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02/05/2026

Jornal Torrejano – Nº 1230 - Resistência

Jornal Torrejano – Nº 1230 – 01/05/2026

Resistência


«Chegou a altura de lançarmos um grito de revolta e de alerta. Não era um país com este contexto que queríamos quando fizemos o 25 de Abril».

«É inaceitável a crescente injustiça social, o fosso cada vez maior que se está a cavar entre os mais ricos e os mais pobres. Mas que raio de país é este, mas que raio de Justiça é esta?».

«Estamos a contar mal a luta antifascista às gerações mais novas. É preciso continuar a lutar pelo esclarecimento, e para evitar o branqueamento do fascismo, para que a memória não se perca.»

Presidente da Associação 25 de Abril, Capitão de Abril, Vasco Lourenço.

Desde estas palavras passaram dezasseis anos. Nesse período aconteceu mais uma intervenção do F.M.I. em Portugal, um primeiro ministro aconselhou a população portuguesa a emigrar, outro primeiro ministro foi preso, surgiu o Chega, e, a esquerda, decidiu que nada disto era pertinente, enveredando por outras prioridades.
Há uns dias voltei a prestar atenção a declarações de Vasco Lourenço. Dezasseis anos depois, mantém a coerência, sublinhando a urgência. O semblante cansado não se deve exclusivamente ao peso da idade, deduzo. Compreensível.
Comemorar, celebrar, é importante, sim. Mas fazê-lo com integridade devia ser condição obrigatória. Reafirmar o compromisso com os valores da revolução com a mesma seriedade que se assume a degradação escabrosa das escolas do concelho, se recebe uma petição com três centenas de assinaturas a denunciar ausência de saneamento básico, se inaugura com pompa e circunstância a plantação de uma palmeira, entretanto esquecida, se mantém um equipamento municipal inoperante após mais de um milhão de euros gastos em manutenção e remodelação, se comunica um saldo positivo de mais de três milhões de euros, qual CEO sorridente perante os accionistas felizes, cinquenta e dois anos após o término das trevas e, trinta anos consecutivos com o mesmo partido no poder, parece caricatura mas é retrato.
Uma Câmara Municipal não é uma empresa privada a navegar num oceano capitalista. Não visa o lucro, visa a satisfação das necessidades da população que SERVE. Antes não se fazia porque a dívida à banca era sufocante, não permitia fazer. Qual é a desculpa agora?
Torres Novas acolhe uma exposição sobre os cinquenta anos da Constituição da República Portuguesa. É uma oportunidade óptima para os torrejanos darem especial atenção ao artigo vinte e um. Consagra o Direito de Resistência. Estabelece que todos têm o direito de resistir a qualquer ordem que ofenda direitos, liberdades e garantias fundamentais e de repelir pela força qualquer agressão, quando não seja possível recorrer à autoridade.
Sim, eu que sou um pouco mais velho que a revolução, comemoro especialmente isto.