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19/03/2026

Jornal Torrejano – Nº 1227 - Zôon politikon

Jornal Torrejano – Nº 1227 – 20/03/2026

Zôon politikon

Não posso, nem quero, precisar um ponto no tempo para quando se iniciou o processo mas, decorreu algum, desde que existe investimento significativo numa engenharia social destinada a politizar o maior número possível de aspectos da vida do cidadão. A sexualidade, a alimentação, o vestuário, utilitários domésticos, meios de transporte, foram politizados.

Comportamentos sociais, preferências pessoais, hábitos de consumo, foram politizados. Não estamos longe do pináculo do processo, onde, rigorosamente tudo, estará politizado. Partidarizado. Polarizado. Até uma escova de dentes pode vir a denunciar preferências ideológicas. A cultura de cancelamento compete taco a taco com a santa inquisição.

Existe uma pressão inequívoca aplicada ao cidadão para que ele tome uma posição. Para que ele assine por um clube. Já que o interesse do cidadão pela política está reduzido a mínimos desprezíveis, como demonstrado pelos números elevados de abstenção nos actos eleitorais, leva-se a política ao cidadão de outras formas. A parábola da montanha e Maomé.

Além do óbvio, dividir para reinar, reiterado por tantos impérios na miserável cronologia humana, há uma lógica inegável de causa efeito. Se se estão a formar equipas, inevitavelmente, irá acontecer um jogo.

A engenharia social opera em múltiplos parâmetros simultaneamente, afinados para produzirem resultados que oscilam entre o muito provável e o garantidamente certo. Dividir para reinar, aglomerar pessoas por denominador comum arbitrário, são degraus num percurso com destino previsível. Depois de fabricado o inimigo, entra a dessensibilização do cidadão para a guerra e implícitos horrores, oferecendo miséria e violência em formato de entretenimento para as massas. Normalizar divergência de interesses resolvidos á bofetada, envenenando a via do diálogo e diplomacia, manchando-a com fake news, incumprimento de compromissos e outros insucessos, reais ou inventados. Subvertendo o significado das palavras, digno de pesadelo orweliano, instrumentalizando a falta de ética mediante circunstância conveniência ou argumentação, os canalhas são sempre "os outros".

A desumanização e demonização dos alvos, inibe a empatia, o remorso, a culpa e por último, a responsabilidade, nos actos hediondos cometidos sobre eles. Ninguém hesita em esmagar uma viúva negra com a bota, sem remorsos. Lá ia ela descansada da sua vida, a pensar caçar um mosquito para a janta, não se meteu com ninguém, não provocou ninguém, ingénua vítima de péssima imagem pública, pimba, já foste. Apenas culpada de ser demasiado pequena para possuir tanto poder.

A ciência diz-nos que um ser humano mentalmente são, sozinho, isolado, não tem propensão para a violência. Em grupo, o caso muda radicalmente de figura. A ciência diz-nos também que, o distanciamento do indivíduo ao acto violento, tem um papel fundamental. Matar com as próprias mãos, pela proximidade física, contacto directo com a pele da vítima, é raro. Matar com uma espada, cria distanciamento, já se torna mais fácil, o peso moral diminui. Com uma arma de fogo, o distanciamento é ainda maior, torna-se ainda mais fácil, foi a bala não fui eu. As tripulações dos bombardeiros olham para si próprios como aviadores, e não soldados. Os controladores remotos de drones, são classificados como especialistas em alta tecnologia, e não soldados. Seguindo a lógica desta escala até uma sala climatizada, luxuosamente decorada, cadeiras ergonómicas em pele de búfalo, mesa de mogno com motivos embutidos em madeiras exóticas, esticar um dedo, carregar num botão e, matar milhares de seres humanos no outro lado do planeta, chama-se... pequeno almoço.

O que descrevo atrás, explica com mais ou menos detalhe porque, tomar conhecimento pela televisão de crianças decapitadas e com as tripas de fora é menos chocante e preocupante que a eventual subida da prestação da casa. Explica. Mas não justifica.

A fase final desta culinária altamente elaborada, transferir a responsabilidade dos actos horrendos perpetrados pelos governantes para os cidadãos, porque, afinal, foram os cidadãos que os elegeram em acto democrático perfeitamente legal, fechará o círculo. E então, só então, serão exigidas justificações.

Assegurar a sobrevivência e bem estar à custa da vida de outrem, encaixa na definição de parasita. Preferem ver lobos e tubarões quando se olham ao espelho, mas a realidade devolvida pelo reflexo é de carraças e pulgas.

Segundo Aristóteles, o homem é um animal social. Á organização social, chamamos política. Logo, o homem é um animal político. Por a existência humana ser indissociável da tecnologia, a mais recente proposta para a designação que nos identifica é, homo techno-sapiens, substituindo o anterior homo sapiens sapiens. Sociais, políticos e tecnológicos, vazios de humanidade, pode-se remover o homo com elevado grau de segurança.


Para o leigo, a tecnologia é indistinguível da magia.

Terceira lei de Clarke.

(Arthur C. Clarke, 1917/2008).




05/03/2026

Jornal Torrejano – Nº 1226 - Gestão de expectativa

Jornal Torrejano – Nº 1226 – 06/03/2026

Gestão de expectativa

Durante o meu percurso profissional tive a oportunidade de frequentar diversos workshops e formações externas proporcionados pelas empresas onde trabalhei. Num desses momentos formativos abordou-se um tema que me interessou bastante, não só pela pertinência para as minhas funções, mas também pela aplicabilidade na vida pessoal: a Gestão de Expectativa. Posteriormente indaguei mais sobre o assunto e fiquei surpreendido pela sistematização e transversalidade do tema.

Área comercial, recursos humanos, implementação de projectos, psicologia, relações humanas, relações públicas, investigação e desenvolvimento, tudo o que envolva pessoas, produtos, serviços e desempenho funcional, a gestão de expectativa tem um papel crucial. Não se resume a encaixar a oferta com a procura numa união sem costuras. Essencialmente trata-se de tornar a comunicação transparente, isenta de ambiguidades, de modo a que todas as partes envolvidas possam tomar decisões perfeitamente alinhadas com os seus objectivos, de forma consciente e esclarecida. Obter exactamente aquilo se estava à espera. Eliminar a frustração, o engano, a insatisfação.

Ajuda à concretização de negócios, sem atritos e desilusões. Ajuda a que as pessoas se entendam, evitando discussões de malas à porta, incompatibilizações irreversíveis, mau estar, ambientes e relações tóxicas, infrutíferas. No limite, evita despesas supérfluas com advogados.

Olhando em retrospectiva, assisti a uma formação patrocinada pelo mundo corporativo, a dizer-me que a honestidade compensa. A mesma coisa que quarenta anos antes a minha mãe me tinha ensinado. Redundante, portanto.

Aplicando as linhas orientadoras da gestão de expectativa à política, saltam imediatamente à vista algumas incompatibilidades. Não prometer o que não se consegue entregar, será talvez a mais evidente. Fornecer exactamente o que se prometeu é fundamental para uma relação saudável, de confiança. Comunicar de forma clara, sem zonas cinzentas, sem ambiguidades, também sobressai. A possibilidade de interpretação múltipla, tão útil a fornecer meios de fuga aos políticos, ficaria obliterada.

Essencialmente, a gestão de expectativa, vincula ao cumprimento. Conceito totalmente incompatível com a política.

O prisma ético implícito na gestão de expectativa é incontornável. Por muito latim que se gaste a tentar lubridiar a realidade, ela mantém-se irredutível. Manipular a percepção da mesma, é eticamente errado e moralmente indefensável. Quando a entrega difere da encomenda, algo de errado se passa. Quando o Ministério Público olha e vê crime, a Câmara Municipal olha e nem processo disciplinar vê, durante anos a fio. Algo de errado se passa. Os advogados aumentam a facturação.

Confirmando a fatalidade melancólica tantas vezes usada para nos ilustrar como povo, na política, mentira e manipulação são virtude. Lamentavelmente, quem ousa exigir honestidade e cumprimento na política, é adjectivado de ingénuo, infantil, inexperiente. Em suma: Otário. Se não tivesse obtido a confirmação na actividade profissional que a honestidade compensa, diria que a minha mãe tinha cometido um erro.

Já lá vão uns meses com a nova gestão autárquica. A oportunidade de marcar a diferença está a esvair-se em decisões inconsequentes, passividade agressiva, mediocridade continuada, prioridades trocadas. Foi prometida mudança, para melhor. Pelo menos, assim foi entendido. Outra coisa qualquer, implicaria um erro de interpretação colectiva monumental. A existir por ali alguém ciente dos conceitos de Gestão de Expectativa, a mensagem é clara: Baixar a expectativa para mínimos nunca vistos. Só mudaram as moscas.