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27/04/2023

Jornal Torrejano - Nº 1157 - Vinho e carvão

Jornal Torrejano – Nº 1157 - 21/04/2023

Vinho e carvão

Recordo-me de um episódio da personagem de Goscinny e Uderzo, Astérix, onde são explorados com humor alguns conceitos de economia, tendo como objeto a atividade económica exclusiva em toda uma região: Comércio de vinho e carvão. Sem me dar ao trabalho de ir buscar o livro à prateleira e transcrever, um diálogo que ficou na memória, é qualquer coisa neste género:

“E quando não há clientes para vinho e carvão, o que é que vocês fazem?”

“Vendemos vinho e carvão uns aos outros.”

 Se a economia circular é adaptável ao humor, com vinho e carvão, um pavilhão de feiras também deve ser.

Quando o atual mecanismo de apoio e estímulo ao desenvolvimento do tecido empresarial, testemunha a queda do seu homólogo e antecessor na indigência, torna-se inevitável tecer algumas considerações acerca do tema. A primeira, recai no planeamento de contexto, deficiente. Traduzido numa redundância, emergente num curto prazo que, remeteu ao inútil o investimento torrejano. A declaração de intenções inicial da Nersant revelou-se incapaz de resistir à realidade geográfica e à passagem do tempo. Depois de tentativas inconsequentes de reinvenção, a balões de oxigénio, agoniza há bastante tempo. A segunda consideração será obrigatoriamente sobre o prolongar inútil desse período agonizante. Enfrentar a realidade e tomar decisões, antes que o capricho se torne demasiado caro, é atividade deveras seletiva na autarquia. É ponto de honra levar os erros até ao fim. Atualmente, (mais) um pavilhão de utilidade tendencialmente nula, aparenta ir custar 2M à câmara. Mais uma despensa milionária para arrumos. A terceira, recai numa necessária reflexão, acerca da pertinência viabilidade e competência implícita, neste género de instituições, neste género de atividade. Expliquem lá à malta, o que é que correu mal? Na altura, os financiamentos europeus eram destinados a fazer pavilhões e formar núcleos empresariais, de maneira que… olha, cá vai, depois logo se vê. Foi isto? É especialmente importante que exista eco desta reflexão, no IEFP, na Escola Profissional, na Associação de Comerciantes, nas Start Up’s, na autarquia, nos partidos políticos. Caso contrário, será legitimo conjeturar quanto irá custar no futuro o que se vai alegremente iniciando hoje. Isto assim, até parece o país dos institutos. Aprender, é o retorno do erro. Se ninguém aprendeu nada… Sem retorno, o erro passa a ser um custo. De 2M, a fundo perdido.

Existem monos destes, com nomes formas e cores diferentes, a salpicar o país. Testemunhando com a sua grandeza a pequenez indígena. Provas físicas de gestão perdulária, carente de sentido, em tempo de vacas gordas. Hoje? Com a taxa de juro a subir, é só ir ao banco arranjar os 2M para pagar o capricho. Não tem problema. A maledicência popularucha tem a mania de ver problemas em todo o lado, que coisa irritante. Pá. Livro-vos de um estádio de futebol. Mas não vos livro de um núcleo empresarial com pavilhão para feiras.

Soa a outros tempos…




07/04/2023

Jornal Torrejano - Nº 1156 - A folha de figueira

Jornal Torrejano – Nº 1156 - 07/04/2023

A folha de figueira

Em 1563, o Concílio de Trento decretou a campanha da folha de figueira. Visando os nus na arte renascentista, considerando-os lascivos e incentivadores ao pecado, patrocinou o encobrimento dos órgãos sexuais das personagens representadas, com uma folha de figueira. Adulterando para sempre a obra original tal como executada pelo seu autor, a folha de figueira passou a ser o símbolo de sexo, pecado, censura.

Mais tarde, por volta de 1870, o puritanismo exacerbado (doentio) do papa Pio IX ordenou a remoção dos órgãos sexuais masculinos das estátuas no vaticano, a escopro e martelo. O sexo masculino, já de si representado de forma diminuta, desrespeitando a escala da estátua (figuras adultas eram munidas de genitália infantil por imposição da igreja, o que, sabendo o que sabemos hoje, faz sentido), foi removido no seu todo. 

Em 1985, o zelo puritano, de braço dado com a religião, levou á aparição da organização P.M.R.C. (Parents Music Resource Center, em português: Centro de Recursos Musicais para Pais), nos Estados Unidos. Esta organização, liderada por Tipper Gore, esposa de Al Gore (sim, esse Al Gore), pretendeu levar a cabo a extinção na expressão artística musical, qualquer tipo de vernáculo, referência a sexo, heresia e violência. A música Rock foi o alvo óbvio. Depois de algumas tentativas frustradas de silenciar alguns artistas e grupos musicais, a única vitória visível deste movimento foi a obrigatoriedade de afixar um selo de aviso nos suportes físicos comercializados. A indústria da música cedeu a afixar este selo, de formas ligeiramente diferentes consoante o país. Apenas serviu para alertar o consumidor que, estava ali algo de interessante pela certa. Se vale a pena censurar, é porque vale a pena ouvir/ver/ler. Desencadeou também a edição de duas versões da obra, censurado e integral, acrescentando valor ao filão do colecionismo. As linhas orientadoras que tornavam o objeto artístico elegível ou não para levar com o selo, variaram um pouco ao longo dos anos. Principalmente de modo a evitar o confronto direto com a liberdade de expressão.

Em 2023, assiste-se á amputação do objeto artístico de forma voluntária pelas bibliotecas, editoras, escolas, sem pressões de movimentos governamentais com agenda puritana, são cidadãos comuns os protagonistas. O conceito alargou e, ao vernáculo sexo violência heresia, juntaram-se-lhes referências raciais, étnicas, tribais, género e, características físicas do individuo com potencial depreciativo. A esta higienização da arte, chamam-lhe Woke (acordado/desperto). Uma pilinha diminuta numa estátua, incomoda mais no século 21 do que na época medieval. Incrível.

O resumo cronológico atrás, tem o objetivo de realçar que, a censura na arte, está presente na história da humanidade com frequência. Para cada força num determinado sentido, existe igualmente uma força em sentido oposto, segundo as leis da física. Ação/Reação. A força em sentido contrário está a dormir ou, as leis da física estão erradas. É de fato preciso estar desperto, woke, para evitar que uma tremenda falta de maturidade reescreva a história. É preciso fazer alguma coisa de concreto. É preciso administrar um ralhete aos cachopos. Este é o meu.

Dado que fugi á critica política autárquica, habitual nesta crónica, será legítimo perguntar se a censura na arte é mais importante que, presidente e vice-presidente da autarquia, a desmentir comunicados oficiais da Policia Judiciária. Políticos eleitos a pôr em causa o Estado de Direito. Não é grave, é demente.

Mais importante que, o desequilíbrio ostensivo entre apoios camarários ao desporto e apoios camarários á cultura. 240k para desporto, 30k para cultura. Não é grave, é demente.

Mais importante que, o vice-presidente ir à televisão promover Torres Novas (único motivo que justificaria a sua presença lá), ou seja, fazer o que a APDPTN deveria fazer e, para o qual lhes pagou 45k (mais 15k que o apoio à cultura). Não é grave, é demente.

Mais importante que, presidente e vice-presidente, sistematicamente usarem exclusivamente um determinado grupo de Facebook como canal oficial do município, cedendo em primeira mão a esse grupo informação que, só posteriormente é veiculada pelos canais oficiais e imprensa. Não é grave, é demente. Atenção que, neste tema, a oposição não fica melhor. Ao comentarem essas “partilhas” são coniventes com o absurdo. Ou o favorecimento, que tanto criticam.

Sem dúvida que, falar acerca de esconder pilinhas pequenas com folhas de figueira, partir as de mármore, precaver o ouvinte acerca de um “foda-se” cantado numa música, substituir “castanho” por “bronzeado” num livro, é mais importante que um município refém de labregos e criminosos. Embora possa parecer exatamente o mesmo ardil.

Caso se venha a provar a culpa. Claro.