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18/02/2023

Jornal Torrejano - Nº 1153 - Bolo de chocolate

Jornal Torrejano – Nº 1153 - 17/02/2023

Bolo de chocolate

A mãe entra na cozinha e nota imediatamente o assalto perpetrado ao bolo de chocolate saído do forno uns minutos antes, do qual resta apenas metade. Procura a única outra pessoa presente em casa nessa altura, o filhote de 5 anos, encontra-o no seu quarto a brincar e, com ar severo, pergunta-lhe quem comeu a metade que falta no bolo. A criança, com a cara e roupa esborratadas de castanho e mãos a pingar chocolate, afivela a melhor expressão de inocência que consegue e responde: Não fui eu!!

Assim se vai governando na autarquia torrejana.

Afinal o edifício da CGD destina-se à Startup, como sempre se destinou. A oferta do mesmo à MKA, é apenas um plano de contingência. O Plano B. Na eventualidade da Startup entretanto atingir massa critica, seja cotada em bolsa e, adquira com capital próprio um edifício na Avenida da Liberdade em Lisboa, virando costas a Torres Novas, convém ter uma alternativa em carteira. Embora seja absurdo empresas promissoras darem preferência a um lugarejo como Lisboa em detrimento de uma urbe efervescente como Torres Novas, nunca se sabe, é melhor prevenir. Ninguém vai notar o chocolate nos cantos da boca.

A autarquia vai gastar 800k a melhorar os acessos à Nersant e Escola Profissional. Melhorar os acessos, exatamente à Nersant e Escola Profissional, não a outra coisa qualquer, entendido? Verifica-se uma coexistência pacífica entre a execução desta obra e o asfixiar do Mercado Municipal. Equipamentos avariados, degradação generalizada, falta de manutenção na infraestrutura. Chove lá dentro. Como a chuva é uma dádiva de deus, o melhor é não isentar taxas por ali. Não vá alguém interpretar como favorecimento eclesial. É o preço que os utilizadores têm a pagar por não terem mandado nenhuma chaminé abaixo, falha imperdoável. Ninguém vai notar as bochechas esborratadas de chocolate.

O aterro ou lixeira, ninguém sabe ao certo, ali na estrada entre Lapas e Pedrógão voltou à atividade com reforço redobrado do despejo de matéria-prima. Como o El Comandante, da primeira vez que se registou a ocorrência, garantiu apuramento de responsabilidades, até às últimas consequências, aplicação de sanções, reposição das condições anteriores (definidas no PDM como área agrícola) mas, à semelhança do episódio das chaminés e tantos outros, não aconteceu rigorosamente nada, desta vez, um vereador atento e preocupado, mal soube do caso, nem dormiu e, foi lá direito, prego a fundo na viatura de serviço da Câmara. Na madrugada de um dia feriado, pneus a chiar quatro piscas ligados, inebriado de zelo na urgência de se inteirar da situação e reportar a El Comandante o mais breve possível. É um vereador, não é um piloto de automóveis, o carro de serviço não é propriamente um McLaren, a coisa não correu como previsto. Despistou-se e mandou o carro para a sucata. Na boa tradição autárquica torrejana, o que acontece na madrugada de dia de descanso, fica na madrugada de dia de descanso. E, exceto El Comandante, ninguém ficou a saber de nada. Com todas estas peripécias, o aterro ilegal passou de ideia. Ficou apenas uma dor de cabeça forte e má disposição geral. Cura-se com umas horas bem dormidas e hidratação generosa. Ninguém vai notar os dedos besuntados de chocolate.

O raspanete em tom severo é obrigatório. E pedagógico. Embora não evite as consequências biológicas de comer meio bolo de chocolate acabado de sair do forno. É embaraçoso quando detalhes escatológicos retratam fielmente a maquinação governativa.





03/02/2023

Jornal Torrejano - Nº 1152 - 49 anos

Jornal Torrejano – Nº 1152 - 03/02/2023

49 anos

Em 1960 a taxa de analfabetismo em Portugal era superior a 30%. Quase um terço da população não sabia ler nem escrever. Dez anos depois, mantinha-se acima dos 25%. Num país com um quarto da população analfabeta, o significado da revolução de Abril de 1974, para eles, resumiu-se a duas coisas: O fim da guerra colonial e, o fim da censura. Já ninguém era obrigado a ir morrer no país dos outros e, já ninguém ia preso por expressar ideias diferentes das do governo. Os conceitos de cidadania, direitos e deveres do cidadão, democracia e democracia representativa, ficaram muito para além da compreensão da esmagadora maioria da população. Passados 49 anos, quase meio século, o analfabetismo em Portugal situa-se nos 3,1%. Ao contrário do que se possa pensar, não foi banido, ainda existe. Um dos piores números da Europa.

Não seria expectável que, em 50 anos, um estalar de dedos em termos cronológicos para um país com quase 900 anos de existência e, ainda com analfabetos (3,1% da população é muita gente), todos os cidadãos tivessem interiorizado na sua plenitude os conceitos abstratos de cidadania. Deu-se um salto significativo desde o “quem sabe ler e escrever, é doutor” para o “quem é licenciado, é desempregado”. No entanto, manteve-se a mecânica do “oferecer um porco para livrar o filho da tropa”. Traduzido na atualidade pelo “oferecer um edifício público a uma empresa privada, porque sim”. Vai demorar tempo, gerações, até atingirmos o ponto de assumir a responsabilidade individual e coletiva inerente a um estado democrático. Urge extinguir a esperteza e dar oportunidade à inteligência. O caminho faz-se caminhando.

Desmistificando alguns dos direitos e deveres da cidadania, e falando por quem não o pode fazer, as árvores, chamo a atenção tanto dos indignados de sofá como dos decisores irresponsáveis que regurgitam demagogia e retórica mediante conveniência, para a Lei n.º 53/2012 que, aprova o regime jurídico da classificação de arvoredo de interesse público. Consta nessa lei o seguinte:

Artigo 3.º (regime de inventário e classificação), ponto 2 (a classificação do arvoredo de interesse público pode ser proposta por), alínea b) Pelas autarquias locais; alínea d) Por organizações não-governamentais de ambiente; alínea e) Por cidadãos ou movimentos de cidadãos.

Artigo 4.º (intervenções em arvoredo de interesse público), ponto 2 (…são proibidas quaisquer intervenções que possam destruir ou danificar o arvoredo de interesse público…), alínea a) O corte do tronco, ramos ou raízes.

Estando classificado como arvoredo de interesse público, já não se pode cortar por dá cá aquela palha. A última palavra é sempre do Instituto de Conservação da Natureza e Floresta. O cidadão, pelos direitos que a cidadania lhe confere, pode propor que determinado arvoredo seja classificado como interesse público. Uma vez que os interesses e conveniências da autarquia são contrários, o cidadão consciente responsável e preocupado, tem o direito de o fazer. Mesmo que o ICNF decida indeferir o pedido, vergar, seja pela força da razão ou pela razão da força, será sempre mais digno que não fazer nada. Lamento que os agentes políticos de Torres Novas optem pela desculpa da impotência, embrulhada em inevitabilidade demagógica com um lacinho cor-de-rosa, no fim da asneira feita. Assim se perde património histórico e património natural. Acima de tudo, assim se condiciona e formata a virilidade da cidadania nas gerações jovens. Não pode ser essa a forma de fazer as coisas. Ao derrubar a chaminé do analfabeto oferecendo um edifício ao doutor, dá a impressão que 49 anos em 876, foram apagados do currículo. O potencial empregador desconfia.