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21/02/2026

Jornal Torrejano – Nº 1225 - As cinco depressões do nosso descontentamento

Jornal Torrejano – Nº 1225 – 20/02/2026

As cinco depressões do nosso descontentamento 

O interesse do homem pelos movimentos e ciclos astrais é milenar. Por todo o planeta, monumentos e descobertas arqueológicas revelam esse interesse. Primariamente motivados pela passagem das estações do ano, ciclo do qual dependia o sucesso da agricultura, vital para a sobrevivência, até outras previsões, mais ligadas à superstição, embora calculadas por uma proto ciência baseada essencialmente no registo de acontecimentos coincidentes, por vezes justificados por vezes casuais, retiravam-se interpretações dos tempos por vir. Eventualmente formando credos e cultos que evoluíram para o formato da religião organizada.

Saber, representa poder. Reis elevaram-se, faraós caíram, ora por "adivinharem" eclipses solares e lunares com exactidão, ora por falhar em prever anos de seca extrema. As cheias anuais do Nilo eram vitais tanto pela água doce, como pela fertilização dos solos com os sedimentos arrastados de outras paragens pela corrente. Falhando o ciclo, haveria fome doença miséria. O reino ficava fraco, exposto à cobiça de outros, caía.

As cheias do Tejo, rio que nasce em território espanhol, tiveram exactamente o mesmo protagonismo funcional para a vida agrícola do Ribatejo, entretanto divorciada dos ciclos naturais por pressões económicas, não tanto pela necessidade de consumo dos bens alimentares ali produzidos. As cheias na planície aluvial do Mondego, rio que nasce em território português, encaixam em ciclos idênticos de fertilização dos solos.

Na realidade, o aproveitamento político dos ciclos naturais e de eventuais soluços disruptivos com os quais a imprevisibilidade da natureza ocasionalmente nos reduz à nossa insignificância, é milenar. O aproveitamento político, ora reforçando o poder instituído, ora determinando a sua queda, ora via superstição, ora via conhecimento científico, é um facto comum na história da humanidade. Não deveria ser surpresa. Dá nojo, mas não surpreende.

Enquanto os idiotas que nos governam proferiam frases insultuosas desprovidas de senso, exibindo escandalosamente na comunicação social a sua ignorância e incompetência com o orgulho de quem cometeu uma asneira monumental à vista de todos mas ainda não deu por isso, a sociedade civil mexeu-se. Fez o que estava ao seu alcance para ajudar quem necessitava de ajuda.

Voluntários apareceram sem ser chamados, de pá e vassoura na mão e ajudaram a limpar o lixo, a desimpedir as vias permitindo a circulação. Anónimos foram ao supermercado depois de saírem do trabalho, encheram o carro com os bens que o bom senso lhes dizia serem precisos e puseram-se a caminho das localidades mais afectadas. Gente que se viu obrigada a fazer 100 quilómetros para comprar combustível, quando chegava à caixa da estação de serviço para pagar, descobria que a despesa já estava paga. Por alguém que entretanto se tinha ido embora, sem esperar por um agradecimento. Empresários do turismo que disponibilizaram a totalidade dos serviços das suas unidades hoteleiras, sem custos, a quem precisasse, sem convidar as televisões para vir testemunhar. Empresários da construção civil que disponibilizaram matérias primas e transporte das mesmas, de borla ou a preço de custo, sem mostrar o nome ou logotipo da empresa em lado nenhum. Profissionais das mais diversas áreas que ofereceram os seus braços de trabalho sem cobrar honorários.

Se há alguém que está de parabéns é o Zé Povinho. O anónimo que fez o que pôde. E para o fazer, pagou IVA, pagou Segurança Social, pagou IRS/IRC. E pagou portagens na autoestrada. Porque esse sistema, curiosamente, manteve-se em pleno funcionamento, não houve intempérie que o afectasse. A isenção de pagamento veio depois e, entretanto, já desapareceu, mais rápida que ventos ciclónicos. Para este Zé Povinho, verdadeiramente humano, heróico, a cor da pele, a maneira de vestir, ou a adoração de um personagem imaginário diferente do seu, influenciaram zero.

A falta de ordenamento do território, a falta de manutenção preventiva, o licenciamento para construção à la carte, a desarticulação dos meios de resposta, as obras e intervenções fundamentais remetidas para o fundo da gaveta, as aquisições milionárias de equipamentos inadequados, a perigosidade das comunicações assentarem exclusivamente em meios digitais, as consequências deste rol de inépcias, os druidas previram, mas os governantes ignoraram.

Décadas sucessivas, governos sucessivos com a mesma postura. A chuva e o vento vieram pôr a nu as consequências. Especialmente para cidades com rios a passar dentro do perímetro urbano, esta foi a sirene de alerta. Há trabalho a ser feito, prioridades a serem revistas. Palmadinhas nas costas quando se anda a correr atrás do prejuízo, fica mal.

Só se dão parabéns, se for caso disso, no fim, com tudo resolvido. Tal como a ópera só termina depois da senhora gorda cantar. Então aplaude-se, não antes.




05/02/2026

Jornal Torrejano – Nº 1224 - Cristina

Jornal Torrejano – Nº 1224 – 06/02/2026

Cristina

Quando o furacão Katrina arrasou New Orleans em 2005, demorou quatro dias para que água potável chegasse às vítimas. Isto num dos países mais desenvolvido do planeta. Onde ocorrem eventos climáticos extremos, furacões ciclones tornados, com frequência.

Em Portugal a recente tempestade Kristin, depois de tão intensa intimidade julgo legítimo poder chamar Cristina, classificada como "depressão", com ventos na casa dos 150km/h, intensidade bastante inferior à de um furacão, veio pôr a nu uma série de fragilidades.

O desleixo a que foi votada a orla costeira, sem manutenção preventiva adequada a enfrentar a erosão natural, quanto mais eventos climáticos excepcionais, arrasou praias e localidades cuja principal fonte de rendimento é o turismo.

O desleixo a que os leitos e margens das linhas de água e rios foram votados, bastando um inverno um pouco mais rigoroso para revelarem capacidade débil, transbordaram causando inundações, dependendo da morfologia do terreno, algumas bastante extensas.

A falta de eficácia do escoamento de águas pluviais em ambiente urbano, no limite adequado ao inverno médio mediterrânico, insuficiente para qualquer coisa mais que isso, provocaram inundações em casas, prédios, ruas, estradas.

As consequências da devastação dos fogos florestais e as consequências da exploração agrícola intensiva/industrial, responsáveis por alterações nas características dos solos, ficando incapazes de reter a água. Água essa que, iria descendo gradual e lentamente pela terra até chegar aos lençóis freáticos, agora escorre em força à superfície, levando consigo nutrientes, acentuando a erosão, e, privando os lençóis freáticos de renovação.

Infraestruturas vitais, electricidade e comunicações, cuja publicidade comercial as tem afirmado ao longo do tempo como "as melhores da Europa", deram de si com uma facilidade surpreendente. Evidenciando que os valores elevados pagos pelo cliente na factura mensal, não se destinam à qualidade do produto em si, mas sim às mais valias das empresas nos mercados financeiros.

Os acessos terrestres, rodoviários e ferroviários, pejados de detritos e estilhaços que impedem a circulação, revelam que árvores a poucos metros da via, é capaz de não ser boa ideia, por muita pressão que a indústria de celulose faça sentir. Mas, quem manda, pode.

Finalmente, a inépcia do estado em prestar apoio atempado e suficiente às populações afectadas. Antes do desalojado ter um saco cama para dormir e uma garrafa de água para beber, o governo já tinha anunciado milhões de Euros disponíveis, mesmo sem recorrer aos fundos europeus de emergência previstos para o efeito. Sim, bastou a promessa de dinheiro, essa abstracção mágica que resolve, para sossegar tudo e todos.

As vítimas do Katrina, tiveram quatro dias para reflectir se estavam entregues a si próprias ou não. As vítimas da Cristina, exclusivamente culpada de tudo isto, não tiveram direito a esse tempo de reflexão. Puserem-lhes imediatamente um prato à frente atestado com promessas de milhões. Quando há promessas de milhões, não há memória de fragilidades. Tudo resistiu e funcionou.