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22/04/2022

Jornal Torrejano - Nº 1133 - Bem-vindo à equipe. Está contratado!

Jornal Torrejano – Nº 1133 - 22/04/2022

Bem-vindo à equipe. Está contratado!

Acompanho várias publicações relativas a várias temáticas e âmbitos, sendo a maior longevidade desta convivência nas relacionadas com a música. Ciente da importância dos anunciantes para a sobrevivência destas publicações, tolero que algum viés transpareça nos artigos, favorecendo patrocinadores. Contorna-se a crítica negativa expressando uma inocuidade sem compromisso ao longo de textos por vezes longos. A arte de falar muito sem dizer nada. Isto, no passado. Hoje, enaltece-se descaradamente pechisbeque atribuindo-lhe qualidades de 24 quilates. Absurdamente acríticos limitam-se a transcrever comunicados de imprensa como se essa fosse a sua razão de existir. Saltou-me recentemente à vista por ter lido exatamente a mesma coisa numa publicação estrangeira e noutra portuguesa, acerca do mesmo objeto, com meras horas de intervalo. Exatamente o mesmo texto, papagaios. Infelizmente, aquilo que procuramos ao ler essas publicações, uma opinião, é precisamente o que está ausente. A soberana “economia” que passou a reger todos os aspetos da nossa vida eliminou a expressão do pensamento crítico substituindo-o por propaganda, mais ou menos evidente mais ou menos disfarçada. Apesar de me encontrar ideologicamente em polo oposto, percebo a mecânica e os objetivos. Esta clarividência é contestada por publicações, sem qualquer vínculo comercial, sem qualquer compromisso legal, por definição independentes, perfeitamente alinhadas ao mesmo paradigma. Luzes câmara ação e… sai imensa parra e nenhuma uva. Deixam-me a conjeturar se se destinam a ser lidas por deficientes cognitivos ou vítimas de síndrome de Peter Pan. Até se são escritas por.

A maior parte da malta ignora que, atualmente, uma fatia significativa dos conteúdos publicados é produzida por máquinas, traduzido por máquinas, publicado por máquinas. Tudo muito automático, tudo muito moderno. Assinam-se acordos de colaboração, conectam-se redes de dados e, os algoritmos tratam do resto. Um comunicado de imprensa compilado por uma I.A. na Cochinchina, em aramaico, aparece segundos depois numa publicação portuguesa, em português. A boca ligada ao ânus sem a chatice do aparelho digestivo pelo meio. Duvido que a comunicação social torrejana esteja neste patamar tecnológico, já. Por cá, a interpretação e o pensamento crítico ainda têm algo a dizer. A prova disso é que, o comunicado de imprensa de uma cadeia de junk food em processo de instalação de uma unidade de vendas (porque “restaurante” não traduz a realidade) em Torres Novas, foi textualmente difundido e divulgado, digno de automatismo perfeitamente oleado mas, o mesmo comunicado de imprensa, foi sujeito a interpretação e escrutínio detalhadamente crítico pelo presidente da câmara da seguinte forma: “…o concelho precisa, a região precisa, o país precisa. Precisamos de mais gente em Torres Novas, mais gente a nascer, mais gente a residir…”.

Frango frito é a solução para incrementar a natalidade, deve possuir propriedades afrodisíacas calculo, e, em simultâneo, aumentar o numero de residentes. Frango frito afrodisíaco a fazer uma perninha como agente imobiliário, passo o trocadilho. Não só é a solução para o concelho como também o é para o país. Incrível. Como é que o departamento de marketing de uma multinacional não se lembrou disto? Foi um presidente de câmara da província, em processo de adesão ao Portugal profundo. Reconheçam a genialidade e contratem o individuo imediatamente.


Entre aspas, citando mediotejo.net:

https://mediotejo.net/torres-novas-kfc-chega-a-cidade-em-julho-obras-vao-avancar/




08/04/2022

Jornal Torrejano - Nº 1132 - (in)Gratidão.

Jornal Torrejano – Nº 1132 - 08/04/2022

(in)Gratidão.

Algumas figuras torrejanas que, infelizmente já não se encontram entre nós, tiveram papéis importantes em diversas áreas. De uma forma ou de outra, influenciaram positivamente gerações. Nas artes, no desporto, na comunicação, no ensino, na ação social, fizeram e concretizaram. Pautaram a sua vida pela dedicação à causa sem alarido ou necessidade de chamarem a si a atenção da generalidade do público. Trilharam o seu caminho com talento, competência e dedicação, sem golpes publicitários, sem o nome em painéis de azulejo. A sua conduta fala por si, o trabalho feito é suficiente. Alguns deles, talvez por possuírem uma costela boémia, ou, recusarem alinhar no paradigma do beija-mão, foram varridos da memória coletiva, enxovalhados até, pelo puritanismo torrejano. Pertenço à geração que, em jovem, foi positivamente influenciada por algumas dessas figuras. Custa-me perceber a ausência de reconhecimento institucional, zanga-me o sistemático desprezo pelo legado, pelo papel positivo que tiveram. Entristece-me testemunhar o lugar vazio que deixaram. A sociedade torrejana, tão cheia de valores e princípios, tão militantemente católica, tem sido incapaz de produzir substitutos à altura. No entanto, à falta de melhor, exorta-se o banal o medíocre. Quem soube ser boémio numa privacidade muito reservada muito exclusiva, quem alinha no beija-mão voluntariamente, recebe destaque gratuito. A realidade é mais estranha que a ficção.

Uma das figuras que se destacou, pela dedicação, pela competência, pelos resultados e, acima de tudo caracterizada por uma vontade indómita, foi homenageada institucionalmente. Tudo bem, se a ideia original para essa homenagem não tivesse sido usurpada a outrem. Um aproveitamento de baixo nível, uma falta de carácter assombrosa. Com esta atitude fizeram questão de macular uma celebração merecida, justa. Uma vergonha.

Mas, como a memória é curta, rapidamente este episódio cairá em esquecimento e o que conta é o painel de azulejo. Saber usar a limitação da memória e o impacto da propaganda para proveito próprio, é tão intrínseco à política que ninguém estranha. Já ninguém sabe o que é feito do Cherne, nem do movimento de escalada profissional que protagonizou, desdenhando o povo que o elegeu assim como o sistema, democrático, que permitiu executar o truque tecnicamente dentro da legalidade. Como também já ninguém se lembra como é que o Costa chegou ao cargo que ocupa. Os cargos vão sendo passados de mão em mão mediante conveniência. Trata-se a democracia como se fosse uma cerveja: Olha… Guarda aí a minha imperial enquanto eu vou à casa de banho. Sólon dá voltas na sepultura.

Neste campo, há precedente na autarquia torrejana e, os indícios são no sentido de repetição. Ou não estivesse em curso uma operação de contratação de recursos a granel para os quadros da Câmara Municipal. Sem justificação da gestão de RH, sem justificação de necessidade operacional, contrata-se porque sim. Aparentemente, alguém anda a pagar favores, a cumprir com promessas, enquanto os restantes assobiam para o lado ou, nem sequer estão presentes, como convém. Uma exceção confirma a regra, ainda assim, talvez justificada pela inexperiência, louvo-a. Deixar a casa arranjada e lavadinha é o que se faz quando se a vai passar para as mãos de outro locatário. Evitar reclamações futuras, principalmente aquelas que são passíveis de comprometer o carácter e imagem pública. E, espalhar propaganda o máximo que se puder. Até usar os canais de comunicação oficiais da instituição para promover um programa de televisão de um canal privado onde quem manda, é o irmão do Costa. Tudo da mesma cor, tudo bons rapazes. Aguardar debaixo da mesa que caia uma migalha de gratidão é exclusivo aos fiéis, aos talentosos e competentes resta trabalhar.




01/04/2022

Jornal Torrejano - Nº 1131 - E=mC2

Jornal Torrejano – Nº 1131 - 18/03/2022

E=mC2

Aprendemos através de estudos recentes do genoma humano que, o povo ibérico é uma das maiores mixórdias genéticas no mundo. Derivado tanto a migrações por via terrestre, como pela localização geográfica, que nos coloca como porto de descanso e abastecimento para navegantes. Visitantes pontuais, invasores, conquistas territoriais, impérios civilizados, bárbaros menos civilizados, ao longo de milénios um pouco de tudo molhou a sopa por estas bandas. Tudo isto antes da época dos descobrimentos. Fomos primeiro recetores e, mais tarde, difusores do património genético acumulado, pelo globo inteiro, ou quase. Somos, provavelmente, o povo que menos argumentos tem para ser xenófobo. Essa coisa do pedigree, a nós, não se aplica. Talvez por estar ciente disso, a grande compaixão portuguesa ficou registada na história por um Aristides que meteu o pescoço no cepo para salvar de morte certa o número de judeus que conseguiu. No passado cronologicamente mais recente, passámos pela experiência de absorver (porque a expressão “integrar” não reflete a realidade do que se passou) os “retornados” das ex-colónias e, desde então, vamos igualmente absorvendo imigrantes nativos dos diversos países de expressão portuguesa em busca de melhor vida. Por ocasião da Expo 98 e, um pouco mais tarde, pelo campeonato europeu de futebol, a mão-de-obra estrangeira veio preencher uma procura que os locais, só por si, não conseguiam suprir. Muitos desses estrangeiros ficaram. Constituíram família, adaptaram-se, fixaram-se. Apesar de alguns ghettos pontuais, genericamente a malta integrou-se bem. Por sua própria iniciativa, pelos seus próprios meios. Tinha mesmo de ser porque, em termos institucionais, o apoio, os mecanismos para tal, foram praticamente zero. Infelizmente, não possuímos a visão necessária para identificar as mais-valias trazidas por esses “estrangeiros” e aproveitá-las para o bem comum. Desperdiçamos competências, saberes. No pós 74, os “retornados”, sobejamente mal recebidos, protagonizaram um salto evolutivo de mentalidades na sociedade civil, deram exemplos de trabalho, iniciativa empresarial, geraram riqueza, postos de trabalho, enquanto os que cá estavam temiam pelo seu mesquinho e miserável emprego. Pode-se pensar que serviu de lição. Não.

Na febre de parecer bem, registam-se iniciativas individuais na ajuda aos ucranianos a fugir da guerra, um pouco por todo o país. Brotam campanhas para angariação de bens, sem articulação, sem coordenação, sem identificação prévia de necessidades. Já houve casos de ajuda neste contexto que, chegados à Polónia, voltaram para trás por não haver necessidade. Tão rápidos a querer ficar bem na fotografia, mas lerdos em tudo o resto. Pior que isto, sim há pior, tem sido a relativização de todo este tema por parte de alguns esclarecidos. Ao Zé comum, não peço mais. Mas aos formados e esclarecidos? Não peço, exijo, mais. Traçam paralelos e fazem comparações nas respostas à guerra na ex-Jugoslávia, à guerra na Síria, à constante postura bélica dos Estados Unidos no mundo. Relativizam, também eles, para parecer bem. Para passar a imagem de especialistas em geopolítica, para passar a imagem de detentores dos mais elevados padrões morais, chamando hipócritas e cínicos a quem acha boa ideia ajudar os ucras. Porque são brancos, loiros, de olhos azuis, ao invés dos outros, morenos, com religiões esquisitas, inferiores. Pela equação de Einstein, são rápidos, a roçar a velocidade da luz. Têm muita energia e, como tal, pouca massa. Pouca massa cinzenta.