Jornal Torrejano – Nº 1232 – 05/06/2026
Minudências que consomem
A micro gestão, em inglês micromanagement, é um dos erros de gestão mais combatido nas estruturas empresariais. Caracterizada pela centralização de decisões, ausência de delegação de tarefas e responsabilidades, obsessão com detalhes e, comunicação unilateral entre camadas hierárquicas. O controlo excessivo e a supervisão minuciosa de operações banais repetitivas, leva a consequências nefastas nas organizações. Desmotivação dos colaboradores, rotatividade frequente dos quadros, são consequência directa de um sentimento de desvalorização, insinuando desconfiança nas capacidades dos funcionários. Além de abortar por completo a proactividade e a possibilidade de inovação no sentido ascendente. O burnout dos decisores, sobrecarregados, leva a efeito de bola de neve e o que devia ser liderança resume-se a chefia. Estes são alguns dos resultados da micro gestão. Sendo o produto final, a fraca produtividade do todo.
Saber delegar, valorizar os colaboradores e, respeitar todas as funções na estrutura é o caminho. Um dos pontos que David Ogilvy sublinha nos seus livros é, tratar pelo nome todos os colaboradores da empresa, desde a senhora da limpeza ao director financeiro. Cria uma coesão e espírito de equipa que, resultam em empenho, em produtividade. Ogilvy não tirou a esfregona das mãos da senhora da limpeza, não fez ele o relatório de contas do trimestre. Apenas os tratou diariamente pelo nome, durante o desempenho das suas funções profissionais e, perguntou de quando em vez como iam as coisas lá por casa. O chão esteve sempre impecavelmente limpo e as contas bateram sempre certo. Foi com esta atitude que construiu a cultura da Ogilvy and Mather.
Quando o desleixo e a indiferença são visíveis, sinalizam com frequência as consequências da micro gestão.
Um presidente de câmara pode perfeitamente ocupar o seu tempo com uns vidros partidos numa escola, resultado de actos de vandalismo perpetrados por crianças/jovens. Mas um Presidente de Câmara, investe o seu tempo a preocupar-se com a criação e dinamização de actividades formativas, actividades lúdicas, para crianças/jovens, evitando que enveredem pelo vandalismo. Ou, a apoiar, motivar, estimular, quem o faça. Recordo-me de dois ou três nomes que, no passado, tiveram papéis socialmente interventivos relevantes precisamente neste enquadramento. Na melhor exibição de ingratidão, atitude tipicamente torrejana, são nomes varridos para debaixo do tapete, não constam em nenhum painel de azulejo numa fachada de um edifício, vá lá saber-se porquê.
Resolver os vidros partidos, delega-se. Um atraso numa obra, delega-se. Um incumprimento contratual de um fornecedor, delega-se. Senão, para que servem os praticamente mil funcionários numa Câmara Municipal? Actos de vandalismo, não se ignoram nem se delegam. São sintomas sociais que devem ser endereçados com a responsabilidade do cargo de liderança. Optando por ignorar agora e empurrar o problema para jusante, nesse ponto, a única ferramenta disponível é a repressão, o castigo, a penalização. Entre reforço social e reforço policial, opto pelo primeiro. Assim fui formado. Mesmo sem reconhecimento institucional, posturas exemplares perduram no tempo.
