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20/05/2022

Jornal Torrejano - Nº 1135 - Gólgota

Jornal Torrejano – Nº 1135 - 20/05/2022

Gólgota

O município de Ourém, antecipando a vinda do Papa a Fátima em 2023, está a mexer-se junto do governo central no sentido de pedir apoios para melhoramentos nos acessos tanto rodoviários como pedestres a Fátima. Apontam as vias provenientes de Leiria, Batalha, Minde e Ourém (assim como o nó de acesso da A1) a usufruir de melhoramentos. Aparentemente, via Torres Novas, não consta movimento que justifique ser mencionado. Aproveitam o balanço para meter um novo quartel dos bombeiros em Fátima ao barulho. Sentido de oportunidade aguçado. Pese embora, de todo justificável. A relevância transcende o apoio aos peregrinos, pela proximidade da A1 num dos seus troços mais perigosos e, pelo contexto geográfico de serra e mato, onde os incêndios são frequentes.

Só para que conste, a religião organizada, qualquer que seja, é digna do meu mais profundo desprezo. Dito isto, os seres humanos e o ambiente, não. Condições estruturais que ponham em risco a integridade física, ou potenciem o sofrimento de quem já sofre (ser voluntariamente ou não, está para além do ponto), devem ser objeto da maior atenção por quem governa e decide. Para Torres Novas, considerando o nó A23/A1 e a proximidade geográfica de Fátima, não me parece que um afluxo anormalmente elevado de pessoas e veículos seja desprezável a pontos de não se fazer proactivamente nada. Ponderando a mentalidade autóctone (repararam que eu não escrevi mindset? Esta devia valer uns créditos junto da polícia de preservação cultural), ilustrada pelo conceito de “angariação de fundos” ser invariavelmente sinónimo de “quermesse e venda de rifas”, aparar as ervas nas bermas da estrada, espalhar umas pazadas de asfalto aqui e acolá, deve ser ação preventiva suficiente. Quanto ao sentido de oportunidade, por aqui também aguçado mas refém da tal mentalidade autóctone, crio expectativas de hotéis lotados e restaurantes cheios com apresentadores chunga do entretenimento popular da TV, bailarinas seminuas e cantores pimba, parques de estacionamento repletos com camiões SIC e, porque não TVI, quiçá RTP. Agenda cheia para o executivo dar entrevistas e aparecer em diretos na CMTV, na CNN Portugal. Um milagre circense. Tipo warmup (não resisti) para o evento principal ali ao lado. Se houver um peregrino atropelado por a estrada não ter berma transitável para peões ou, um camião ao passar num buraco lançar um calhau disparado à cabeça de outro, ou colapso por desidratação derivado ao pagador de promessas, desperto para o oportunismo da mentalidade autóctone, se recusar a dinamizar a economia local não pagando 10€ por um copo com água (da Ribeira da Boa Água) ou uma rifa para ajudar os bombeiros, ninguém tem culpa, foi a vontade do Senhor. A sofreguidão imbecil das câmaras de TV registarão todos os detalhes sórdidos em direto, repetidos ad nauseam em diferido, para a populaça agarrada ao smartphone devorar enquanto espera pelo homem de branco. Ei-lo que chega. Oremos irmãos. Ele está no meio de nós. Tudo vai bem quando acaba bem.




06/05/2022

Jornal Torrejano - Nº 1134 - Que dia é hoje?

Jornal Torrejano – Nº 1134 - 06/05/2022

Que dia é hoje?

Uma das novidades que a vida virtual trouxe à minha pobre existência foi o facto de existirem dias comemorativos de tudo e mais alguma coisa. Todos os dias é dia de algo. Desde o dia do abraço, do amigo, da música, do cão, do gato, até aos mais tradicionais digamos, dia da mãe, da criança, da liberdade, do trabalhador. E nós, humanos pejados de deficiências inventadas pela superioridade de uma entidade imaginária, só almejamos alguma hipotética decência se manifestarmos sensibilidade aos temas programados nos dias programados, nesse maravilhoso mundo virtual. Caso contrário, seremos sumariamente julgados pelos nossos pares como umas autênticas bestas insensíveis, egoístas alienados. Nada bate a integração na mediocridade. Um must.

O dia da liberdade, o 25 de Abril, concedeu-nos entre outras coisas, a liberdade de expressão. Passámos a poder verbalizar o que bem nos apetecer, dentro dos limites do bom senso e da educação administrada pelos nossos progenitores. Pai e mãe, ambos devidamente assinalados em dias próprios. Diz-se dos já idos, a saudade, o sacrifício, a gratidão. Raramente a educação, os valores, a cultura, a liberdade de pensamento e expressão do mesmo, o exercício de cidadania. Não se vá roubar prestigio ao outro dia. O trabalho, esse também em dia próprio, tem tendência em enclausurar-se dentro dos limites operários, fazendo cara de pau ao independente, aos recibos verdes, à escravatura assalariada. Simulando uma preocupação genérica atrás da parangona do “trabalho precário” sem nunca meter o dedo na ferida, sem acusar os responsáveis, sem apontar alternativas.

Numa evidente demonstração de falta de bom senso, o espaço virtual da Câmara Municipal não fez referência às comemorações do 25 de Abril. Um lapso. O evento ocorreu de facto, apareceu na comunicação social regional e, a presidência discursou sobre criação de emprego, sem mencionar que o esforço à data se traduz em trabalho precário. Outro lapso. O orgulho na recuperação do centro histórico, anunciado pela mesma presidência em programa televisivo pago com o dinheiro dos contribuintes umas semanas antes, é mencionado agora como aspeto a ser corrigido. Outro lapso. A propaganda difundida ao longo dos últimos dois anos (para ser simpático) acerca das qualidades e virtudes da rede de cuidados de saúde na região, acompanhada de fotografias com presidentes sorridentes, apresenta-se agora como mais um item “a ser melhorado” no discurso presidencial. Outro lapso. A melhoria da rede escolar, até então perfeitamente satisfatória e funcional, é outro item. Outro lapso. Sobre o ambiente, os dez porcento que persistem em falta para encerrar o tema da poluição da ribeira da Boa Água, a apropriação da nascente do Rio Almonda, marcaram presença noutros discursos. Neste não. Outro lapso.

De lapso em lapso, diz-se o que apetece dizer, nas comemorações do dia da liberdade. Ao abrigo da liberdade de expressão obtida nesse mesmo dia. Será seguro concluir que, conforme sublinhado no discurso, “a conquista da autonomia do poder local”, se revelou no dia do lapso. Isto, respeitando o bom senso e sendo simpático.