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30/07/2025

Jornal Torrejano - Nº 1212 - Sagração da mediocridade

Jornal Torrejano – Nº 1212 – 01/08/2025

Sagração da mediocridade

Num ciclo que aparenta ser inquebrável, repete-se a parábola da vaca em cima de uma árvore. Ninguém sabe o que está lá a fazer, ninguém sabe como lá foi parar. Mas é óbvio que não pertence lá. Entretanto faz-se saber, através do meio de divulgação mais eficaz de sempre, o diz que disse, que, a vaca subiu para cima da árvore pelos seus próprios meios e, permanece em tal posição por mérito próprio. Quem questionar a informação fidedigna veiculada pelo diz que disse, é sumariamente mandado calar por frases brilhantes e geniais como: Que tens tu a ver com isso? Mete-te na tua vida. Só sabes criticar. Estás sempre a dizer mal. Nunca estás satisfeito com nada.

Assunto encerrado, não se volta a tocar no tema. A vaca é sagrada.

Uma coisa é levar com uma cagadela de pardal na cabeça, outra coisa é levar com bosta de vaca. Rapidamente, a árvore perde a utilidade de fazer sombra. A comunidade, afasta-se da árvore. Apesar da postura estóica, a árvore não foi feita para suportar o peso e apetite de um ruminante de grande porte. Definha, quebra e morre. Na análise forense, ninguém ousa constatar o óbvio: Se a vaca estava em cima da árvore, foi porque alguém lá a colocou. Alguém com poder e capacidade para colocar vacas em cima de árvores. O relatório final conclui que, a árvore era fraca, medíocre, de uma incompetência vergonhosa. A vaca caiu de pé, com a reputação imaculada, fica a aguardar recolocação, numa árvore maior, mais forte, com folhas e rebentos mais suculentos.

Assim definham e extinguem instituições. Assim a utilidade pública se esvazia de propósito. As vacas, cuja constituição monocromática confere um ar clássico e erudito, apesar de neutro, são escolhidas para a elevação arbórea pela sua popularidade. A vaca ausente das redes sociais, é uma vaca anónima. Com a imigração asiática em altas, prevê-se uma ascensão meteórica da espécie a divindade. Aposta ganha, portanto.

Repete-se o ciclo. Sobra para o cidadão a limpeza do rasto de bosta sagrada. Com os galhos secos, restos mortais do que em tempos foi uma árvore.