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31/03/2022

Jornal Torrejano - Nº 1130 - Da guerra e da água.

Jornal Torrejano – Nº 1130 - 04/03/2022

Da guerra e da água.

O meu avô materno, no desempenho das suas funções profissionais, foi uma única vez na sua vida a Torres Novas. Jurou nunca mais voltar. “Então porquê avô?” Perguntava eu que, ouvia as histórias de outros tempos contadas por ele e pela minha avó com toda a atenção quando ia passar o verão lá a casa. “Porque em Torres Novas tinha de pagar para os clientes ficarem com os meus produtos! Disse ao meu chefe que nunca mais lá voltava! E assim fiz.” Isto aconteceu algures pela década de 1930. Pouco tempo depois, veio a guerra. O senhor que mandava nisto, disse que nos livrava da guerra mas não da fome. Numa altura em que a agricultura de subsistência era a principal atividade no país, prometer (mais) fome, foi de líder.

De facto, o lucro do negócio não reside na venda. Reside na compra. Daí, esfolar o fornecedor, ser condição obrigatória para fazer bons negócios. O conceito de “um bom negócio é um negócio onde todas as partes ficam satisfeitas”, não estava presente. Noventa anos depois, ainda não está. Mas a guerra está. Outra vez. Se é que alguma vez cessou.

Para um país que depende das importações para praticamente tudo, exceto rolos de papel higiénico, impor limitações à importação de bens oriundos da Rússia como medida de retaliação à invasão da Ucrânia, traduz-se na dificuldade em encontrar vodka e caviar nas prateleiras do supermercado. Bens de primeira necessidade. A população tem razão para estar preocupada. Hoje, mesmo que quiséssemos soubéssemos, a agricultura de subsistência não nos iria safar. O alcatrão, o cimento, o eucalipto, a poluição, a Monsanto/Bayer, a escassez de água, levaram praticamente à extinção toda a produção agrícola que não seja feita por métodos intensivos, artificiais. Dependemos do resto do mundo para quase tudo. Exceto limpar o cú. Numa realidade destas, uma guerra, é preocupante para além dos horrores e dramas das vítimas diretas, tem implicações globais. Não é um espetáculo de entretenimento televisivo inconsequente, longe da nossa casa com atores anónimos.

A ilustrar a escassez da água: A malta do festival da lampreia queixa-se que não há lampreia. Porque o rio Tejo vai com o caudal de um ribeirinho e demasiado poluído. No entanto, afirmam que o festival se irá manter, nem que tenha de ser com lampreia importada de França. Que modelo vai ser adotado para o negócio da lampreia? Aquele onde todas as partes ficam satisfeitas, ou o outro. Aquele que implica esfolar alguém? A necessidade não se compadece com negócios éticos. Se precisas mesmo, é vital, não há volta a dar… Vais ser esfolado por quem vende o que precisas. As condições dos negócios são dinâmicas, voláteis por vezes, diretamente relacionadas com a necessidade, com a dependência. Em guerra não existe ética em lado nenhum e, como escrevi atrás, somos dependentes do resto do mundo para quase tudo. Vamos ser (mais) esfolados. Mas de cú limpinho. É preferível ter o rabiosque limpo com papel da Renova do que usar o bidé. Desperdício de água fica muito mal visto à data de hoje. End-to-end, ou seja, no processo completo, desde o cultivo do eucalipto á folha de papel duplo, azul-bebé, com aroma a alfazema, quantos litros de água são consumidos? Mais que no bidé? Pois…

O desprezo ou incapacidade ou incompetência, venha o diabo e escolha, que a Câmara Municipal tem dado continuadamente à gestão dos recursos hídricos, tanto no tema Renova/Rio Almonda, como no tema Fabrióleo/Ribeira da Boa Água (irónico não?) e lençóis freáticos, a manter-se o cenário de guerra global que se perfila no horizonte, virá a julgamento de forma natural e bem mais rápido do que se possa pensar. Quando a necessidade, vital, sem volta a dar, nos bater á porta, veremos se o vendedor de água potável tem vontade de regressar a Torres Novas para fazer negócio. E em que moldes.




30/03/2022

Jornal Torrejano - Nº 1129 - Em modo de espera.

Jornal Torrejano – Nº 1129 - 18/02/2022

Em modo de espera.

Sete habitações para arrendamento apoiado estão disponíveis. Uma ótima noticia. Especialmente quando se aguarda com alguma expetativa as medidas para combater a desertificação, a estaca zero dos nossos problemas. Ponto importante da discussão pré eleitoral. Melhor ainda seria a avaliação dos resultados dessas medidas, mas não exageremos. Daí, a disponibilização destas habitações, claramente direcionada a jovens em início de vida, integrada nas políticas de combate à desertificação, pode revelar-se relevante para o objetivo. Proporcionar a fixação de jovens vindos de outras paragens. Responder á procura gerada pelo crescimento de postos de trabalho. Até mesmo diminuir o encargo das deslocações e consequente pegada ecológica, aproximando a habitação do local de trabalho, a quem vem de fora desempenhar a profissão aqui. Calculo que seja por estes motivos todos que, o acesso ao arrendamento apoiado, esteja disponível exclusivamente a residentes, há mais de três anos. Ou seja, a intenção de combater a desertificação fica-se por tirar os putos de casa dos pais. E assim se vai gerando estatística.

Em Santarém, via protocolo entre a Cruz Vermelha Portuguesa, Segurança Social e o Município, vão ser disponibilizadas três habitações a cidadãos sem-abrigo. O programa Housing First ambiciona objetivamente proporcionar soluções para todos os casos, não se ficando por estes três. Ótima noticia. Gera outro género de estatística.

São realidades diferentes. Por isso geram estatísticas diferentes. Que produzem informação diferente. Útil, ou não, para sustentar uma hipotética argumentação futura. A malta gosta de saber claramente e sem dúvidas, qual é exatamente o que está a ser endereçado. Recordando: a desertificação é a estaca zero do nosso problema. Para outros problemas, outros mecanismos, outras soluções.

Tirando isto, tudo o resto está ótimo. Os dez por cento que faltam resolver do tema da Fabrioleo teimam em durar noventa por cento do tempo da resolução. O rio continua a apresentar-se visivelmente poluído, a somar aos dejetos habituais. A nascente do Almonda continua… lá. E se não chover em breve, tudo isto será menos disfarçável. Entretanto espalhou-se alcatrão e acalmou-se uns ânimos. Há qualquer coisa nas maiorias absolutas que convida ao paralelo com um alcoólico na posse da chave da adega. Esse “qualquer coisa” provavelmente vem da resignação do condenado a quem só resta, esperar. E os anos desta espera, somam para outra estatística. Por esta altura já todos perceberam que a água, a água doce, a água potável, é tipo bué, giga-hiper-zega-mega-importante, certo? Especialmente a que não depende dos rios vindos de Espanha, passou a ser interpretada recentemente como aquilo que sempre foi: um bem essencial, à vida, a toda a vida. Isso inclui-nos a nós. Importante, viram? Então aguardemos pelos dez por cento. Já não deve faltar muito. Deve estar quase. Acho que ouvi qualquer coisa. Não. Não pode faltar assim tanto. É agora. Não. Espera-se. Em maioria absoluta, espera-se. Tal como se espera deter a desertificação. Espera-se. Em maioria absoluta a cena é mais, tipo, á espera. Pela gota de água.




29/03/2022

Jornal Torrejano - Nº 1128 - A costa do medo.

Jornal Torrejano – Nº 1128 - 04/02/2022

A costa do medo.

A cultura do medo trouxe-nos aqui. A um estado de espírito onde perdoamos tudo e esquecemos o resto. É o preço a pagar pela manutenção das nossas vidinhas medíocres. Nada pode ameaçar a construção fictícia de segurança e estabilidade, o “felizes para sempre”. Um primeiro-ministro que cumpriu pena, reinventando-se depois como comentador e consultor de sucesso. Um ministro que, subjugado à petulância do seu motorista, atropela e mata na estrada. Um presidente de câmara e vereador, borrifando-se para o povo que os elegeu, literalmente deixa-os arder e, a seguir ainda os burla. Uma página de jornal é insuficiente para elencar todas as asneiras cometidas. Tudo perdoado tudo esquecido. Enquanto coletivo, queremos mais do mesmo. Qual casamento disfuncional, mantido a todo o custo como um carro velho e decrépito, porque “a este, já lhe conheço as avarias”.

Porquê? Porque temos medo.

Medo de um vírus que, só pode ser combatido com o governo certo, este. De voltar a viver acima das nossas possibilidades, de sermos forçados a emigrar, de assinar um acordo hidrográfico com Espanha, altamente penalizante para nós, só um governo o pode evitar, este. De uma direita fascista, tão organizada e credível que, só pode ser combatida com o governo certo, este. Do risco que a bazuca milionária se perca nos meandros da corrupção, defraudando idoneidade e distribuição eficaz, só um governo o pode evitar, este. Dos comunistas, pois podem construir uns gulags lá para os lados do Alentejo e Algarve, onde seres humanos escravizados seriam condenados a uma vida de trabalhos forçados, só um governo os pode impedir, este. Dos liberais que querem transformar o nosso paraíso à beira mar plantado num shark tank, onde os maiores comem os mais pequenos, só um governo os pode deter, este. De uma esquerda que quer condicionar os nossos filhos a serem fufas e paneleiros, enquanto assassinam os nossos queridos velhinhos nos lares onde os despejámos com a promessa de serem tratados que nem realeza, só um governo se atravessa no caminho deles, este. Dos defensores da natureza e dos animais, pois corremos o risco de soltarem touros bravos nas povoações, proibirem o abate de árvores, e pior: nos obrigarem a ir dar de comer aos patos no rio, só um governo os pode impedir, este. É muita coisa a meter medo. Se não for medo, será o quê? Ignorância, subserviência, cretinice, cobardia? Nunca. Só pode ser medo.

Uma interpretação do resultado das eleições, desprezando a redução da abstenção (pouquinho, mas baixou), é pautada pela diferença de meio milhão de votos entre a maioria absoluta e todo o resto. Três milhões de cidadãos (nada unidos, é certo) demonstraram estar suficientemente fartos do estado das coisas e das coisas do estado para votar no lado do medo ao invés do lado dos felizes para sempre. Mas numa coisa estamos (quase) todos de acordo: Não queremos comprar mais submarinos.




28/03/2022

Jornal Torrejano - Nº 1127 - Com o fogo não se brinca.

Jornal Torrejano – Nº 1127 - 21/01/2022

Com o fogo não se brinca.

Uma das maiores catástrofes, senão a maior, que atingiu Portugal, foi o terramoto seguido de tsunami em 1755. Assim, resumido num parágrafo, somos levados a pensar que, derrocadas de edifícios e subida abrupta das águas seriam os principais fatores a causar vítimas. Não. O elemento que causou mais vítimas foi o fogo. Na época, iluminação e aquecimento eram feitos com fogo vivo e brasas. A vincada presença católica no país, impõe um número elevado de locais de culto, onde as velas são características, contribuindo para a origem de focos de incêndio. Um inexistente ou deficiente planeamento urbanístico ajudou à rápida propagação. Ruas estreitas, edifícios muito próximos uns dos outros, negam tanto a fuga como acesso de ajuda. Num histórico e polémico movimento político, aproveitou-se a oportunidade da reconstrução de forma racional, planeando um futuro urbano com menos riscos. A oportunidade de repensar e refazer de forma mais segura e eficiente o ambiente urbano voltou a acontecer aquando da segunda guerra mundial. Várias cidades obliteradas ou gravemente danificadas pela guerra foram reconstruídas com ruas mais largas, acessos mais fáceis, melhor distribuição de água, descentralização dos meios de socorro. Para o bem e para o mal, não participámos, ficámos de fora e consequentemente fiéis às inovações do marquês de Pombal. Inovações com duzentos anos. Entretanto, os materiais de construção civil e fabrico de recheio sofreram alterações radicais. A madeira usada na altura, combustível, foi substituída por materiais sintéticos derivados de petróleo, muito mais inflamáveis. Agora, não lidamos com fogões a lenha, braseiras e velas. Lidamos com gás canalizado, corrente elétrica e plástico, muito plástico. Aumentou o perigo de incêndio mas não ocorreu restruturação do planeamento urbano e meios de socorro a acompanhar. Não é um problema exclusivamente nosso, acontece por todo o mundo. Por exemplo, em países evoluídos, as corporações de bombeiros têm na sua posse, além de plantas atualizadas, a memória descritiva dos materiais usados na construção dos edifícios, de modo a ser possível planear em segurança uma eventual intervenção, evitando envenenamento por gases tóxicos assim como providenciar apoio imediato e encaminhamento adequado às vítimas. Em casos extremos, no limite, as boas práticas são: Deixar arder, mantendo uma distância segura. Preservar a integridade física do socorro é prioritário. Se o socorro cai, quem resta para socorrer? A esta “nova” realidade acresce os edifícios devolutos. Que, mais crise económica menos crise económica, têm tendência para crescer em número. Nos USA, do mais de meio milhão de incêndios urbanos por ano, 6% têm origem em edifícios devolutos. Causando cerca de 50 mortes e 700 milhões de dólares de prejuízo. Por ano. A análise dos dados relativos a incêndios originados em edifícios devolutos resultou na obrigatoriedade de esvaziar por completo o recheio e remover todos os materiais com elevado grau de combustão, nalguns casos até a tinta das paredes tem de ser removida. Ninguém expropria ninguém, ninguém obriga ninguém a fazer obras de recuperação. Mas, a estrutura tem de ficar vazia, de modo a minimizar o risco de fogo, espontâneo ou intencional. Isto é nos USA. E nós por cá? O que está pensado para enfrentar esta “nova” realidade, em todas as suas vertentes? Perguntar não ofende, ouvi uma vez um brasileiro dizer. Isso é no Brasil. E nós por cá? Arriscando a perda de alguns amigos de Facebook, arriscando a incompatibilização com alguns amigos na vida real, arriscando o esfriar de algumas relações sociais, continuarei a fazer perguntas. Porque um centro histórico, mesmo desabitado e esvaziado de funções, continua a ser o centro da cidade.




27/03/2022

Jornal Torrejano - Nº 1126 - De sua graça.

Jornal Torrejano – Nº 1126 - 07/01/2022

De sua graça.

Destacado ou disfarçado, por mais de uma vez incluí nestas crónicas a noção que, a medição do sucesso pelo número de aderentes, significa zero na balança das boas decisões. O discernimento com maior profundidade raramente acontece dentro das maiorias. Tipicamente é na franja onde se vê mais longe, onde nascem os saltos evolutivos importantes. Muito se deve ao cientista investigador brilhante porém desastrado, como se deve ao indigente decorador da decadência urbana. Tanto na ciência como nas artes, somos fruto de imenso trabalho oriundo em tresloucados e misóginos. Gente esquisita. Dada a oportunidade, conta a postura com que se a enfrenta. Atingida a notoriedade, o que fazer com ela, depende da têmpera. Se calhar é requisito mínimo obrigatório uma pitada de insanidade. A malta que quer ser famosa, no processo cria muros (mais) altos entre si e o seu semelhante. Os que ativamente se isolam dos restantes, têm ideias que os tornam famosos. Depois inventaram um comprimido e ficámos todos iguais.

Ali pelos noventas, a febre de registo de domínios de internet, onde registar “qualquernomeinteressa.com” era tido como a nova mina de ouro no fabuloso novo mundo virtual. Uma mentalidade sequente ao registo de patentes, mas elevada à potência do ridículo. Na tentativa de definir aqui uma linha base para este género de insanidade oportunista, houve um caso bastante conhecido nos USA onde alguém registou o copyright para a abreviatura O. J. (oranje juice, sumo de laranja). Ou seja, a partir de determinado momento, qualquer utilização para fins comerciais e/ou públicos da abreviatura “O. J.” que, todos os americanos desde sempre usaram para dizer “sumo de laranja” sem dizer explicitamente sumo de laranja, paga direitos. A partir de um determinado ponto no tempo, em todo o mídia oriundo da américa, desapareceu uma referência cultural tipicamente americana: já ninguém diz O. J. nos filmes, nas séries… Sai mais barato. Imaginem se um dia algum cretino regista a expressão “Oh yeah!” o que acontecerá a 99% do Rock? E se outro, inspirado no primeiro, regista “Oh, baby!” lá se vai o resto. Percalços capitalistas à parte, a febre do registo de “nomes” nas redes sociais, tal como com os domínios de internet, também aconteceu. Ao longo do tempo e mediante o evoluir (ou não) da popularidade, alguns “nomes” foram capitalizados, mas não foi/é mina nenhuma. Como ilustra a recente mudança Facebook/Meta, com tudo o que isso implica, atualmente tudo se passa de forma pacífica. No limite, não se chegando a acordo, o “nome” é reduzido ao seu tamanho real, ponderado num contexto maior. Tal como nos exemplos da história, popular não é sinonimo de relevante. Para alguns de nós, desequilibrados mentais, a noção de propriedade e poder de decisão sobre algo que nos transcende, gera uma série de sentimentos conflituosos, é desagradável. Interferir com o nosso mundo estável e seguro sem pedir autorização, chateia. Demora algum tempo a perdoar a afronta do desaparecimento do gelado favorito do cartaz. Que audácia. Não interessa se há igual. Não tem o mesmo nome. Imperdoável. Acresce mais não sei-quantas-horas de terapia. Sacanas.

Num mundo onde é possível, provável até, ler artigos técnicos e discutir física quântica num “nome” tipo “gajasboas.com”, conhecer e ouvir boa música num “nome” tipo “ruidohorripilante.org”, ler bons artigos e descarregar uns livros num “nome” tipo “sacodolixo.com”, é um mundo onde os nomes têm a dimensão que devem ter. Meras etiquetas. Irrelevantes perante a pertinência do conteúdo. Um “nome” cuja maior importância é o seu nome, esgota aí mesmo o interesse. A vida real, temos de a gramar, a virtual, é o que fazemos dela. Basta mudar de nome.




26/03/2022

Jornal Torrejano - Nº 1125 - A um melhor ano. Eventualmente.

Jornal Torrejano – Nº 1125 - 17/12/2021

A um melhor ano. Eventualmente.

Típico da época, os balanços, as listas, as contas feitas. E, contas feitas, é demasiado deprimente picar a checkbox da desilusão. Os problemas que havia, são os que há, somando os que surgiram entretanto. Seria bonito encerrar pelo menos um pendente, ficava bem. As inovadoras “sharrow” a precisar de segunda demão, olham para os torrejanos com um ar envergonhado, testemunhas circunstanciais do evidente. Recuperam-se algumas ruinas, ainda bem. Mas mais ruinas brotam, num processo aparentemente impossível de deter. Entretanto, por motivos de força maior, a vida política nacional vai aquecendo em lume brando. Até se saber para que lado vai cair, é melhor não fazer nada que possa embaraçar o partido. Muito menos balanços ou listas. Natal, passagem de ano, pandemia, e está tudo justificado até às eleições. Os 10 por cento que faltavam resolver, teimam em contrariar o discurso oficial. E o tempo vai passando. A imagem de harmonia entre município e Renova, continua a ser traída por uma grade metálica, imóvel, irredutível. E o tempo vai passando. É de facto um erro crasso elaborar uma lista, numa altura destas. Talvez terminar uma obra ou outra, desse género dos “90% está feito” mas que duram e duram e duram, não fosse má ideia. A malta ficava satisfeita, rematavam uns pendentes, sem correr riscos de levantar polémicas inconvenientes. Win win situation. É só uma sugestão.

Gostaria que o próximo ano trouxesse a atenção merecida ao rio Almonda. Gostaria que os torrejanos o exigissem. Gostaria que as dificuldades financeiras dos bombeiros fossem endereçadas com urgência. A metodologia do balão de oxigénio só protela o problema. E lá estou eu a cair no erro das listas. Irra.

Evitando com grande esforço a enumeração, a pressão da época para tal, lembro que a maior facilidade da maioria absoluta é, poder fazer. Não há grandes desculpas para não acontecerem coisas. Neste contexto torna-se difícil justificar 90% da duração da intervenção com os 10% pendentes. Aguardamos com expetativa se acontecem as coisas certas. As necessárias. Porque daquelas que, passado pouco tempo, precisam de uma segunda demão, já temos. Não são precisas mais.

Embora com muitas reservas, desejo sinceramente um ano melhor a todos.




25/03/2022

Jornal Torrejano - Nº 1124 - O som do silêncio.

Jornal Torrejano – Nº 1124 - 03/12/2021

O som do silêncio.

Poucos de nós têm a perceção da importância que o som tem nas nossas vidas. Não me refiro só à música, mas também. Os ouvidos não têm pálpebras que bloqueiem o som mediante comando, não têm iris que ajuste a intensidade mediante conveniência, o som está presente de forma permanente, quer queiramos quer não. O cérebro é o responsável por filtrar aquilo que (supostamente) interessa, da amálgama sonora que faz vibrar os tímpanos vinte e quatro horas por dia. Na vanguarda da exploração do som, a diversos níveis, destacam-se nomes maioritariamente canadianos que, estão na origem de conceitos como “paisagem sonora”, “escultura sonora”, “instalação sonora”, “biblioteca sonora”. Os ramos que deste tronco partem alcançam áreas tão distintas como a arte, a ciência, a filosofia. O som cruza e agrega. Graças a práticas de registo sonoro apercebemo-nos que, os sons naturais são cada vez mais escassos e, os sons urbanos ocupam quase todo o espaço. O impacto do homem no planeta é também um impacto sonoro. No nosso quotidiano somos amestrados pelo som: Saltamos da cama ao som do despertador. Notamos um problema no carro porque faz um som esquisito, fora do normal. Quando ocorre um som desconhecido em casa, levantamos o rabo do sofá e vamos ver o que se passa. Sabemos perfeitamente separar o choro de birra do choro de dor no som que as nossas crianças emitem. Reagimos com movimentos automáticos ao toque do nosso telefone móvel. O som rege a nossa vida muito para além da importância que lhe atribuímos. O som é fundamental.

No âmbito do som, uma iniciativa louvável aconteceu em Torres Novas. Executou-se a recolha e armazenamento do som ambiente, da paisagem sonora, de locais específicos predeterminados. Aplaudo a iniciativa mas, é apenas um começo. E tardio. É preciso fazer mais. Tanto quantitativamente como qualitativamente, organizar, catalogar, datar, repetir ciclicamente e… disponibilizar ao público. Em Portugal, várias instituições públicas disponibilizam, on-line e presencialmente, sonotecas, fototecas, videotecas. Várias câmaras municipais, museus, bibliotecas, cumprem um papel de registo armazenamento e divulgação da história para os mais diversos fins. O percurso da história de Torres Novas é rico na diversidade, no contraste. Partindo de uma realidade agrícola, passou por um período altamente industrializado, expandiram-se os serviços e o comércio e, hoje, uma mistura desequilibrada de todas as realidades anteriores. Diversos ambientes ficaram irremediavelmente perdidos, por não existirem registos. Ou existem, mas em mãos privadas que, eventualmente os instrumentalizam para fins… privados. A ideia arrancou tarde, mas arrancou. E isso é importante. É de igual importância que se dê continuidade e se expanda o âmbito. Seria lamentável definhar numa gaveta e extinguir-se algo relevante só porque não dá prémios nem traz protagonismo mediático. Se calhar é ousado demais pensar que os nossos netos possam visitar o museu ou a biblioteca e, escutar (cronologicamente ou não) as várias existências ou fases, da Banda Operária Torrejana, do Choral Phydellius, até mesmo das bandas Rock que brotaram como cogumelos na primeira metade dos anos noventa em Torres Novas. Se pensar isto é ousado, como adjetivar a expectativa de ouvir novamente o apito da Fiação e Tecidos, ou poder comparar por época as diferentes sirenes dos Bombeiros? Comparar o marulhar da água do rio Almonda entre inverno e verão, identificar as aves pelo seu trinado? Tudo isto é importante. Constitui identidade. Constitui cultura. Haja sensibilidade para tal.




24/03/2022

Jornal Torrejano - Nº 1123 - Dos fracos não reza a história.

Jornal Torrejano – Nº 1123 - 19/11/2021

Dos fracos não reza a história.

É uma realidade: Dos fracos não reza a história. A prerrogativa fica do lado dos fortes, dos vitoriosos que, nessa condição, escrevem a história. A versão dos factos para a posteridade é invariavelmente simpática para os vencedores e, vincadamente penalizadora para os vencidos. Este paradigma, por estar condensado num ditado popular, tem especial relevância. Quer dizer que, no universo alheio aos eruditos, a malta não é estúpida e percebe perfeitamente o que está a acontecer. Impotente para alterar o rumo mas, cientes dos interesses decisores. Evitando o auxílio de exemplos políticos e sociais para ilustrar a pertinência do ditado, a área científica a par da área comercial, providenciam exemplos de sobra para esse fim. A rivalidade entre Edison e Tesla, a competição entre VHS e Betamax, o duelo entre Compact Disc e Mini Disc, são emblemáticos e certamente suficientes para concluirmos que, a mediocridade vence a excelência, repetidamente. Mesmo que posteriormente a evolução científica venha a reunir evidências que o outro caminho teria sido melhor, imediatamente brotam relativizações que o comprometem, opiniões especializadas que lançam mácula, que inquinam verdades factuais. A prioridade é assegurar a continuidade da versão oficial, a dos vencedores. Por vezes, as manobras, as cortinas de fumo e, a tão em voga “desinformação”, atingem patamares surreais. Mas, o ditado testemunha: A malta não é estúpida.

Os bombeiros torrejanos estão em maus lençóis. Faltam recursos humanos, faltam recursos materiais. Falta dinheiro. Para a dificuldade em angariar novos voluntários, gritar aos sete ventos que não há dinheiro, não ajuda. Ninguém quer embarcar num navio que se afunda. Estranho como uns temas são de uma opacidade injustificada, já outros… Perante as dificuldades, o presidente da câmara emitiu um comunicado onde revela que o apoio da câmara municipal aos bombeiros voluntários, o ano passado, atingiu os 415 mil euros. Quase um por cento do orçamento anual da câmara. Este ano, foram cabimentados 375 mil euros para o mesmo fim, deixando no ar a sugestão que mais dinheiro irá aparecer, se necessário. No mesmo comunicado informa que, em caso de falência operacional dos Bombeiros Voluntários de Torres Novas, outras instituições prestarão os serviços. Por isso, a população não tem nada a temer. Já os bombeiros… Caso o leitor tenha chegado recentemente ao planeta, talvez não saiba que, o presidente da câmara é simultaneamente o responsável da proteção civil (só esta história, são outros quinhentos), talvez não saiba que o presidente dos bombeiros (ele próprio, ex-presidente da câmara) e um membro do conselho fiscal dos mesmos, foram adversários diretos do presidente da câmara nas recentes eleições autárquicas. Pronto, agora já sabe. Regressando ao episódio de hoje, a resenha: Em 2020, com 415 mil euros de apoio, os bombeiros queixam-se que não chega, estão aflitos, por isso tomem lá 375 mil euros em 2021 e, a pouco mais de um mês do final do ano, se for preciso, arranja-se mais. “Se”. Mesmo sério? “Se”? Se, não tivesse à minha frente uma prateleira cheia de cassetes VHS, se, não estivesse neste momento a ouvir música num CD, numa aparelhagem alimentada por corrente elétrica alterna distribuída por cabo, era gajo para questionar como é que um vencedor emite um comunicado com este teor no intuito de sossegar a população




23/03/2022

Jornal Torrejano - Nº 1122 - Bizarro.

Jornal Torrejano – Nº 1122 - 05/11/2021

Bizarro.

A Startup Torres Novas comemorou cinco anos de existência. Pompa e circunstância, palmadinhas nas costas e elogios pelos sucessos conquistados. O habitual nestas coisas. O projeto Startup torres Novas iniciou a atividade a 20 de outubro de 2016, não completando um trimestre nesse ano, portanto. Começar a atividade nesta data, é ter pela frente o Natal, a passagem de ano e, uns feriados amiúde. Seja o que for que tenha sido feito neste período, foi para consumo interno certamente. Desde então, apoiou 95 projetos empresariais, de 226 candidatos analisados. Até aqui, tudo bem. A coisa só começa a ficar opaca quando queremos saber mais. Mais, para além das palmadinhas nas costas e dos elogios. Quando queremos saber dessas 95 proto empresas, quantas resistiram ao terceiro ano de existência, por exemplo? Ou quantos postos de trabalho geraram? Passada uma fase inicial a usufruir do apoio previsto, quantas conquistaram autonomia? Em quanto tempo? Quantas apresentam lucros? Qual o volume de negócios? Estão todas em atividade ou, passaram a ser um side project de alguém que acabou por ir parar a trabalhador por conta de outrem? Quantas foram integradas em agentes económicos de maior dimensão? Ainda existe alguma sequer? Tudo isto é zona cinzenta de densidade bloqueante. Pelo menos online, não encontrei respostas ou dados que pudessem iluminar o caminho desta demanda pela confirmação do sucesso tão apregoado. Não encontrei isso mas, encontrei outras coisas, passíveis de sugerir eventuais pistas. Ora vejamos: A média do número de empresas criadas no concelho, nos três anos que precederam a criação da Startup, foi de 92 novas empresas por ano. Para os três anos posteriores, foi de 82. Caso fosse numa sitcom, nesta altura ouvia-se a sonora gargalhada do público. Não. É na vida real.

Vender fruta podre como gourmet, de tão recorrente, enjoa. Nada mudou. Até percebo: Se assim resulta… Para quê mudar?

Por ocasião de outro aniversário, o do Teatro Virgínia, a Câmara Municipal oferece à população um espetáculo musical gratuito. O que é ótimo. Assinala-se assim mais um ano, com o Café Concerto fechado. Pode ser que o público generalista que vai encher o concerto de aniversário se lembre que o público não generalista deixou de ter sítio para ir. Encerrado por motivos económicos (não é claro se da Câmara, se de terceiros), apodrece lentamente à semelhança de outros investimentos, aparentemente insustentáveis depois de construídos. Seguindo o exemplo emblemático da extinção do Museu Etnográfico, malfadadamente atravessado no caminho do progresso, cujo conteúdo apodreceu em parte incerta. O tal dinheiro que tem de ser gasto senão é devolvido? Dá nisto. A postura desta malta versus a vida real, traz-me à mente a frase de um poema do Rui Sidónio: “Fecho as pálpebras com a casa a arder”.

Fontes de dados: Município de Torres Novas, Jornal O Mirante, Jornal Rede Regional, Nersant.




22/03/2022

Jornal Torrejano - Nº 1121 - O milagre das 3 aparições televisivas.

Jornal Torrejano – Nº 1121 - 22/10/2021

O milagre das 3 aparições televisivas.

Após vinte e tal anos, finalmente, cumpri com o conselho do médico e, pus-me a fazer exercício físico. Consiste numa volta de bicicleta. Mais ou menos a meio, fico completamente estoirado, passo a fazer as subidas a pé. Regresso a casa e tomo um duche. O que configura a prática de Triatlo. Além de mandar o barro à parede da juventude eterna, faço o médico (entretanto reformado) ficar todo orgulhoso de mim, por ter seguido os seus sábios conselhos. Descontando os cem por cento saudáveis e imunes a acidentes, aos restantes, em algum ponto do trajeto por um motivo ou por outro, eventualmente colocaram a sua vida nas mãos de um médico. Na hora do aperto, dá para confiar a vida, mas, para presidente de junta, já temos mais reservas. Sem novidade, o problema centra-se no rol de doenças crónicas na rede de cuidados primários de saúde que, voltam a suscitar interesse televisivo, revelando insólitos no processo. Em um outro interesse televisivo diferente, também nem tudo são rosas. Aderi ao “mexe-te, preguiçoso” mas não deixei de fumar. É meio cínico mas melhor que nada. Emagreci uns quilos significativos, contribuí para os insólitos, embora isto pareça uma locomotiva a vapor, a apitar por todo o lado. Ainda assim, fica 90% do problema resolvido. Continuar a fumar é detalhe. Residual. Se o processo operacional demorar tanto quanto o administrativo, dá para andar mais uns anitos a dois maços por dia. Veremos se o interesse televisivo se mantém, sabendo que 90% do problema já está, à data, resolvido. A televisão (ainda) não ter cheiro, inibe o contraditório. Uma pena. Agora estão os leitores a pensar, com toda a legitimidade: Um fulano que ignora conselhos médicos durante décadas, se põe a fazer exercício físico sem ter deixado de fumar e, afirma que 90% do problema está resolvido, devia estar caladinho e não se expor, certo? Errado. Precisamente o oposto. Deve ir à televisão, convidar otári… turistas, a vir aos magotes visitar o concelho. Melhor: enquanto o faz, na feira internacional dos frutos secos, onde três cestos meios, de frutos secos, se acotovelam a lutar pelo espaço exíguo, aparece nas filmagens ao fundo, o posto de turismo. Fechado. Venha visitar-nos, o posto de turismo estará fechado para o receber, o ar estará pestilento, os ribeiros poluídos e, os cuidados de saúde deficitários, são de visita obrigatória. Tragam as câmaras preparadas. E as bicicletas (eu depois explico). Um dia, um cretino qualquer, especialista em marketing e relações públicas, vende à câmara municipal o slogan: “Venha a Torres Novas. Porque Fátima é aqui ao lado”. E eles compram. Recorrendo a financiamento externo, claro. Lá virão as televisões, outra vez, gerar o milagre das três aparições televisivas. Não existe má publicidade.




21/03/2022

Jornal Torrejano - Nº 1120 - Ressaca.

Jornal Torrejano – Nº 1120 - 8/10/2021

Ressaca.

Após as eleições autárquicas e, conhecidos os seus resultados, li on-line algumas tentativas de pseudojornalismo, outras tantas opiniões de pretensos analistas políticos e, também, algumas declarações de vencedores e vencidos. Ah! Espera. Não houve vencidos. Ganhou a democracia, segundo dizem. Quando quase metade dos eleitores se esteve borrifando para exercer o seu direito, eu diria que há vencidos sim e, não foram poucos. Preocupa-me que este facto não seja um problema, uma prioridade para os vencedores. Nem para os pseudojornalistas e pretensos analistas políticos. Neste cenário, dificilmente descortino a democracia como vitoriosa. Para o que escrevo a seguir, apesar de ter feito as contas numa folha de cálculo (com dados obtidos on-line) para o efeito desta crónica, arredondei bastante e, os números apresentados, são uma mera aproximação. É mais prático. Vejamos: A abstenção a nível nacional passou os 46%. Num universo de eleitores de cerca de 9,4 milhões, são 4 milhões de abstencionistas. As audiências nos canais de televisão para a cobertura das eleições, andou à volta de 5 milhões de espectadores. Partindo do pressuposto, quem vota tem interesse em saber quem ganha, bate certo. Por exclusão de partes, há 4 milhões de eleitores desinteressados, sem votar. Não há recenseamento nem sondagem a desmentir ou confirmar o preconceito que, o abstencionismo tem origem na indiferença ou na iliteracia política. A abstenção é também ela uma manifestação política. Sustentada por eleitores que não consideram válida a totalidade da oferta no painel, ou das regras do jogo sequer. Sem dados, só podemos conjeturar. É uma leitura possível, pelo menos. A abstenção em Torres Novas foi um pouco abaixo da nacional, 43%. Para um universo de 30 mil eleitores onde apenas 17 mil são votantes (dados de 2017), significa 13 mil abstenções. Quem ganhou, maioria absoluta com menos de 8 mil votos, na sombra de 13 mil abstenções, teve como bandeira, entre outras qualidades anunciadas, a proximidade. Ser próximo de metade da metade, é como aquele fulano que estava morto. Mas era só um bocadinho. Não fazia mal. Quase nem se notava. Senhores vencedores, deixem-se estar quietinhos. Já é tradição, por isso não se vai notar rigorosamente nada. Quase metade não vos vai exigir responsabilidades nem pedir por contas. Conhecem o futuro, já sabem no que vai dar, limitam-se a ir planeando a fuga, se não o fizeram já. A outra metade vota. Metade dessa metade, vota precisamente em vós. Identificam-se claramente os benefícios de, e para, a democracia. Instalou-se a ditadura da maioria de 8 mil sobre 30 mil. Para acontecer e se perpetuar, é do interesse dos poderes vigentes que o abstencionismo se mantenha, cresça até. É como pescar num barril, não tem como errar. Embora o próprio INE aponte a emigração para justificar a diferença entre eleitores e votantes (850 mil a nível nacional), festeja-se. Embora se ouçam avisos sonoros e luzinhas vermelhas a piscar a alertar para o perigo dos absolutismos, festeja-se. Pela democracia, afirmais vós, enquanto o número de peixes no barril continua a diminuir. Estou tentado a sugerir outra opção que não o ficar quietinho: servir todos. A definição de cargo público: servir a comunidade, toda a comunidade. Conceito ousado, não é? Implica trabalho. É melhor não. Os ilustres senhores não estão habituados, vai dar asneira. Como já deu antes. Ter mão nos subordinados, filtrar o que proferem em público, escrutinar detalhadamente os projetos e sua utilidade, o enquadramento dos equipamentos na comunidade, supervisionar as obras que propõem e executam, tem-se vindo a revelar uma dificuldade. Agora, uma impossibilidade. Sublinho o ponto negativo que o resultado destas eleições trouxe: o silenciar das vozes discordantes que, punham em causa, questionavam, e bem. Ficámos mais pobres. Por outro lado, também ficámos a saber que 2880 torrejanos ainda devem favores ao monarca anterior. O tal que ia ganhar isto. Só que não.

Fontes de dados: Pordata, INE, RTP, SIC, TVI, Expresso, Público




20/03/2022

Jornal Torrejano - Nº 1119 - Cara Doçaria Regional.

Jornal Torrejano – Nº 1119 - 24/09/2021

Cara Doçaria Regional.

Dois presidentes consecutivos resolveram ignorar deliberadamente um problema. Os problemas quando ignorados tendem a agravar-se. Hoje, vamos pagar meio milhão por algo, se resolvido atempadamente, custaria uns milhares, poucos. Além do termo “responsabilidade civil” que me ocorre automaticamente, a relação com as leis que Arthur Bloch tão bem reuniu, dando os devidos créditos ao autor original, Murphy, sobrepõem-se por assentarem como uma luva neste infeliz, e caro, episódio. Senão vejamos:

“Sendo-lhe dado um mau princípio, um problema crescerá a uma taxa exponencial.”

Pela atitude inicial de desresponsabilização e subsequente postura de indiferença. Verifica-se.

“Qualquer problema simples pode ser tornado insolúvel se se fizerem suficientes reuniões para o discutir.”

Pela propaganda difundida pelos responsáveis, a preocupação ao longo das décadas que entretanto passaram, foi constante, logo imensas reuniões. Verifica-se.

“Quando os remédios do estado não se adequam aos problemas, devem mudar-se os problemas, e nunca os remédios.”

É época de eleições, prometo tudo a toda a gente, também prometo resolver isto. Por meio milhão. De acordo? Ora então, tomem lá uma ciclovia (a sério, parem lá com isso, já não tem piada) e um elevador para o castelo. Verifica-se.

Aqui há uns anos, depois da queda do muro de Berlim, um cidadão comum, empreendedor, começou a vender pedacinhos do muro como souvenirs. O negócio prosperou, até apareceu na Forbes. Rápidamente qualquer muro, com grafitis só de um lado, em Berlim ou nas imediações, foi desfeito aos bocadinhos para alimentar um mercado paralelo, a aproveitar a onda. Os originais passaram a ser embalados, numerados, com certificado de autenticidade. Mas o sentido de oportunidade venceu. Enquanto houver muro, há negócio.

Por cá, a malta tentou copiar o modelo, mas houve algo que escapou. A coisa não funcionou como esperado.

Passo um: Atirar muro alheio abaixo. Feito.

Passo dois: Ora gaita. Não tem grafitis.

Passo três: Esquecer o assunto. Deixar passar duas décadas. 

Passo quatro: Ah! Isto tem dono? Pronto… Pago meio milhão. Mesmo destruído e sem grafitis.

Os berlinenses, ainda há mais tempo atrás, foram chamados de bolos de pastelaria, Bolas de Berlim, pelo líder máximo do capitalismo nessa altura. Não levaram a mal, até acharam piada. Riram-se muito. Uns anitos depois, estavam a negociar o muro que vedava o capitalismo à outra metade, em frações muito pequenas, a um preço acessível, a clientes de todo o planeta. Nem os Pink Floyd foram tão longe na ironia. Em Türme Neue, os Bolos de Cabeça, aplaudem outros Bolos de Cabeça, que apregoam ruidosamente promessas avulso pelas ruas, o paraíso na terra e outras maravilhas. Ninguém concebe que, uma confusão menor, uma mera e insignificante inversão na interpretação entre, “vender entulho barato” e, “comprar entulho caríssimo”, poderá abalar a convicção dos Bolos de Cabeça. Daí, seguir a festa. Talvez se aparecer alguém do lado de fora a chamar-lhes “Bolos de Cabeça”, abale as convicções e os desça á terra. Vale a pena tentar, na pior das hipóteses riem-se muito.


(Entre aspas: A Lei De Murphy, Arthur Bloch, Edições Temas da Actualidade S.A. 1994, ISBN 9727480009)





19/03/2022

Jornal Torrejano - Nº 1118 - Apedeuta, insipiente, mentecapto, néscio.

Jornal Torrejano – Nº 1118 - 10/09/2021

Apedeuta, insipiente, mentecapto, néscio.

Por altura do lançamento do programa “Novas Oportunidades” (em 2007), recordo-me de ver uma entrevista na televisão em que, a jornalista na rua, perguntava a um cidadão jovem se ele achava importante estudar. Respondeu qualquer coisa como: “Sim, é bastante importante. Com estudos podemos chegar longe. Até, quem sabe um dia, ser funcionário público”.

Hoje a percentagem de analfabetismo ronda os 5%. Um dos piores números da Europa. Considerando que ali por volta da revolução de Abril, a taxa de analfabetos em Portugal estava algures entre os 25 e os 30%, ou seja, para mais de um quarto dos portugueses, quem sabia ler e escrever, era doutor. Quem era doutor, estava próximo de divindade. E acima disso, só o Senhor Padre. Os horizontes tão estreitos do fulano entrevistado, são o reflexo, o ripple effect, do número de analfabetos e iletrados que, teimam em se fazer sentir acentuadamente no século 21. Olhando para o enquadramento social, percebemos que a formação académica só por si, não introduz valores, princípios, à construção do individuo. Como é tão vulgar ouvir: Isso tem de vir de casa. É berço. As disciplinas de “Religião e Moral”, agora substituídas pelas polémicas disciplinas de “Cidadania”, foram remendos prenhes de bafios que, tresandavam e ainda tresandam, a engenharia social. Inúteis no sentido da solução, portanto. Em muitos casos, estas aspirações à terra prometida do funcionalismo público, foram concretizadas. São facilmente identificáveis pelas posturas e comportamentos anti éticos, alguns episódios de aproveitamento, outros de incompetência, e, desaguando tudo isto em redes de interesses e favorezinhos, enquanto assobiam para o lado fingindo que, corrupção, é outra coisa qualquer, totalmente diferente. Somos todos coniventes no jogo do lodo. Uma das vias possíveis para minimizar esta realidade seria uma estruturação de carreira, com salários decentes, numa mecânica por objetivos e reconhecimento por mérito. Em conversa entre amigos, abordámos um tema algo semelhante nalgumas áreas do desporto. Resultou em certa medida. Atenuou injustiças e desmotivou ganâncias. Comparando unicamente pelo prisma financeiro, o patamar salarial de um presidente de câmara, está ao mesmo nível de um cargo de direção numa pequena média empresa. Descendo na pirâmide, torna-se evidente o porquê das permeabilidades. Horizontes estreitos, fracas competências, falta de estímulo na vida profissional, ingredientes para a disfuncionalidade institucional que, fomos amestrados a tolerar, a aceitar como normal até. A estes indivíduos perdoamos que usurpem trabalho e património alheio, perdoamos que insultem os seus constituintes, perdoamos a falta de carácter e a incompetência. Porque somos sensíveis ao seu calvário. Coitadinhos. É perfeitamente natural que estes indivíduos procurem uma segunda ocupação para pôr pão na mesa, ou, até mesmo só como colete de salvação para a sua sanidade mental. Um complemento relacionado com a necessidade e não com a ambição. Olhando para o boom das empresas imobiliárias, não me espantava de os ver a vender uns apartamentozinhos, por exemplo.




18/03/2022

Jornal Torrejano - Nº 1117 - Os 3 reis magos. Sem estrela, mas com GPS.

Jornal Torrejano – Nº 1117 - 27/08/2021

Os 3 reis magos.

Sem estrela, mas com GPS.

Pela primeira vez na história torrejana, três anteriores presidentes de câmara estão na corrida eleitoral. Em projetos governativos distintos. Embora um deles não tenha o papel de líder desta vez, são três presidentes de câmara presentes. Cobrindo cerca de 40 anos contínuos de governação autárquica. A conclusão direta a tirar deste facto é, a incapacidade de renovação. Não exclusivamente partidária. Provavelmente mais uma tonalidade do êxodo que se manifesta. Deixo essa reflexão pendente e questiono se, esta realidade peculiar, não constitui um convite irrecusável para confrontar o autor com a obra. Se hoje somos obrigados a remendar, temos à nossa frente, com disponibilidade, as pessoas que vestiam o casaco quando ele se rompeu. Ou assim pensava eu.

Construções embargadas durante décadas, ruínas, desflorestação urbana sistemática, o rio, a desertificação, mais ruínas, incapacidade de criar uma relação bidirecional com a Renova em defesa do interesse público, desprezo pelas mais-valias históricas, desprezo pelas mais-valias naturais, incapacidade de manutenção de diversas vias rodoviárias principais, incapacidade de alargamento da rede da saneamento básico, o escarro arquitetónico e urbanístico na lateral do hospital antigo, as piscinas que se foram, a universidade que não veio, o mamarracho dos desportos, o mamarracho dos Claras, a postura psicótica obsessiva compulsiva com jardins, aquela coisa no planalto, o caixote para estacionamento com jardim encavalitado para disfarçar, a anedótica ciclovia, o tumor que querem agrafar a uma ameia do castelo, a lista continua… É sobejamente conhecida, já se torna cansativo repeti-la. A comunicação social local, entende este convite como perfeitamente recusável e, cede o seu espaço, para cada candidato expor o seu projeto. Em linguagem corrente: vender o seu peixe. Num ambiente controlado e seguro. Contraditório, não existe. Quando muito, acaricia-se na proximidade da ferida, com jeitinho. Meter o dedo lá dentro para remover o tecido necrótico, é expressamente proibido. “Não interessa falar do passado, vamos mas é falar do futuro, falar de tudo o que eu prometo.” E está a conversa de volta nos carris. O eleitorado perde assim uma oportunidade régia de por um rol de temas em pratos limpos com quem de direito. Foca-se obedientemente nas promessas. Dos mesmos. Imagino um debate, qual combate de boxe, com almofadas brancas fofinhas e penas a esvoaçar. Em câmara lenta. E muitos sorrisos, claro. Insanidade por insanidade, prefiro a minha. O eleitorado opta por, numa realidade paralela, virtual, descer de nível até ao insulto pessoal gratuito. Por causa de nomes próprios. Como se não bastasse o que o rapaz deve ter sofrido na escola primária. Quando os argumentos escasseiam, a imbecilidade manifesta-se. Ou então são daqueles fulanos pagos para andar nas redes sociais a disseminar propaganda e semear caos. Entendo que numa sociedade capitalista tudo tem um preço, não há refeições grátis. A minha ingenuidade choca-se é com o baixo custo. Diria que, existe excedente de gente barata. Neste cenário, prometer milhões, é redundante.




17/03/2022

Jornal Torrejano - Nº 1116 - Um ano.

Jornal Torrejano – Nº 1116 - 13/08/2021

Um ano.

Faz um ano que esta crónica existe. Impõe-se um agradecimento pelo convite do jornal Torrejano para a redigir, sem submissão a um âmbito específico. Obrigado pelo espaço gentilmente concedido. Começou com umas cabras desaparecidas que, deram em arquivadas, porque a Junta submeteu o processo fora do prazo. Passou pelo júbilo de supermercados com descontos convidativos e, hambúrgueres que oferecem uma voltinha extra às instalações. Entretanto, cortaram-se ou deixaram-se morrer árvores. Ou ambos, não é claro. Passou-se por lombas que não eram lombas e, por lombas que são obstáculos. Houve história que se perdeu por baixo do cimento do progresso. Envenenou-se a água e a população. Continua-se a envenenar a água e a população. Os artistas subiram ao palco e interpretam os seus números. Só se tem uma certeza: os números prometem. Uns vacinaram-se, outros tiveram de ser investigados. Uns são expropriados à força, outros fazem por força bons negócios. Paga-se para que permaneça tudo imóvel, aplaude-se essa imobilidade e, vende-se como dinamismo. Passou-se graxa à Renova, tem de ser, está no contrato. Tornou-se clara uma divergência cognitiva acerca do conceito de “ciclovia”. Entretanto, como já passou mais um ano e nada foi feito, continua-se a envenenar a água e a população. Sei perfeitamente que é a segunda vez que menciono isto, não estou senil. A judiciária tornou-se habitué da Câmara. As flores são aceites como substitutas dignas das árvores. Um ocasional cagalhão a boiar no Almonda não compromete os floridos espaços de lazer ribeirinhos feitos com material de segunda. E já passou um ano. Houve distrações? Claro que sim. Uma pandemia, um mundial de futebol e, dez milhões de cachopos especialistas em tudo, que se ofendem com tudo, geram distração que chegue. Acho que posso afirmar com segurança que essas distrações não afetaram o foco (auto determinado) desta crónica. Se por vezes o humor se destacou, a seriedade dos temas satirizados foi prioritária, não sendo estes branqueados pela eventual ironia. Não houve protocolo nem preferência seguidos. As fontes temáticas foram sempre com origem na comunicação social, regional e nacional. Agradeço também a quem lê. Agradeço principalmente a quem lê. Há quem enalteça a frontalidade e há quem nunca se manifeste. Ótimo. O objetivo, se algum, é a corrosão da indiferença. Trazer para a discussão o indivíduo “eu cá não ligo a essas coisas”, porque há coisas a merecer que se ligue. Espero ter conseguido alguns resultados nesse campo. Antes que isto aparente ser uma “este gajo está de férias e teve de arranjar uma coisa qualquer à pressão só para cumprir calendário” tipo de crónica, prometo não voltar a cronicar aniversários. Aguarda-se intervenção do governo central para deter o envenenamento da água e das populações. Já tinha falado disto?




16/03/2022

Jornal Torrejano - Nº 1115 - Ao trabalho. Ao trabalho. Ao trabalho, ao trabalho.

Jornal Torrejano – Nº 1115 - 16/07/2021

Ao trabalho. Ao trabalho.

Ao trabalho, ao trabalho.

Recentemente um amigo, empresário em Torres Novas, telefonou-me. Precisava de contratar um recurso com competências altamente especializadas e perfil adequado ao projeto empresarial que lidera. Não oferecia trabalho mal pago, precário, temporário, nem tampouco uma posição congelada no tempo, sem possibilidade de evolução. Por todos os parâmetros, era uma boa oferta. Perguntou se eu conhecia alguém com as características pretendidas. Respondi-lhe que sim. Vários até. Pelas linhas orientadoras que enumerou, seria um jovem, com formação específica, em início de vida, com um futuro a construir e, disposto a lutar por isso. Mas, havia um problema. Como vou eu convencer um jovem com formação académica e em início de vida, a abandonar Lisboa, Aveiro, Coimbra, Viseu, para ir viver em Torres Novas? Fez-se silêncio do outro lado da linha. Passado uns segundos o meu amigo replicou: Pois é…Tens razão.

Os números provisórios dos censos revelam que a tendência para o êxodo se mantém. O número de habitantes do concelho continua a descer. Apesar da cortina de fumo que os autarcas e candidatos a autarcas descem sobre o tema, a vida real não se compadece com histórias. Admitindo uma média de 4 pessoas por família, só em Torres Novas, desapareceram 200 famílias. São 200 casas que não se alugam ou compram, 800 consumidores que foram gastar o seu dinheiro para outro lado, 400 alunos que foram frequentar outras escolas. Isto com números arredondados para baixo. Desengane-se quem quiser camuflar esta verdade justificando-a com o envelhecimento da população. Basta consultar o número oficial de partos, que está a subir. Mesmo dando o devido desconto a parturientes oriundas de fora da área de abrangência do CHMT. A criação de postos de trabalho por cativação de novas empresas para o concelho, não é, como ilustra o episódio (real) que descrevo atrás, o único problema, a única dificuldade. É todo um contexto estrutural, social, cultural, deficitário que, não atrai, não convida. Aliás, como os números revelam: repele. Algo está mal, algo continua mal. A solução para as empresas, públicas e privadas, ultrapassarem este problema e continuarem a operar é… pagar salários acima da média, com tudo o que isso acarreta para a salubridade do empregador. Mesmo assim, o grosso da coluna dos recursos que aceitam o desafio, prefere gastar o incentivo extra em deslocações, mantendo-se a habitar na sua localidade de origem. A realidade é incompatível com as alarvidades egocêntricas propagandeadas pelos políticos locais que, se vão cobrindo de ridículo cada vez que números oficiais são divulgados. Como foi o caso da redução de IMI, onde Torres Novas se destaca pela negativa, contrariando a pomposa comunicação oficial do presidente da câmara. Outro exemplo que ilustra a imagem caótica que se está a passar para o cidadão comum, é a presença virtual da Biblioteca Municipal na Internet, mais concretamente na rede social Facebook. Tem página institucional, onde quem quiser bota um “like” ou clica no “seguir esta página”, mas, também tem perfil pessoal, cuja interação se processa pelo “pedido de amizade” que, pode ou não ser aceite pelo destinatário. Deduzo que a criação do perfil pessoal precedeu a criação da página institucional, tornando o perfil pessoal obsoleto. Mas ninguém o removeu e continua ativo. Pedi amizade em 2018, ainda estou á espera. Eu, cidadão comum, que devo concluir? Problemas sérios requerem uma abordagem séria, por gente séria. Assim, é palhaçada. O exemplo vem de cima, refletindo-se direta ou indiretamente em toda a estrutura, nos elementos institucionais que a compõem e, em ultima análise, nas pessoas. Convém não esquecer que as pessoas são a razão de ser das instituições, públicas e privadas e não o circo. Circo é entretenimento. De gosto questionável.




15/03/2022

Jornal Torrejano - Nº 1114 - El ritual de lo habitual.

Jornal Torrejano – Nº 1114 - 02/07/2021

El ritual de lo habitual.

Em altura de eleições ingenuamente teimo em criar uma expectativa. Sempre a mesma: A discussão pública das necessidades por suprir, os melhoramentos necessários, o rumo a seguir. Invariavelmente a expectativa sai defraudada por frases feitas e, um mais do mesmo que, evita e contorna com precisão todas as alíneas que preconizo para tal época. Um alinhamento de ideias e intenções tornadas públicas pelas mais diversas cores partidárias revelam-se na generalidade, sobreponíveis. Pode-se eventualmente fazer uma leitura de coesão transversal no elencar das necessidades. Ou seja, toda a gente sabe o que está mal, toda a gente é conhecedora das necessidades e, do que é preciso fazer para corrigir e colmatar. Faz lembrar aquela anedota do miúdo que encontra um montinho de fezes no chão e tudo faz para constatar que de facto são fezes. De um lado ao outro do painel, partilham a lista de afazeres, com ligeiras diferenças no percurso para chegar lá. Diferenças ligeiras, não é de perto nem de longe, sinónimo de alternativa, de pensar diferente. Assiste-se a um alinhamento preguiçoso e doentiamente estagnado. Se o maior inimigo a combater é a indiferença (acredito que é), com moderação e contenção não motivam o cidadão desiludido com o “sistema” a ir às urnas. É preciso alguém que dê um berro, que apareça na conferência de imprensa despenteado, que proponha rotas impensáveis, que aponte soluções utópicas. E que não hesite em meter o pescoço no cepo para as concretizar. Caso contrário, o cidadão que por sistema não vota, vai perpetuar o sistema. O seu e o outro. Retroalimentam-se e não se sai disto. Votar por afinidade, que é o que acontece maioritariamente nas autárquicas, já se revelou, e confirmou, contraproducente, uma vez após outra. Já se experimentou, não resultou. Assuma-se o falhanço e arrisque-se outra porta. Para isso acontecer, o desiludido desinteressado, tem de encontrar motivos para ir votar. A hipótese de tal acontecer, não é com o tépido. Quente, ou frio. Morno… não vai lá.

Pedal Frenético evidenciou que não está interessado em inovação, em mudança. Autista às críticas, abraçou a prioridade “inaugura tudo o que puderes”, comprovando assim anos e anos de bater charuto, reservando oportunisticamente o pouco que foi feito, para esta altura. A postura fala por si.

Afinal Recandidato, promete fazer em menos de 4 anos aquilo que não fez em mais de 20. Han han.

A Coligação dos Outros… É a Coligação dos Outros. Vão olhando para o que os Outros fazem, para o que os Outros dizem e replicam o modelo com as vírgulas nOutros sítios.

O comunismo não funcionou, a União Soviética extinguiu-se, mas como a Rússia fica longe e esta malta não vê televisão (por ser o ópio do povo) ainda não sabem de nada. Continuam estoicamente a estrebuchar revivalismos que vão passando de geração em geração como um relógio velho e avariado que nunca se deitou fora, por ser de estimação.

Resta a malta do lado esquerdo do reino que, apesar de acutilante e pertinente, perde o foco no que realmente interessa, principalmente por causa das diretivas emanadas de cima. Hastear uma bandeira com as cores do arco-íris nos paços do concelho ou no castelo, não é uma prioridade e, adianta pouco ou nada para a finalidade a que se propõe.

E lá ficamos nós reduzidos a escolher o menos mau, quando a democracia foi pensada como o método para o povo escolher o melhor. Se crio expetativas contemporâneas em cima de um método milenar e saio defraudado, a culpa é minha. Pelo menos tenho a honestidade de o reconhecer e assumir. Se calhar sou eu que estou obsoleto.




14/03/2022

Jornal Torrejano - Nº 1113 - Quatro parafusos e um disco metálico.

Jornal Torrejano – Nº 1113 - 18/06/2021

Quatro parafusos e um disco metálico.

Recordo-me de uma altura, época pré campeonato da europa de futebol, em que se enalteceram as fabulosas obras, promissoras de progresso e riqueza, que hoje são monos. Ora pelos elevados custos de manutenção, ora por flutuação na relevância do clube desportivo a eles associado, os elefantes brancos, vulgo “estádios de futebol”, demoraram pouco tempo a revelar-se meros despojos de operações financeiras fabulosamente favoráveis a alguns grupos de interesse, ou lobbies. A inutilidade da obra, essa é pública. Mas como é futebol, a malta deixa passar, faz de conta que nunca aconteceu, porque eles são os nossos heróis. Outro episódio dessa altura que me salta à mente, foi o decreto ministerial que pôs todos os taxistas a falar inglês. Prevendo o grande fluxo de estrangeiros, bastou um decreto do governo e, de um dia para o outro, toda uma classe profissional passou a falar fluentemente inglês, como algumas reportagens televisivas comprovaram. Deu vontade de rir na altura, dá vontade de rir agora. Ideias que aparentam ser fixolas, pela camada de verniz com que as vendem, revelam-se perfeitas idiotices sob um olhar mais atento ou, pelo julgamento da passagem do tempo. A tão apregoada ciclovia com um custo de largos milhares de euros foi instalada na cidade. Resume-se a umas plaquinhas metálicas com o símbolo de uma bicicleta, aparafusadas ao chão. Colocadas em vias com circulação automóvel e pedonal, sem qualquer outro tipo de intervenção, fosse corretiva à degradação previamente existente, fosse piso diferenciado, fosse recondicionamento da circulação. Nada. Umas plaquinhas no chão e temos ciclovia, quando tudo o resto permanece inalterado. Carros, bicicletas e peões, tudo ao molho. Por ruas onde um fulano grande sente claustrofobia. As vias que os cidadãos, ciclistas e caminhantes preferem, são as com menos trânsito e próximas da vegetação, do verde, por motivos óbvios. A esmagadora maioria dessas vias, que são a preferência do cidadão, repito, nem sequer têm berma. Isto acontece num concelho que está “habituado” a receber o fluxo de caminhantes gerado pela proximidade de Fátima. Desde há cem anos. Pela experiência acumulada, pelo contexto ambiental, pela população, pelo alarido, pelo valor, esperava-se mais, muito mais. É descontextualizado é desarticulado, é inútil. Um traçado claramente forçado, adverso aos nativos, inútil para os em trânsito. Aguenta e não reclama. Se entretanto não aparecerem surpresas, em sinalética vertical por exemplo, ganhámos mais um mono. Se não puder ajudar, atrapalhe. O importante é participar.




13/03/2022

Jornal Torrejano - Nº 1112 - O rio Alnova e a nascente do Remonda.

Jornal Torrejano – Nº 1112 - 04/06/2021

O rio Alnova e a nascente do Remonda.

Os últimos dias destacaram-se por uma movimentação agitada de coisas irrelevantes a acontecer. Apenas duas, elegíveis ao patamar de interessante. Ambas, de iniciativa individual e no campo dos áudio visuais. O que, só por acontecer em Torres Novas e/ou pela mão de torrejanos, conjeturo a prova de obstáculos que deve ter sido todo o processo. João Canuto meteu o seu filme a rodar no circuito dos festivais e está a obter resultados bastante animadores. Malta que arregaça as mangas e, com meios mais ou menos inventados, faz coisas, é malta de fibra. Enalteço a força motriz desejando os melhores sucessos. O outro filme, produzido por alguém cujo nome desconheço, faz um resumo emotivo acerca do tema quente da nascente do Almonda versus Renova. Está no Youtube e já passou das três mil visualizações. Porque falo nele? Bom, além de conseguir sintetizar uma visão macro do tema, explica-nos a nós torrejanos, porque é que devemos ficar envergonhados acerca disso. Posto de maneira simples: Estamos de costas voltadas para o rio Almonda. E não é de agora. Ignoramos completamente o nosso rio, não sabemos nada sobre ele. Sabendo alguma coisa, poderíamos elaborar uma estratégia, traçar planos, gerir melhor. Se os torrejanos soubessem o pH da água, o nível de oxigenação, a composição microbiológica, os químicos poluentes. Estes dados, obtidos ao longo do tempo, abrangendo as variações de caudal, abrangendo a poluição sazonal, produzem informação. Informação que ajuda a gerir o caudal, ajuda a identificar os diferentes agentes poluidores ao longo do curso, ajuda a decidir que florestação seria mais favorável ao rio. Há árvores que são verdadeiros aspiradores de metais pesados, outras com propriedades antibacterianas, algas que oxigenam a água... Construir a partir daí o restante ecossistema, de forma sustentável. Conhecendo a realidade, passava a ser possível (re)agir de acordo, com uma estratégia adequada ao problema. Mas os torrejanos desconhecendo tudo isto, deixam-se ficar pelas obras de cosmética. Também porque isso do ambiente é coisa de esquerdalha e em terra conservadora e puritana, não se desce tão baixo. Ficamos pela consensualidade calmante das flores e dos patos. Agora uma pergunta de algibeira, daquelas da escola primária: Sabem quem é que tem esses dados? Com um histórico de monitorização de décadas? Isso mesmo, a Renova. Esta realidade envergonha-nos. Os torrejanos foram incapazes de produzir uma cooperação bidirecional viável com a Renova, num contexto de proteção ambiental e gestão de recursos hídricos, em 80 anos, para não ir mais atrás. A vedação que está mal, é um bode expiatório para esta vergonha. Um gajo revolta-se contra uma vedação e automaticamente a árvore genealógica passa a apresentar indivíduos conhecedores do rio, que em puto iam lá ao banho, até para aí cinco ou seis níveis para trás. Já passámos o ponto da sensibilização. Não é necessário mais sensibilização. Quem por esta altura não está sensibilizado para o tema do ambiente e gestão da água, ou é estúpido ou está em coma. É altura de fazer. Depois de sensibilizar, tem de se avaliar o que se pode efetivamente concretizar. Atribuir uma responsabilidade moral a uma empresa privada, é argumento ténue. Estamos a lidar com o departamento de marketing que tornou limpar o cú uma coisa fashionable, como já alguém disse. Tivesse a Câmara Municipal um departamento para monitorização do rio, com autonomia para a recolha e tratamento deste género de dados, provavelmente não estaríamos reduzidos a argumentos morais. Nem se bajulava abertamente uma pro-atividade ambiental inexistente além portões. Gerir um rio com percurso tão diversificado como o Almonda, não se resume a dar graças por não ir azul ou cor de laranja, cheirar a podre ou alfazema do campo e, atirar para lá uns patos que, podem estar ou não, a ser envenenados pelo seu meio ambiente. Não se premeia quem cumpre. Cumprir é o mínimo. Premeia-se quem passa para além da obrigação. Fora de moda, educação à antiga, eu sei. Era outra têmpera, não tínhamos 4 folhas, picotado, pluma extra fofo, com aroma a alfazema do campo.




12/03/2022

Jornal Torrejano - Nº 1111 - Vai subir?

 Jornal Torrejano – Nº 1111 - 21/05/2021

Vai subir?

Para grande surpresa de todos, Talvez Recandidato (T.R.) decidiu-se e, oficializou a sua candidatura. Ato contínuo, despiu a pele de T.R. e vestiu a nova existência de Afinal Recandidato (A.R.) com a maior das naturalidades, como se desde sempre a tivesse usado. Até parece que foi planeado. Na comunicação ao mundo desta oficialização, não exibiu qualquer pudor em usar todo o saber acumulado pela sua existência anterior, acerca das necessidades do concelho e suas gentes, revelando na generalidade a sua proposta de governação. Se a ideia já estava cristalizada, ficamos sem perceber a utilidade da consulta popular que o seu avatar T.R. colocou, deficientemente, nas nossas caixas de correio. Passando á análise da proposta de governação de A.R.: Vê-se um arco-íris irradiando luz multicolorida, a abraçar um unicórnio imaculadamente branco, ladeado por dois golfinhos sorridentes, sobre uma constelação de nuvens cor-de-rosa de algodão doce. Alguém não anda a tomar os comprimidos. Quando a esmola é muita, o pobre desconfia. Fica a dica.

Entretanto, Pedal Frenético (P.F.) prossegue com a sua campanha eleitoral, reagindo à recandidatura de A.R. com o comentário eloquente: “O man ‘tá fora de fase!”, com o qual sou forçado a concordar. P.F. claramente apoiado pelos senhores do dinheiro cá do burgo, esbanja esse apoio em painéis de azulejo (fundo bege, com letras garrafais a bordeaux, revelando um apurado sentido estético que não é para todos) e, mais recentemente, na instalação de um elevador para o castelo. Justifica este devaneio excêntrico, habitualmente associado ao novo-riquismo, proclamando-se defensor acérrimo e de longa data, da acessibilidade. O mesmo fulano que aprovou o licenciamento de publicidade vertical em passeio de peões, cuja presença impedia a passagem dos peões. Surreal. A acessibilidade verdadeiramente útil e ao alcance da carteira de um município a debater-se com dívida significativa à banca, começa com os passeios rebaixados nas passadeiras de travessia para peões, facilitando a circulação dos cidadãos com mobilidade reduzida. Quantas existem? Continua, com piso táctil, anti derrapante, nas imediações das passadeiras, para sinalizar o local e facilitar a circulação de cidadãos invisuais. Quantas existem? Num universo de quantas passadeiras…? Mas não, um elevador para o castelo é que é. E quem questionar uma ideia fecal destas, é convidado com um feudalismo condescendente a ir fumar um cigarro lá fora, enquanto os “homens a sério” aprovam o projeto. Alguém não anda a tomar os comprimidos. Começa a formar-se um padrão, ou, é só mesmo incompetência arrogante. Desprezo por tudo o que exceda os limites umbilicais, inclusive a democracia. Para quem não sabe, o dinheiro vindo de Bruxelas, tem um prazo para ser gasto. Ou seja, há uma janela temporal para concretizar os projetos enunciados nas candidaturas. Após obtido o sucesso na aprovação da candidatura, esta idiotice do elevador, ficou na gaveta dois anos. Estando a aproximar-se vertiginosamente o fim do prazo. É evidente que urge concretizar, sob a penalização de terem de devolver o financiamento. O que de qualquer modo não fazia mal nenhum porque, como é claro, a campanha eleitoral de P.F. é apoiada pelos grandes capitalistas e, dinheiro não falta. O único sítio onde a falta de liquidez é perpetuamente endémica é, na Câmara Municipal.




11/03/2022

Jornal Torrejano - Nº 1110 - Impotência institucional.

Jornal Torrejano – Nº 1110 - 07/05/2021

Impotência institucional

Segundo noticia a TSF, a Agência Portuguesa do Ambiente multou a Fabrioleo em 400 mil euros e ordenou a demolição de várias edificações ilegais, incluindo uma ETAR, presentes naquela unidade industrial. A TSF procura quem por excelência deveria saber tudo sobre o tema e, encontra Pedal Frenético. Este acontecimento operou milagres na sinusite do executivo camarário que, no final de contas conhece bem o cheiro pestilento desde há muitos anos. P.F. aproveita a oportunidade para clamar por ajuda do governo central para a resolução da situação. Nada é dito sobre a organização de defesa do ambiente que, tem lutado sem descanso contra esta passividade abjeta perante um crime grave e, perfeitamente conhecedora da realidade no terreno. Ficou esquecida. Aconselho vivamente a ler/ouvir, é daqueles momentos raríssimos em que P.F. admite saber de alguma coisa. Tem tanto de histórico como de estranho. Como os tree huggers do BASTA não andam atrás de uma reeleição, não andam em campanha, não gozam das conexões que o partido proporciona, não estão alinhados com o governo central, só querem saber do ambiente, da natureza, da saúde e bem-estar das pessoas, são irrelevantes portanto.

SEIS ANOS depois de P.F. entender que demolir as edificações ilegais na Fabrioleo seria uma ação “demasiado radical” e declinar(!) o dever de o fazer, enaltece agora essa mesma decisão da APA. Não cumpriu com o seu dever, perdeu a oportunidade de ser assertivo e poupar SEIS ANOS de poluição altamente nefasta. Ficou SEIS ANOS sem mexer uma palha. SEIS ANOS depois, tenta faturar todo este processo só para si, enquanto deposita a responsabilidade do desenrolar da ação, que ele devia ter executado há SEIS ANOS atrás, no governo. Elliot Ness tinha nas construções ilegais a sua evasão fiscal. E declinou.

Chamam-lhe política.

Mas depende muito da época e da geografia. No antigo Egipto, chamavam-lhes eunucos. Na Itália renascentista, castrati. Na Europa do século XXI, políticos. Mantem-se a característica: cantam bem, correm a escala toda para cima e para baixo com trinados lindíssimos. Quais vedetas da impotência institucional.

A mecânica da política pode ser fascinante. Senão vejamos: Sem grande choque, mas com alguma urticária, instalou-se no senso comum a noção que, quando necessárias determinadas competências, estas sejam requisitadas dentro das fileiras do partido. Cargos por nomeação política é o novo normal, sem nada de novo. Depois, há todo um processo de construção de currículo que, deve ser adequado á posição (“posição” porque “função” implica fazer algo) de modo a imprimir um ar de credibilidade á coisa e não ser assim tudo á cara podre. Para este efeito, dá jeito ter uma série de instituições “em carteira”, dependentes financeiramente do município, obedientes, por onde vão circulando estes nomeados, sempre a somar itens curriculares. Derivado á questiúncula entre ex-sócios acerca de um endereço de correio eletrónico, ficámos a saber disto (não é que fosse segredo) e também que, determinado elemento da assembleia municipal, só o é, porque o município tinha um problema informático e o nomeado, supostamente, as competências para o resolver. Ouro sobre azul, efetivou-se o casório. Fez o circuito de enriquecimento de currículo e brotou um governante. A partir deste paradigma deduzo duas coisas: não há nenhum elemento nas fileiras do PS com competências em guardar cabras. E, houve algures no tempo, uma altura em que a câmara municipal precisou de um exorcismo. Fascinante, não?




10/03/2022

Jornal Torrejano - Nº 1109 - Abriu a época.

Jornal Torrejano – Nº 1109 - 23/04/2021

Abriu a época.

Os torrejanos foram informados por um panfleto, com impressão a cores em papel couché, na sua caixa de correio que, Talvez Recandidato (T.R.), ainda não se decidiu e, mantém-se isso mesmo, um talvez recandidato. Nunca tantos esforços foram empreendidos para reafirmar rigorosamente a mesma coisa, vez após vez, panfleto após entrevista após comunicado após declarações após… A linha de coerência é auxiliada pela solicitação que remata este panfleto de publicidade não endereçada: um pedido de ideias a quem as tiver. Em todas as comunicações públicas de T. R., nenhum plano, aliás, nem uma única linha de ação do projeto de governação, é revelado. Pelo menos, assumem a deficiência, e pedem ajuda. Sem constrangimentos. Para a malta a transbordar de ideias enviar as suas obras-primas, é indicado um endereço de email. Que não existe. Ninguém se lembrou de o criar, de o registar. Tornado público o folheto, um desses fulanos a transbordar de ideias, dá por isso e, regista ele próprio o domínio, ficando detentor da designação exibida no folheto. O fulano é acólito de outro culto e a coisa azeda. A guerra, política ou outra, é coisa feia. Imagine-se que era com um candidato real, uma campanha eleitoral verdadeira? Seria coisa séria. Assim, os eventuais danos deverão ser residuais. Tratando-se de um talvez recandidato, inviabiliza por definição uma campanha eleitoral verdadeira. Estraga-se apenas publicidade não endereçada. Já ia para o lixo de qualquer modo.

Como é que um episódio destes se passa na vida real e não numa sitcom? Para os que só chegaram agora, o resumo: A caracterização trágico-comédia desta novela tem por base a impossibilidade de Pedal Frenético (P.F.) usar informação sumarenta, arma capaz de infligir verdadeiros danos a T.R., seu possível adversário, caso se recandidate, porque nas décadas de governação consecutivas de um e outro, P.F. esteve sempre presente. Conivente portanto. Seria um grande tiro no pé usar as más decisões onde também aparece a sua assinatura. Daí, P.F. se ver forçado a calar-se acerca do passado, legitimando assim, décadas de governação do seu adversário direto. Remetido a procurar bem fundo nos bolsos, vê-se forçado a jogar cartas de risco. Daquelas que só se usam uma vez. Com potencial para o deixar chamuscado. Bem chamuscado. A ele e aos fulanos a transbordar de ideias do seu lado da barricada.

Se de um lado é exibida uma incompetência formal ao tornar público (massivamente) um email sem o ter previamente criado ou registado, além de uma ausência de conteúdo cada vez mais incontornável, do outro, jogam-se caoticamente duques à laia de trunfos, mesmo com consequências medidas. Mediante estes indícios é legítimo interpretar pânico, não? Ainda a procissão vai no adro. Entre escrever isto e ser publicado, são expectáveis outros eventos estrondosos e fugas de informação sórdida, capazes de comprometer o anterior descrito, tal é a “vitalidade” da vida politica torrejana. Não sei bem porquê, mas vem-me à mente o Homer Simpson.




09/03/2022

Jornal Torrejano - Nº 1108 - As árvores morrem de qualquer maneira e feitio.

Jornal Torrejano – Nº 1108 - 09/04/2021

As árvores morrem de qualquer maneira e feitio.

Comemorou-se a 21 de Março o dia da floresta. O Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) resolveu assinalar a data disponibilizando 50.000 árvores gratuitamente à população. Quem as quisesse plantar, teria de se identificar, inscrever, levantar a árvore (até um máximo de dez árvores por pessoa) e, num prazo de 48 horas, declarar o local onde plantou documentando com fotos. Excelente. Tudo espécies autóctones e o número de árvores disponibilizadas subiam para 100, caso se destinassem a propriedade rural. Duplo excelente. Além da ação em si ser louvável e, aparentemente bem estruturada, interpreto no subtexto uma preocupação, também ela do lado da solução. A preocupação com a responsabilização e a continuidade. Não foi uma coisa à toa, tipo: “está aí, sirva-se, andor”. Talvez seja indicador de uma consciencialização, a correr atrás do prejuízo diga-se, mas pronúncio de melhores dias. Dias mais eficazes e produtivos que deem a oportunidade à árvore de crescer e se tornar numa… árvore. Em vez dum galho seco, num vaso esquecido em cima do frigorífico.

A Câmara Municipal, por via do programa “Floresta Comum” onde o ICNF é parceiro, recebeu 10.000 árvores destinadas a terrenos públicos. Excelente. O grosso da coluna das candidaturas a este programa destinam-se a rearborização de área classificada e área ardida, apenas 8% são para floresta urbana, o pulmão das cidades. Não excelente. É um número demasiado baixo para ser animador. Conversão para espécies autóctones e recuperação de área ardida destacam-se como uma nódoa. A aparente irrecuperabilidade do pinhal de Leiria e eucalipto até à linha do horizonte, são testemunhas de um sistema avariado, que consome, polui, sufoca o que é de todos, remetendo para o campo cívico a responsabilidade de contrariar o mau funcionamento. Cada vez mais a área urbana é gerida com inclusão de espaços florestais e hortas comunitárias, alternativas mais eficientes aos jardins de flores meramente decorativos, consumidores ávidos de água e cuidados. Visto a Câmara Municipal possuir uma preferência declarada por espaços decorativos e, precedente no desleixo de espaços verdes, deposito a minha esperança nos mecanismos de monitorização do programa “Floresta Comum” para que nada fique esquecido, como ficou ali para os lados da Vila Cardilium. Não se resume a um vaso esquecido em cima do frigorífico. Não se trata do dinheiro deitado à rua. Trata-se de responsabilidade e credibilidade que escasseiam. Ficamos sem saber ao certo o número de plantas, são mais de 10 mil, dizem. Ficamos sem saber quantidades ou percentual entre árvores e arbustos, desde 1 árvore e 9.999 arbustos ao inverso, tudo é possível. Ficamos sem saber a que locais se destinam exatamente, vão ser distribuídos por uma área total de 50km2 e, ficamos assim. Na realidade, a única informação possível de extrair é: Mais de 10 mil plantas vão ser distribuídas por 50km2. É só. O que devia ser transparente, torna-se opaco. Se isto se passasse num jornal, seria mau jornalismo. Sendo num comunicado da Câmara Municipal, é mau quê? Mais árvores só é boa ideia se for para os netos e bisnetos usufruírem da sombra. É estranho ter de ser um gajo sem descendência a recordar isto.




08/03/2022

Jornal Torrejano - Nº 1107 - São rosas, senhor.

Jornal Torrejano – Nº 1107 - 19/03/2021

São rosas, senhor.

No esforço para colonizar Marte, a Nasa fez uma parceria com o município. Marte é assim sem interesse nenhum, desértico, árido, ninguém lá vai ou quer ir. Então a Nasa pensou contrariar esta tendência abrindo lá um tasco. Havendo um tasco, a malta começa a aparecer. O projeto piloto foi posto em prática naquela coisa que ocupa o largo do Rossio, falta pintar o logotipo da Nasa no telhado do caixote branco. As cretinices querem-se juntas, assim só se estraga uma casa. Se não foi a Nasa, duvido que alguém saiba o que foi. Aqui nunca se sabe de nada: “Foi vacinado? Não sabia de nada!”, “Lar ilegal? Não sabia de nada!”, “Cheira mal? Não me cheira a nada!”…

Eu, por exemplo, não sabia que se desenvolvia no concelho a atividade de “Retaliação contra o mal”. Muito menos sabia que era desenvolvida pelo Corpo Nacional De Escuteiros. Percebe-se que a pandemia tenha colocado em perigo a sobrevivência desta atividade e, a Câmara apoie com 3.327,04 euros. É um número bastante conciso. A “Retaliação contra o mal” deve ter os custos exaustiva e detalhadamente quantificados. Tem de ser, o Mal não dá tréguas. A pandemia veio mandar ao charco uma série de instituições e atividades que usufruíam de um estado de saúde perfeito e moral elevada até à data. Depois veio a Covid-19… e foi tudo abaixo. O que até então era são, próspero e autossuficiente, ficou moribundo e dependente de apoio, de um momento para o outro. Dos Escuteiros aos Ranchos e à Columbofilia (no topo da lista com quase 7 mil euros, deve chorar mais dramaticamente que os outros), todos clamam por ajuda. Malvada pandemia. Já a malta que repara sapatos ou vende bifanas depende mais da reação empática, emocional, da sociedade civil e, não tanto no apoio institucional que, oferece uma resposta personalizada, estruturada, planeada, desenhada a régua e esquadro. No total são 130 mil euros de apoio camarário, exclusivos para a cultura e desporto. Ou seja, nada. Não resolve nada, não vai mudar nada. É uma mera desculpa para apostar 130k de fichas na casa do “politicamente correto”, girar a roleta, esperar ficar bem na fotografia e, calar umas quantas vozes no processo. Se por um momento desprezar a questionabilidade das prioridades definidas, na prática: 130k, não resolve nada. E aproveitar este compasso de espera para ser proactivo? Discutir a restruturação de uma série de instituições, com modelos operacionais do século 19, tendo em vista a sua sustentabilidade, através de requalificação da oferta e de gestão orientada a resultados? Fica varrido para debaixo do tapete, por um balão de oxigénio que parece talhado à medida para pagar custos fixos durante algum tempo. Continua-se a assobiar para o lado perante os elefantes que se vão acumulando no meio da sala. Atira-se dinheiro aos problemas para evitar que alguma coisa mude. Não mudando nada, as ideias inovadoras da Nasa salvam sempre tudo. “Great success!”(*).

(*) A ser lido com a pronuncia do Borat.