro Bic que, imediatamente se infiltra na máquina por uma fresta que ninguém sabia lá estar (nem o manual técnico), dá duas goladas na cerveja, senta-se na grade de minis e pronuncia estoicamente a frase mágica que dá inicio a todo o processo: “É que tá aqui uma porra!” Com o maior desleixo pela segurança, a sua, a da máquina, e restantes trabalhadores à sua volta, começa a intervenção obedecendo a uma metodologia apenas compreensível a si. Desconhecedores, ignorantes destas coisas, poderiam interpretá-la erradamente como “chafurdar”. Passado algum tempo, o português emerge das entranhas da máquina, ainda mais sujo do que quando entrou, exibindo uma carica de mini segura entre o indicador e o polegar, soltando um sonoro “Ahh!” com ar vitorioso. Reacende a beata que entretanto se apagou, abre outra mini, disfarçadamente cuidadoso para a carica não sair disparada, dirige-se ao chefe da linha de produção e diz: “Podem ligar a máquina. Está desenrascado.” Dá duas goladas seguidas na cerveja e fica a fitar a máquina com o olhar parado. Ligam a máquina e, “aquilo” funciona. Mais ruidosa que antes, mais fumarenta que antes, mas funciona. Os quadros superiores voltam finalmente a respirar, a administração sorri, o português sorri. Chegados a este ponto, perfilam-se imediatamente três certezas: Primeira certeza, o design sueco fica irremediavelmente comprometido, passando à designação artística oficial de chaço. Segunda certeza, a engenharia alemã fica reduzida ao ridículo por uma carica de mini. Terceira certeza, daqui em diante apenas e só o português sabe como pôr a máquina a funcionar. Independentemente do número de técnicos especializados japoneses que atirem a ela.

Prometeu-se calçada para o Largo do Lamego. Em vez disso aplicou-se alcatrão. Está desenrascado. Prometeu-se ligar o escoamento à rede de esgotos. Em vez disso, despeja diretamente para o rio. Está desenrascado. Deu-se a obra como oficialmente concluída quando ela ia a meio. Está desenrascado. Prometeu-se competência. Em vez disso, obtivemos irresponsabilidade. Está desenrascado. É aquela máquina.