Jornal Torrejano – Nº 1223 – 23/01/2026
DDD (Declínio/Degradação/Decadência)
Embora existam forças com muito interesse em que a crítica seja interpretada num plano gratuito, a sua ilustração fundada em factos nega naturalmente essas tentativas. Desde algumas décadas a esta parte, a dinâmica cultural em Torres Novas é inexistente ou, numa hipótese optimista, débil, anémica. Não é exclusivo da cidade ou do concelho. O facto verifica-se numa geografia um pouco mais alargada.
Recuando trinta e cinco anos, genericamente num eixo entre as cidades de Tomar e Torres Novas, contavam-se mais de duas dezenas de projectos de música original activos. Mais de vinte bandas a compor, ensaiar, actuar, gravar. O livro Sons Primitivos (1994, edições Geminis), autoria de Fernando Ventura, confirma esta realidade e ilustra-a com curtas biografias de quinze desses projectos. O livro Nós Queríamos Ser Artistas (2015, edições Âmago da Questão), autoria do historiador João Carlos Lopes, embora dedicado a uma cronologia mais alargada e âmbito geográfico mais específico, faz o mesmo, contabilizando bem mais de quinze. Hoje, mesmo sendo generoso na contagem, não consigo chegar à dezena. Apertando a malha e excluindo projectos virtuais, bandas de Facebook, e bandas exclusivamente activas para tocar em eventos organizados pela Câmara Municipal, uma ou duas vezes por ano, ficam quatro. Se filtrar ainda mais e procurar apenas bandas cujos elementos tenham menos de quarenta anos de idade, fica uma. Talvez duas.
Usando o mesmo valor para a janela de recuo no tempo, trinta e cinco anos, pergunto aos jovens com essa idade: No vosso tempo de vida, quantas exposições de fotografia se recordam de acontecer em Torres Novas? E exposições de pintura? E concertos de bandas de música original, nativas do concelho? E exibições de cinema? E instalações de arte estática, dinâmica, de rua, performativa, multimédia, interactiva, contemplativa...? Em mais de três décadas, com tanta feira festa e festarola, devem ter ocorrido umas quantas, não?
Pois.
Aparentemente, nós portugueses, não temos grande problema a gerar excelência na literatura. De Camões, Eça, Pessoa, até ao mais cronologicamente recente prémio Nobel de Saramago, é justo julgar Portugal como berço de grandes poetas, romancistas, escritores. No entanto, a média dos hábitos de leitura dos portugueses oscila entre zero e três livros por ano. Geramos excelência na produção mas falhamos redondamente na criação de consumidores. A massa crítica que viabiliza a sustentabilidade, fica completamente fora do alcance. Eternos dependentes de mecenato e subsídios.
A vulgaridade da frase "Portugal é Lisboa e o resto é paisagem", pareceu posta em causa ali por finais de '80 e toda a década de '90. Aconteceram autoestradas, ensino superior no interior, telemóveis, internet. As distâncias, tempos e custos encurtaram, as coisas passaram a estar ao alcance. Tudo indicava que todo o país era agora Lisboa. Mas não. Faltou trabalhar as mentalidades. O provinciano conhece os cantinhos todos do centro comercial Colombo e do estádio da Luz, já trata a segunda circular por tu, mas nunca entrou no Dona Maria para assistir a uma peça de teatro. Para ele, Motel X, Doc Lisboa, Indie Lisboa, são nomes sem significado. Real Companhia Dos Animais, República da Música, Lisboa Ao Vivo, também. A autoestrada, o custo do combustível e portagens, são exactamente os mesmos para qualquer um destes destinos versus um estádio de futebol ou centro comercial, não mudam. O provinciano também não mudou.
Daí ser de extrema importância não deixarmos passar em claro as iniciativas de âmbito cultural que ocorrem espontaneamente em Torres Novas. Quem as põe de pé, consegue-o à custa de grande sacrifício pessoal. Corre riscos, angaria meios, mobiliza pessoas, combate a indiferença e mentalidades. Seja pintura, música, cinema ou outra expressão artística qualquer, são eventos merecedores de respeito e atenção. Por não possuírem o glamour do arranca pára de uma segunda circular, são mais baratos. De borla até.
Reunindo várias pessoas no mesmo sítio, num contexto cultural, num ambiente informal e descontraído, do convívio social resultante, pode ser que surja a discussão acerca do declínio que descrevo atrás. Pode ser que as pessoas saiam de lá a reflectir acerca dos porquês de tal ter acontecido. Pode ser que cheguem a conclusões. Pode ser que as mentalidades mudem. E então... tudo mudará.
Perigosa, essa tal de cultura.

