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18/06/2026

Jornal Torrejano – Nº 1233 - CH4

Jornal Torrejano – Nº 1233 – 19/06/2026

CH4

Podemos enumerar os argumentos que habitualmente nos escudam de uma análise crítica, como se a escala económica, dimensão de mercado, localização geográfica, justificassem decisões péssimas, essencialmente motivadas por falta de verticalidade. Por sistema, quem manda neste cantinho à beira mar plantado, verga-se com facilidade a interesses prejudiciais ao país que lhe paga o ordenado base. A economia nacional contém vários exemplos de áreas de negócio a contribuir significativamente para o PIB rejeitadas noutras geografias. A indústria do papel, celulose, eucalipto, é exemplo. Somos orgulhosamente os maiores da Europa nesse campo. Porquê? Porque mais ninguém o quer. Altamente poluente, degrada os solos, extingue ecossistemas, consome quantidades absurdas de água potável, é desinteressante para qualquer ser humano com dois dedos de testa, preocupado com a sustentabilidade, com o ambiente, com as consequências a médio e longo prazo na ecosfera, o sítio onde vive e viverá a sua descendência.

Aquilo que era bom, sustentável, natural, pouco ou nada poluente, e, curiosamente, tradicional, foi-se para outras paragens, onde a verticalidade autóctone não se importou de pagar o complemento salarial, subsídio de refeição e comissões, a quem o salário base ficava curto para as ambições. Trocaram pescado, azeite, fruta, cortiça, cereais, leite e derivados, por eucalipto.

Em traços gerais foi assim que chegámos aqui. A trocar o bom pelo péssimo e a desculparmo-nos disso com a nossa dimensão reduzida e infeliz localização nos confins, no extremo do mundo civilizado. Oficialmente, a falta de peso negocial eliminou qualquer outro facto. Quando na realidade, fomos comprados. Embora só uma elite muito exclusiva tenha recebido um cheque grande e gordo. Para o resto da população, empreendedora, foram os largos milhões do fundo social europeu a fundo perdido nos anos 80 e 90. Ou ninguém discorreu o que era aquilo?

Desperdiçados em futilidades os fundos destinados a preparar as microempresas e empresas familiares para continuar a produzir excelência mas num mercado maior e mais competitivo, restou-nos declarar falência e passar a importar os mesmos bens mas com qualidade medíocre. Também em traços gerais, a nossa atitude colectiva tem sido comer o bife sem querer saber como é tratada a vaca. Só acordamos para a realidade que deliberadamente fomos ignorando, ao longo de décadas, quando ela nos arromba a porta da frente com estardalhaço.

Justificando com a instabilidade geopolítica actual a par da dependência energética e metas de redução de consumo de combustíveis fósseis, o governo declarou o biometano como activo estratégico, usando na mesma frase expressões como, "agilizar licenciamentos", "atrair investimento" e, "alinhamento europeu". A expectativa é chegar a 2030 com cerca de um décimo do consumo de gás natural transitado para biometano. A Mota Engil anunciou a instalação de cinco centrais de biometano em território nacional até ao fim do ano corrente. Portanto, ao que tudo indica, o processo está em marcha, imparável. Muitos clientes domésticos receberam há uns meses uma comunicação do fornecedor de gás natural a informar que, a partir de determinada data, já não seria fornecido inteiramente gás natural mas sim uma mistura com hidrogênio. Já era todo este alinhamento a ser posto em prática.

As guerras guerrinhas e escaramuças pelo planeta fora, não vão abrandar, a instabilidade geopolítica vai continuar. Os Trumps desta vida, uma vez instalados, já nada os arranca de lá. A invasão do capitólio foi ilustrativa, era o início de uma guerra civil. Se não for o mesmo fantoche a ocupar o lugar, será outro com o mesmo guião. Previsivelmente, continuará a ser justificável a diminuição do consumo de energia oriunda de determinadas geografias, no sentido de reduzir a dependência.

Tenho toda a empatia com a população de Árgea, concordo com os protestos, defendo a liberdade cívica para dizer não a mais um atentado à saúde e bem estar das pessoas e, eventualmente, a médio prazo, um crime ambiental anunciado. A memória da Fabrioleo ainda está bem fresca. Mas temo que sejamos impotentes para deter o "progresso". Assim como não levo a bem a opção de varrer o problema para a porta de outrem. Uma argumentação sólida tem de obrigatoriamente obedecer a uma análise criteriosa da questão como um todo, propondo também alternativas viáveis. Começando por compreender porque é que exclusivamente Árgea responde positivamente aos parâmetros estipulados para a implementação de uma unidade industrial com estas características. Um projecto de dimensão assinalável sem um plano "B"? Sem vias de comunicação entre as partes, só é possível presumir pressupor e conjecturar.

Encurralar um animal não é boa ideia. Quando ele percebe que a única saída é derrubar-nos...




06/06/2026

Jornal Torrejano – Nº 1232 - Minudências que consomem

Jornal Torrejano – Nº 1232 – 05/06/2026

Minudências que consomem

A micro gestão, em inglês micromanagement, é um dos erros de gestão mais combatido nas estruturas empresariais. Caracterizada pela centralização de decisões, ausência de delegação de tarefas e responsabilidades, obsessão com detalhes e, comunicação unilateral entre camadas hierárquicas. O controlo excessivo e a supervisão minuciosa de operações banais repetitivas, leva a consequências nefastas nas organizações. Desmotivação dos colaboradores, rotatividade frequente dos quadros, são consequência directa de um sentimento de desvalorização, insinuando desconfiança nas capacidades dos funcionários. Além de abortar por completo a proactividade e a possibilidade de inovação no sentido ascendente. O burnout dos decisores, sobrecarregados, leva a efeito de bola de neve e o que devia ser liderança resume-se a chefia. Estes são alguns dos resultados da micro gestão. Sendo o produto final, a fraca produtividade do todo.

Saber delegar, valorizar os colaboradores e, respeitar todas as funções na estrutura é o caminho. Um dos pontos que David Ogilvy sublinha nos seus livros é, tratar pelo nome todos os colaboradores da empresa, desde a senhora da limpeza ao director financeiro. Cria uma coesão e espírito de equipa que, resultam em empenho, em produtividade. Ogilvy não tirou a esfregona das mãos da senhora da limpeza, não fez ele o relatório de contas do trimestre. Apenas os tratou diariamente pelo nome, durante o desempenho das suas funções profissionais e, perguntou de quando em vez como iam as coisas lá por casa. O chão esteve sempre impecavelmente limpo e as contas bateram sempre certo. Foi com esta atitude que construiu a cultura da Ogilvy and Mather.

Quando o desleixo e a indiferença são visíveis, sinalizam com frequência as consequências da micro gestão.

Um presidente de câmara pode perfeitamente ocupar o seu tempo com uns vidros partidos numa escola, resultado de actos de vandalismo perpetrados por crianças/jovens. Mas um Presidente de Câmara, investe o seu tempo a preocupar-se com a criação e dinamização de actividades formativas, actividades lúdicas, para crianças/jovens, evitando que enveredem pelo vandalismo. Ou, a apoiar, motivar, estimular, quem o faça. Recordo-me de dois ou três nomes que, no passado, tiveram papéis socialmente interventivos relevantes precisamente neste enquadramento. Na melhor exibição de ingratidão, atitude tipicamente torrejana, são nomes varridos para debaixo do tapete, não constam em nenhum painel de azulejo numa fachada de um edifício, vá lá saber-se porquê.

Resolver os vidros partidos, delega-se. Um atraso numa obra, delega-se. Um incumprimento contratual de um fornecedor, delega-se. Senão, para que servem os praticamente mil funcionários numa Câmara Municipal? Actos de vandalismo, não se ignoram nem se delegam. São sintomas sociais que devem ser endereçados com a responsabilidade do cargo de liderança. Optando por ignorar agora e empurrar o problema para jusante, nesse ponto, a única ferramenta disponível é a repressão, o castigo, a penalização. Entre reforço social e reforço policial, opto pelo primeiro. Assim fui formado. Mesmo sem reconhecimento institucional, posturas exemplares perduram no tempo.