Jornal Torrejano – Nº 1141 - 26/08/2022
Salgalhada com toalhões turcos
Mais ridículo que a moda masculina de praia deste ano é comprar um imóvel por 700k e não saber o que fazer com ele. Na falta de ideias, planeamento e orientação, mete-se ao barulho tudo e mais um par de botas que, assim, já dá um comunicado de imprensa decente em termos de volume de texto, de modo a passar a imagem de muito trabalho feito. Simultaneamente solicita-se isso mesmo: ideias: O que fazer com aquilo? Alguém falhou um bocadinho a interpretação do dito comunicado e, a área total oscila 2km quadrados consoante o meio de comunicação consultado. Pormenor insignificante. Mal dá para uma vivenda com piscina e um balouço para os miúdos. A proposta no imediato contempla 17(!) instituições de índoles tão díspares que vão de museus a restaurantes passando por desporto e saúde. E 53 lugares de estacionamento. Só para os empregados, já é curto. Se aparecer malta a contribuir com (mais) ideias, calha uma salinha de 9m quadrados a cada um, com sorte. Para perceberem a minha retórica com a gestão do espaço, esta proposta inicial da câmara inclui um espaço multiuso coberto. É o que a cidade está a precisar.
Mas nem tudo é mau. Esta salgalhada poderá ter o seu efeito positivo, ainda que em segundo plano. Na realidade, a câmara está a pegar numa unidade industrial inativa, construída em cima de um rio e, propõe-se requalificá-la (de forma caótica, infelizmente) para uso comercial e público. É impossível não ler nas entrelinhas uma chapada de luva branca à Renova.
Por outro lado, se o Costa sabe disto, vai ficar furioso. Se há lição cara, é nunca suplantar o chefe em competências. 17 Instituições (pelo menos) encaixadinhas dentro de um ex-espaço fabril, vai fazer sombra a um punhado de ministérios (à larga) no edifício da sede da CGD. Onde trabalham atualmente 3200 funcionários em salinhas com área ligeiramente superior a 9m quadrados cada. O fulano vai bufar. Passar a perna ao chefe, não é bom. Daí, provavelmente, esta coisa de solicitar ideias à população seja uma forma de disfarçar responsabilidades e evitar um puxãozito de orelhas. “Não fui eu, foram os populares. Essa corja, cheia de ideias.”
De notar que esta aquisição é objeto de negociação há anos. Não foi propriamente uma compra de impulso. Pelo tempo passado, fico algo surpreendido por chegarmos a este ponto, na base do improviso. O urbanismo da área circundante e acessos, são outros quinhentos. Fica para outra altura, ou para outrem explorar.
Agora que já abri a válvula da sátira que chegue, porque não me deixam ocupar o jornal todo com a minha mordacidade, resta-me concluir num tom mais sério: As empresas de mediação imobiliária brotam que nem cogumelos. Estão na moda. Tal como a moda masculina de praia deste ano, arriscam-se a cair no ridículo, pela saturação de mercado. Votos de boas comissões, rapaziada. Vai dar para a piscina e o balouço para os miúdos, de certeza.

