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18/11/2022

Jornal Torrejano - Nº 1147 - Halloween

Jornal Torrejano – Nº 1147 - 18/11/2022

Halloween

Lá chegámos nós novamente àquela altura do ano em que se cumpre a mais genuína e enraizada tradição lusitana, o Halloween. Tiram o disfarce do roupeiro, põem a arejar um dia ou dois para dissipar o cheiro a naftalina, enfiam a custo as botas de prateleira, as calças de flanela justas, a camisa de linho branco, os suspensórios, a jaqueta, a samarra alentejana (porque à noite faz frio) e o boné à agricultor, decorado com um pin dourado de uma ferradura ou a efigie de um cavalo no lado. Dão duas voltinhas em frente do espelho e se tudo estiver satisfatório rumam à Golegã.

Do vendedor de carros em segunda mão ao empregado bancário, do remediado ao que não tem onde cair morto, e tudo pelo meio, nesta altura, todos vestem a pele de senhor equestre. A maior parte, o mais perto que esteve de um cavalo na sua vida, foi a pisar a bosta fumegante de um, precisamente ali, na Feira Do Cavalo. Os mais ousados, falam alto, com uma pronúncia afetada onde se acotovelam os “você” e “percebe?” em todas as frases proferidas. Tratam os filhos por “você” e, antes de sair de casa, ensinaram-nos mediante coação a tratar por “tia” as ramelosas das amigas dos pais, e por “querida” as coleguinhas de escola mais chegadas. Por motivo desconhecido, estão convencidos que é assim que se fala em Cascais. E nos meios endinheirados. Por vezes o verniz barato estala e inadvertidamente dão a conhecer o labrego mal formado que vive por baixo. Alguns, adotaram esta fantochada o ano inteiro. Ali, sentem-se como peixe na água. Os seus quinze minutos de fama anuais, finalmente chegaram. Vão brilhar.

A feira em si, desde há décadas completamente descaracterizada, não se distingue de um arraial. Os peruanos a vender CD’s e a tocar musica repetitivamente estéril em flautas dos Andes, o chinês a vender baterias e carregadores para telemóvel, a barraquinha com acessórios luminescentes de utilidade incompreensível às cores a piscar, as farturas, as castanhas (importadas de outro continente) assadas, a água-pé mal cozida. As ruas estreitas e escuras a tresandar a urina e azedo pungente de vómito, as ruas largas e iluminadas pejadas de bosta de cavalo, a tresandar a isso mesmo, bosta de cavalo. Enveredando pela experiência gastronómica típica, no dia seguinte, o aparelho digestivo está tão limpinho que dá para fazer uma colonoscopia sem ser necessário a horrível preparação com aroma a baunilha.

No meio desta degradação socialmente enaltecida, as famílias que têm um nome a defender, pagam a instalação de um hospital de campanha para a sua prole, muita dela menor de idade (e de desenvolvimento intelectual), poder receber assistência às consequências dos excessos, evitando assim fazer figurinhas tristes nos serviços de urgência dos hospitais próximos. Claro que a justificação oficial, politicamente correta, é outra. Mais humanitária. Espera… Os hospitais próximos já não têm serviço de urgência. Pois é, quem manda, pode.

No quadro político, são visíveis os partidários de esquerda, a aproveitar sem pudor a oportunidade de experimentar a decadência da direita conservadora. Muitos gostam tanto que revelam um esquecimento embaraçoso dos valores e princípios que defendem. Assim vão as convicções profundas. Enterradas em bosta de cavalo até aos tornozelos, depois de mijar e vomitar água-pé ordinária num beco mal iluminado. Depois da ressaca passar, tudo é esquecido e deseja-se que para o ano haja mais. Em favor do tão precioso e preciso estímulo à economia local, o valor mais alto que se impõe.





05/11/2022

Jornal Torrejano - Nº 1146 - Apelo à tolerância

Jornal Torrejano – Nº 1146 - 04/11/2022

Apelo à tolerância

Ver as coisas a preto e branco é a simplificação para o simplório. Com a recrudescência de simplórios é perfeitamente natural que aconteça a bipolarização de qualquer tema. Desde que o sistema de ensino adotou preferencialmente respostas de escolha múltipla em detrimento do “elabore” ou “justifique” que, o ato de pensar, é afunilado para binário logo em tenra idade. Outros dispositivos que gerem o quotidiano contribuem para o fluxograma. Tomemos o exemplo dos semáforos: Se verde, avança-se. Não há dúvidas. Se vermelho, pára-se. Não há dúvidas. Se laranja… começa o imbróglio. Parando, o fulano atrás apita e barafusta. Avançando, arrisco-me a ouvir um apito estridente seguido de despesas não previstas, ouvir impropérios dos peões e, do fulano atrás que, aproveita para traduzir a frustração da espera em imagem de cidadão atento e cumpridor. Quando laranja, o fulano atrás apita sempre, faça eu o que fizer. Quando laranja, em caso de piparote noutra viatura, fervilha a argumentação carregada de pressupostos e meias verdades. Por vezes insultos. Até bofetada. O estado intermédio origina problemas bicudos. Os estados absolutos, não.

Os estados intermédios, quando vazios de bom senso e tolerância, são terreno fértil para o desentendimento. Daí, os simplórios padecerem de dificuldades em navegar nas zonas cinzentas, evitando-as a todo o custo. Ser obrigado a interpretar e perceber, é uma chatice. Os simplórios preferem a realidade servida num coma binário.

A vinda da Mercadona para o concelho foi prometida e dada como certa. Foram prometidos empregos e desenvolvimento. No entanto, não ocorreu. Perdeu-se numa zona cinzenta. O simplório não interpretou nem percebeu. A Renova vedou a nascente de um rio, contra tudo e contra todos. Foi prometida solução e acesso livre á nascente. No entanto, não ocorreu. Perdeu-se numa zona cinzenta. O simplório não interpretou nem percebeu. A Fabrioleo poluiu e envenenou. Foi prometido desmantelamento e limpeza. No entanto, não ocorreu. Perdeu-se numa zona cinzenta. O simplório não interpretou nem percebeu. Formou-se uma comissão para acompanhar a possibilidade de o novo aeroporto de Lisboa se resumir a uma placa de fundo azul e letras brancas na Segunda Circular a apontar para Santarém. O presidente da câmara de Torres Novas contava ser convidado para essa comissão. No entanto, não ocorreu. Por esta altura, mesmo os mais simplórios, conseguem interpretar uma linha de coerência formada pelas “não ocorrências” sucessivas. Não basta parecer. Tem de se ser. E isso é binário, o simplório percebe. Apesar de todo este tema do aeroporto na zona de Santarém se revestir de algum misticismo e as ditas Comissões Técnicas aparentarem uma essência etérea, o presidente, perante tal desplante, reagiu com um “Não tolero!” A formiga também não tolera ser esmagada pelo elefante. Mas mesmo que o grite em plenos pulmões, em bico dos pés, não lhe adianta grande coisa. Um “toma” do Bordalo traria mais dignidade ao esmagamento da insignificante formiga. Mas quem precisa de dignidade quando o formigueiro providencia uma maioria absoluta? E cá ficamos nós intoleravelmente a ver hipotéticos aviões, a aterrar e a levantar voo em hipotéticos aeroportos, testemunhando um hipotético crescimento económico na região. Se pedirmos com jeitinho, talvez nos deixem ir varrer a pista, ou limpar os mosquitos do para-brisas de um Boeing, á troca de uma moedinha. Isso sim, seriam novas oportunidades de emprego e um desenvolvimento económico assombroso para os torrejanos. Além de uma placa de fundo azul e letras brancas na Variante do Bom Amor a apontar para Santarém.