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17/10/2025

Jornal Torrejano - Nº 1217 - O universo num grão de areia

Jornal Torrejano – Nº 1217 – 17/10/2025

O universo num grão de areia

Somos um povo granular. Se há algum denominador comum no nosso comportamento, é esse o mais evidente. Por defeito, permanecemos divididos em pequenos domínios e, apenas pontualmente, mediante grande pressão, somos capazes de união num bloco sólido.

Nos grandes agentes aglutinadores da sociedade, instituições públicas de grande dimensão e mundo corporativo, são visíveis as quintas e quintinhas. Pequenos reinos, pequenas áreas que, embora inseridos numa máquina maior com a qual obrigatoriamente interagem, cultivam uma atitude que entendem exclusiva de si próprios.

Na composição geográfica do território, pode ser interpretado comportamento idêntico. Cidades inteiras manifestam uma atitude celular perante a distribuição territorial. Coimbra vai à Figueira da Foz exclusivamente uma vez por ano, por motivos de uma tradição estudantil. De resto, não passaria pela cabeça de ninguém em Coimbra proferir frases como: E se fôssemos almoçar à Figueira? Eu e a minha família passamos as férias de verão na praia da Figueira. Vamos beber um copo à Figueira? A Figueira da Foz é destino para tudo isso, e mais, para o resto do mundo, excepto Coimbra.

Diversas cidades de dimensão significativa, próximas da costa, apontam os seus destinos de lazer habituais, para longe. Em casos extremos, quando visitamos essas cidades, não tropeçamos num único indício revelador da proximidade dos paraísos que a rodeiam. Alguns ao alcance de uma saudável caminhada. Perguntando aos locais onde gozam as suas férias, respondem centenas milhares de quilómetros de distância. Então e a praia aqui ao lado? Ficam com um ar de incompreensão como se tivéssemos passado a falar em sânscrito.

Os complexos de inferioridade resultantes de uma população rústica, estigmatizada pela ignorância e pobreza, impostos pela ditadura fascista, desabrocha numa necessidade urgente de vivência cosmopolita, associada com frequência á ostentação de poder económico, nem que seja apenas aparente. São rituais vinculativos a ideais de modernidade sucesso superioridade. Construídos com presunções e pressupostos é certo, mas perfeitamente capazes de proporcionar o reconforto psicológico em falta. Dado o tempo suficiente, há de passar. Penso.

Talvez a tendência granular esteja inscrita no nosso DNA. A repressão secular da igreja a monarquia a ditadura, não tenham tido o protagonismo que lhes atribuo na formatação comportamental lusitana. Mas a questão mantém-se independentemente da origem, prejudica o presente, transitório ou não. Desdenhar as mais valias em carteira é má gestão. Delapidar essas mais valias é suicídio. Como as boas práticas de gestão e o bom senso alertam, a descapitalização é uma ladeira íngreme e escorregadia. Caminho ilógico, compromete a sobrevivência. A não ser que seja intencional e sirva outros propósitos.

Na realidade actual, um mundo pós política, as ideologias agonizam no seu último reduto, o espaço académico. Meras abstracções em exercícios intelectuais. Extintas as ideologias na prática política, por efeito de cascata desaparecem igualmente da orientação governativa. O conceito de organizações sociais opostas (direita / esquerda) tornou-se obsoleto. Na nova realidade não existe duelo entre governo e oposição, apenas problemas para resolver, acordos para negociar. A adaptação da governação ao paradigma corporativo dispensa qualquer mecanismo de transição. Sem sobressaltos, sem ninguém dar por nada, já está feito. E é aqui que a postura granular se pode revelar fatal para o bom funcionamento da máquina maior.

A actualidade autárquica enfrenta um problema impossível. Nunca haverá condições financeiras suficientes, para repor, inverter, recuperar, compensar, as asneiras irresponsáveis de trinta anos de desdém. Mesmo com financiamentos externos e endividamento gigantesco à banca. Nunca. Foram muitas asneiras e muito caras. Daí, ser péssima ideia alguém prometer que esse é o caminho a seguir. O que está feito, está feito. O melhor que podemos esperar será, travar a espiral descendente caótica de más decisões e, remendar o que for possível remendar. Emendar, embora seja uma ideia agradável, é irreal. Esperançosamente, que apareça, finalmente, liderança.

A postura granular colocou-nos onde estamos hoje. Urge mudar a postura. Ora aí está um desafio político de valor. Uma promessa que faz sentido.




02/10/2025

Jornal Torrejano - Nº 1216 - Mitos e lendas de Kaispergama

Jornal Torrejano – Nº 1216 – 03/10/2025

Mitos e lendas de Kaispergama

Diz o ditado popular: mãos ociosas são a oficina do diabo. Sendo o cérebro o principal órgão do ser humano, cuja capacidade superior o distingue dos outros seres vivos, é órgão feito para pensar. Existindo matéria prima disponível para tal, problemas para resolver, obstáculos para ultrapassar, desafios para vencer, o cérebro, irá desempenhar a sua função, pensar. Não existindo matéria prima disponível, o cérebro não sabe fazer outra coisa e, pensa à mesma. Vagueia, deambula, remói, inventa. O tédio torna-se  uma ameaça ao seu bom funcionamento e, consequentemente, à sanidade do indivíduo.

Por vezes, o tédio atinge uma massa crítica de tal ordem que, engendra coisas verdadeiramente prodigiosas. Em tempos idos, rezam as lendas torrejanas, o tédio era tão absurdamente gigantesco que, conseguiu colocar um comboio no castelo. Uma lenda, é certo, mas ainda assim, confere um poder mítico ao tédio.

Com o aproximar das eleições autárquicas seria de esperar que ocorresse tudo menos tédio. Que brotassem discussões e debates animados, que se arremessassem ideias, que se propusessem caminhos a seguir, direcções a explorar. Ângulos de abordagem e interpretações diferentes da realidade do concelho.

Não.

Numa articulação perfeita entre as facções, há um consenso estranhamente alheio ao natural  confronto entre candidatos/partidos, tipico do contexto eleitoral: Todos concordam que o concelho está estagnado, em especial a cidade sede. A desertificação. O subdesenvolvimento económico. O rio Almonda. Todos evocam o compromisso de combater a estagnação, todos prometem converter o pântano de águas paradas em rio agitado, vivo, com águas cristalinas. Todos referem os mesmos temas. Todos dizem as mesmas generalidades. Um tédio.

Com o tédio a prometer esta dimensão de inércia, arrisco prever nova lenda: Um tubarão branco a nadar no rio Almonda. Eu sei que o tubarão branco (carcharodon carcharias) é bicho de água salgada e não de água doce. Mas a água do rio Almonda deixou de ser doce há muitos anos, daí tudo ser plausível. A lenda a ser: Haverá quem jure ter visto uma barbatana dorsal triangular a cortar as águas. Visão acompanhada por um misterioso apito de comboio vindo da bruma a pairar em redor das ameias do castelo. A experiência é de tal forma assustadora e arrepiante que, a testemunha entra em pânico, tropeça, cai desamparada de cara no chão, fracturando o nariz. O relato pormenorizado da experiência traumática, registado nas urgências do hospital de Abrantes, pois no de Torres Novas não existiam competências para endireitar o septo nasal ao paciente, eleva o tubarão rapidamente à categoria de celebridade. Mais de trinta mil curiosos deslocam-se a Torres Novas na expectativa de ver o tubarão do rio Almonda. O parque de estacionamento nas antigas oficinas da rodoviária fica a abarrotar. O presidente da Câmara retira dividendos deste sucesso sem hesitar, publicando no jornal O Mirante quatro páginas de texto enaltecendo as suas qualidades de líder, sublinhando repetidamente a sua mundialmente reconhecida modéstia. O rancho dos Riachos, vem a pé dos Riachos, em procissão atrás de um autocarro da Câmara Municipal completamente vazio, para actuar no jardim das rosas e entreter os fãs do tubarão. Alguém, totalmente por coincidência, cria uma página de Facebook para vender merchandise do tubarão, mas só por acaso. Calhou. Os bonés são um sucesso de vendas singular. Aparentemente toda a gente quis apanhar um. Fim de lenda.

O facto de todas as facções políticas identificarem exactamente os mesmos problemas, evidencia o resultado nefasto das maiorias absolutas, tanto quanto evidencia um péssimo desempenho da oposição. Se não adianta nada confrontar em assembleia, leve-se o confronto para a rua. Informe-se e sensibilize-se a população. Combata-se a indiferença e a apatia. Angariar recursos subtraindo-os à abstenção, porque, foi a abstenção que permitiu a maioria absoluta em primeiro lugar. A arrogância dos intocáveis que, ao longo de trinta anos, interpretaram os trunfos de Torres Novas como incómodos, chatices e empecilhos, pode ter agora um fim. Desperdiçar a oportunidade é leviano.

Meus caros, levem a responsabilidade um bocadinho mais a sério. Alinhados numa quase perfeição, a prometer impossibilidades agradáveis, juntamente com desculpas esfarrapadas mascaradas de direitos constitucionais, disponibilizam terreno fértil para que nasçam lendas e mitos. Tudo se perfila para que os problemas reais sejam condenados à perpetuação.

A cada quatro anos foi prometido como prioridade endereçar o rio Almonda. Em mais de vinte anos, foi tarefa impossível, nunca passou de promessa eleitoral. Foste intrujado com o tubarão do Almonda? #metoo. Depois, resta o efectivamente exequível: vender bonés.