Jornal Torrejano – Nº 1155 - 17/03/2023
Sigam-me. Eu sei onde está o vinho.
A liderança, por maioria ideológica ou por imposição déspota, tem no vínculo factual uma validação extremamente útil. As religiões exibem relíquias, discutem achados arqueológicos, interpretam à sua maneira registos ancestrais, precisamente com esse propósito. Existindo algo físico que possa ser apresentado como prova inequívoca da estória contada, o dogma torna-se verdadeiro. Não verga esclarecidos mas, ajoelha nações. O regime nazi enviou expedições aos quatro cantos do mundo em busca desse género de provas que, eventualmente validassem a ideologia da raça suprema. Esgravataram do Egipto ao Tibete e, o que acharam, era ambíguo ou cientificamente explicável de outra forma. É seguro presumir que os achados antagónicos ao propósito tenham desaparecido misteriosamente. O contrário, a tentativa de anulação deste vínculo entre o mundo físico e o mundo conjeturado, acontece com mais frequência do que à primeira vista se possa pensar. Seja Buddha demolidos a tiro de canhão, estátuas de líderes derrubadas, adulteração de registos históricos, o objetivo é o mesmo. Engenharia social. O tema foi abordado de forma mais divertida pelo franchise Indiana Jones, escrito de forma mais empolgante pelo Dan Brown e seus clones mas, removendo sexo e violência, o paragrafo acima sintetiza a coisa. É importante para a saúde da liderança apresentar laços científicos históricos coincidentes com a ideologia. Se ambíguos ou cientificamente explicáveis de outra forma, dá-se um jeitinho.
Nós, como somos pequeninos, fomos forçados a reduzir a escala à nossa dimensão. Não há graveto para enviar uma expedição científica ao Egipto ou Tibete, envia-se um fulano do PS a Fungalvaz. Dá-se um jeitinho e, voilá, berço do mutualismo descoberto.
Os ambientalistas em breve revelarão ao mundo a sua busca pelo santo Graal. Andam há dois mil anos à procura de uma taça em barro que confira sanctus bellum ao combate contra os copos de plástico. Vinte séculos à procura de um copo de vinho. Amadores.
El Comandante foi homenageado por um jornal da região como a “Personalidade do Ano Política”. Se tivesse comprado o pacote premium teria sido homenageado como a “Personalidade Política do Ano”. Contenção de despesas, deduzo. Claro que houve discurso. Uma argolada quando em improviso, é perfeitamente desculpável, “é só fazerem as contas”. Neste caso específico, a totalidade dos habitantes do concelho, votou nele. Ipsis verbis: “…são quase 34 mil pessoas que votaram em mim…”. Não as 7 mil e tal que o MAI revela. Uma nota ao lado, dada afirmativamente, não é erro, é interpretação. Uma nota ao lado, dada timidamente, é uma fífia. A interpretação de El Comandante ficou bastante clara. Outra leitura possível é a pavimentação do caminho para deputado. Quem inventa votos, vai para deputado, há precedente. Pondero a possibilidade dos consumidores do “dá-se um jeitinho” terem atingido um grau de tolerância tal que, a dose necessária para produzir efeito seja obscena. Seja como for, digam aos ambientalistas para parar de procurar, há indícios muito fortes acerca da localização do copo de vinho. Aparentemente é maior que o previsto.
Não vou elaborar mais acerca do que fica escrito para a posteridade e das maquinações que a posteridade irá fazer sobre o que ficou escrito para ela. Por esta altura percebo perfeitamente os predicados inerentes à atividade de verificação de factos, presente e futuro.
Quem optar pelo absoluto e julgar irrelevante o ajuste de escala à nossa dimensão, apenas desmonta a piada. A pertinência da escala mantém-se. Imaginem que, em Fátima, tinham sido 12 pastorinhos em vez de 3. Imaginem que, tinham sido 10 segredos em vez de 3. Imaginem o impacto que esta pequena mudança, restrita a números mantendo contexto, iria ter no mundo. A governação autárquica que temos hoje é o resultado de menos de 8 mil votos. Sem mudar mais nenhuma variável, imaginem que tinham sido 34 mil.

