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20/01/2023

Jornal Torrejano - Nº 1151 - As árvores. Outra vez

Jornal Torrejano – Nº 1151 - 20/01/2023

As árvores. Outra vez.

A continuidade da aplicação da fórmula idiótica é confirmada por mais um abate de árvores em espaço público. Não existe uma única intervenção da CMTN, seja para o que for, que, não implique o abate de árvores. Um cidadão chama a Câmara para reparar uma tampa de esgoto partida no pavimento e o resultado imediato é o abate de todas as árvores dessa rua. O zelo é absoluto, os arbustos são aparadinhos, as ervas daninhas desaparecem como por magia e, quem já tenha passado pela experiência, recolhe os vasos das janelas e varandas para dentro de casa. E tranca as portas. Depois de eliminada a ameaça mortal da clorofila e cancelado o processo de regeneração do ar, a tampa de esgoto tem direito a uma gravata em cimento. A reparação é efetiva durante três dias, com pouco trânsito. Haverá necessidade de nova intervenção em breve, mas como já não há árvores para cortar, a Ordem de Serviço é repetidamente recolocada no fundo da pilha, por ter perdido a prioridade. O ambiente é a prioridade.

Um dos emblemas do empenho português para a diminuição da libertação de dióxido de carbono e diminuição da pegada ecológica foi a adoção de centrais de compostagem. As centrais de compostagem consomem matéria orgânica (vegetal) num processo de decomposição natural da biomassa. As centrais de compostagem, precisam de combustível. Daí, as câmaras municipais, especialmente as câmaras municipais PS, alimentarem zelosamente com biomassa as centrais de compostagem. Custe o que custar. Noutro contexto chamam-lhe o dizimo. Neste, “restruturação urbanística” e “mobilidade urbana sustentável”, servem perfeitamente como justificação para produzir biomassa. Mesmo que contradiga o conceito, a malta faz de conta. Interessa é o partido fazer boa figura. No mínimo, bom cachorrinho. Foi esta atitude de bom cachorrinho que levou a arrancar olivais inteiros com oliveiras centenárias, para depois construir fábricas de azeitonas com oliveiras da Monsanto. A submissão cega ao grande plano mestre, dá nisto. Abatem-se árvores pela sustentabilidade, fazem-se guerras pela paz, faz-se amor pela abstinência. Ninguém repara no paradoxo.

Já a palavra “urbana”, deixa-me apreensivo. Urbanismo e Torres Novas na mesma frase, cria imediatamente uma sensação de desastre para acontecer. Por coincidência, os plátanos abatidos, estavam mesmo em frente aos pavilhões desportivos da câmara municipal. Sim são dois, localizados no espaço envolvente ao estádio. Assim foi até o urbanismo decidir que um palácio de desportos localizado entre supermercados e lojas de fast food fazia muito mais sentido. E lá os dois, sim os dois pavilhões desportivos, ficaram a servir de área de arrumos para a Câmara. Duas dispensas, grandes. Com piso de tacos de pinho. Ótimos para a lareira, segundo dizem. O desleixo foi tal que, choveu lá dentro durante anos, para ruína da infraestrutura e dos equipamentos armazenados. Se é lixo, vai para o lixo. Se é para guardar, é para ser mantido. Assim, não é nada. Bem, também chove dentro do novo (indispensável) palácio dos desportos. Urbanismo de coerência.

Quando se abate uma árvore, outra(s) da mesma espécie já deve(m) ter sido plantada(s) anos antes, para que na altura do abate haja uma garantia de sobrevivência do exemplar de reposição. Os maiores produtores de madeira do mundo são nórdicos, é assim que eles funcionam. Abatem-se árvores adultas ao ritmo que os exemplares jovens medram. Quando se pretende um incremento na produção, não se abrevia o processo, aumenta-se a área de floresta. Há espécies que só são abatidas com mais de 50 anos de idade, outras 80. Percebe-se que, sustentabilidade seja isto. E não “mobilidade urbana sustentável, zás trás, menos 8 plátanos”.

Não se pode reduzir os plátanos (ou qualquer outra espécie) á produção de oxigénio e acumulação de carbono. Baixam a temperatura do ar, retêm a humidade, excelentes obstáculos para vento, folha caduca gera biomassa. Mais a bicharada toda que lhe chama casa. Existem espécies de árvores que são verdadeiros aspiradores de metais pesados, usadas para limpar terrenos outrora poluídos pela indústria (o Choupo é um exemplo. Cerca dos 40 anos de idade é abatido e, não vai para centrais de compostagem, vai para central de tratamento de resíduos tóxicos). Sim, o Choupo fazia todo o sentido numa beira-rio pós industrial, por exemplo. Lá está… Sem um plano de reposição credível conhecido, o abate de plátanos numa terra onde o calor abrasador do verão é o normal, num contexto global onde é acordo uma resposta de preservação e estímulo ambiental, vital para desacelerar as alterações climáticas, é impossível não existir uma reação veemente da sociedade civil. É impossível o exercício de cidadania deixar-se ficar expectador, em coma. Neste mesmo tema, outros cidadãos noutras autarquias deste país, foram inclementes com decisões deste género. Nem sequer ambiciono que uma autarquia no desterro do sul da europa tenha a visão e capacidade para lidar com as árvores idêntica à dos nórdicos. Só que não as cortassem por dá cá aquela palha, já era bom.





09/01/2023

Jornal Torrejano - Nº 1150 - Ano novo, tudo na mesma

Jornal Torrejano – Nº 1150 - 06/01/2023

Ano novo, tudo na mesma

Esta minha crónica de hoje no jornal Torrejano é a quinquagésima quinta. Atinjo com ela o mesmo número de anos da minha existência. Nasci na segunda metade da década de 60 do século 20, sete anos antes de 1974, mais coisa menos coisa. Lembro-me do dia 25 de Abril desse ano. Lembro-me de existirem lá por casa imensos folhetos e livros de índole politica/ideológica que, para grande desilusão minha, não tinham bonecos. E, o que lá estava escrito, ultrapassava a minha compreensão. Desinteressantes para o meu eu com 7 anos, portanto. Trazido pelo meu pai, o popular poster com a criança de cabelo encaracolado a enfiar um cravo no cano de uma espingarda, ficou colado na parede do meu quarto durante muitos anos, décadas. Nasci num tempo em que, pensar, era muito mal visto. Pensar diferente do estado, dava prisão. Estava em prática a adaptação de uma engenharia social da época do império romano: Panem et Circenses, o “pão e circo”. A versão do Estado Novo português era: Futebol Fado e Fátima, os três efes.

Talvez por ter passado já há algum tempo o meio século de existência, sinto legitimidade em escrever coisas como: “na minha altura, isto não era nada assim”. E de facto, não era. Não se podia pensar, muito menos revelar publicamente o pensamento. Hoje, teoricamente, nada nos impede de o fazer. Seria de esperar que a liberdade de pensamento e expressão conquistadas na revolução fossem exercidas continuamente dali em diante. Mas não. Ficou tudo na mesma. A mentalidade do português médio, procura desesperadamente por heróis salvadores. Quando os julgam encontrar, não admiram o seu carácter, os seus valores, o seu talento. Em vez, admiram e aplaudem o muito dinheiro que ganham. Primeiro efe verificado, Futebol. O efeito catalisador da engenharia social aplicada naqueles anos de ditadura, incutiu no cidadão uma postura de impotência perante o poder governante que, prevalece até hoje. Traduzido num fatalista: “eles são todos iguais” ou ainda pior: “eles é que estão lá, eles é que sabem”. Segundo efe verificado, o Fado. O estado laico, este estado, relativiza a pedofilia na igreja católica. Desvaloriza-a e, a reação exemplar que deveria ocorrer no imediato, parece atolada numa inércia paralisante, endémica de todos os aparelhos estatais. Terceiro efe verificado, Fátima.

Aparentemente nem o artigo 21 consegue despertar o português médio deste entorpecimento. Recentemente ficou bem ilustrado que, uma maioria absoluta, ferramenta ideal para concretizar projetos e operar mudanças fundamentais, serviu e serve, apenas para favorecer os amigos do partido. Apenas potenciou a corrupção e, confirmou que, apenas e só o vassalismo é o caminho para uma carreira de sucesso. As penalizações subsequentes são mero folclore. Confirmadas por um Sócrates estrela de debates televisivos, ou, um Relvas como consultor de ética, também em debate televisivo.

Assim na terra como no céu. Numa autarquia do mesmo país, o mesmo partido, a mesma maioria absoluta, os mesmos resultados. Igreja imiscuída na governação, apoio direto ou indireto aos amigos do partido, vassalismo recompensado. Confirmando o tal resultado da engenharia social anterior a 74, é que estes, a malta conhece. Os outros, que estão lá para Lisboa na Assembleia da Republica, estão longe, são anónimos, desconhecidos. Mas estes, estão aqui, sabemos quem são. Sabemos quem é a família, onde moram, que cafés e restaurantes frequentam. Andámos com eles na escola, cruzámo-nos com eles em contexto profissional, temos filhos que frequentaram o mesmo estabelecimento de ensino que os filhos deles, aconteceram contatos socias, mesmo que breves e pontuais. Mas no entanto, descaímos os ombros, colocamos os olhos no chão e, deixamos passar tudo em branco. Porque “eles é que sabem” e nós somos nada. Nenhum cidadão aparece nas sessões públicas da Câmara a colocar em causa (más) decisões unilaterais questionáveis ou a manifestar discordância para referência futura. Nenhum cidadão passa cartão a essas mesmas sessões filmadas e disponíveis na Internet. Derrotados e conformados prescindimos voluntariamente do exercício de cidadania. Ano novo, tudo na mesma.