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23/05/2023

Jornal Torrejano - Nº 1159 - A fina linha branca

Jornal Torrejano – Nº 1159 - 19/05/2023

A fina linha branca

A cocaína nos últimos vinte ou trinta anos democratizou-se, passando de uma condescendência das elites para a droga ilegal mais popular. Fazendo vista grossa ao facto de ser uma droga dura, cujo consumo continuado, além da dependência, provoca danos graves e irreversíveis na saúde (principalmente mental), os recursos alocados à fiscalização de tráfico e consumo de produtos estupefacientes, centra-se na canábis. Droga leve, com aplicação médica reconhecida no tratamento de diversas patologias. Não provoca dependência nem outras consequências de maior, a não ser, chegar à cozinha e não saber o que se ia lá fazer. Canábis, apreendemos às dezenas de toneladas com frequência. Já a cocaína…

Consultando a informação disponibilizada ao público por várias agências policiais internacionais, verifica-se que, Portugal faz parte dos principais pontos de entrada de cocaína na europa. No topo estão Bélgica, Holanda, Espanha. A curiosidade que sobressai nestes relatórios é a diferença abismal entre quantidades apreendidas nos outros países comparando com as quantidades apreendidas em Portugal. Tomando Espanha como exemplo (pela localização geográfica idêntica à nossa), o porto comercial de Vigo, sozinho, apresenta mais volume de apreensões que Portugal. E nestes números, Vigo, fica muito atrás de Algeciras ou Valencia. Daqui podemos concluir que, os traficantes de cocaína têm algum rancor connosco, preferindo os nossos vizinhos. Ou alguém anda a mentir, a manipular o processo. Assumindo que a conjetura vale zero, mesmo assim, estamos a falar de muitos milhões de Euros. Qual das opções anteriores parece mais próxima do plausível?

Optei pelo tráfico por via marítima apenas por serem números mais significativos, na casa das toneladas, ao invés de outros meios, onde as apreensões se resumem a gramas ou, pontualmente, poucos quilos. Posteriormente, a droga se apreendida em trânsito para os destinos finais, é contabilizada como apreensão do país onde o foi, ficando incógnita a origem, o ponto de entrada.

É neste cenário que o governo português assume a prioridade de uma cruzada contra o tabaco. Pela nossa saúde.

Não é só na guerra que a primeira baixa é a verdade. Sempre que exista uma quantidade significativa de dinheiro a mudar de mãos, a verdade, fica encurralada na opacidade. Quando salvar a face é prioritário, opta-se pelo silêncio, para não ter que mentir. O silêncio cúmplice evita o risco de a mentira ser eventualmente exposta à luz. Controlo de danos.

Apesar de um contentor de 70 toneladas cheio de pó branco colombiano representar uma pipa de massa, a construção de um aeroporto representa mais. Ainda a procissão vai no adro, já a mentalidade da mentira se manifestou. O presidente da Câmara de Torres Novas, não contente com o protagonismo que tem tido pela assiduidade em tribunais, decide mentir acerca dos apoios e pareceres para a possibilidade da construção do novo aeroporto no distrito de Santarém. As entidades às quais usurpou a palavra, emitiram comunicado oficial a desmentir tais declarações e, exigem que a figura reponha publicamente a verdade. Outro episódio, na mais recente passagem pela barra do tribunal, ficou exposta a fealdade de ter sido desautorizado pelo vice-presidente e, condenado a fazer cumprir a lei que, durante 8 anos deliberadamente ignorou, penalizando um cidadão um munícipe uma família. Multado em 45€ a pagar do seu bolso por cada dia que passe sem o fazer. Terminada a sessão, a prioridade do presidente foi… submeter processo de recurso. Não foi ir a correr fazer o que não fez durante 8 anos, não, foi submeter o processo de recurso. Enquanto o mais comum dos mortais é criminalizado por fumar um cigarrito às escondidas num beco escuro, há quem fume cubanos enrolados à mão na ribalta sem qualquer pudor em expelir o fumo na nossa cara. Assim se percebe como agências policiais estrangeiras sabem mais daquilo que se passa cá que nós mesmos. Temos os olhos permanentemente inflamados, a arder do fumo que nos mandam para a cara.




05/05/2023

Jornal Torrejano - Nº 1158 - Flutuadores

Jornal Torrejano – Nº 1158 - 05/05/2023

Flutuadores

Vivemos dias históricos. Seria expetável alguma sensação de satisfação, resultante de dois temas profusamente embrulhados, onde foram desatados alguns nós. O tema da nascente do rio Almonda / Renova e, ribeira da Boa Água / Fabrioleo. Após longo período em coma, recentemente tiveram melhoras significativas. Seria de celebrar, seria de assinalar para a história. Verbo intransitivo futuro do pretérito, porquê? Porque na realidade não aconteceu nada. No caso Renova, não existe legalidade ou autorização para a vedação que lá colocaram. No entanto, lá continua. No caso Fabrioleo, é preciso desmantelar e despoluir, resultado: assinou-se um protocolo. Na realidade oficial, aconteceram montes de coisas, na realidade tridimensional ao vivo e a cores onde gira este terceiro calhau a contar do sol, tudo na mesma. Mudaram-se uns papéis de sítio, enviaram-se uns emails, certamente almoçou-se, celebrou-se a vitória com brindes e discursos improvisados. Calculo que tais rituais sejam requisito mínimo obrigatório para dar sentido à vida. Caso contrário, se nós não sabemos o que esta gente anda cá a fazer, imaginem eles próprios.

Entretanto, enquanto a malta andava distraída com acontecimentos que não aconteceram… Bem. Aconteceram. Só que não aconteceram bem assim como dizem por aí, em comunicados do Ministério Público. Aconteceram de uma forma esotérica extremamente volátil cuja responsabilidade é ocultar no espaço quântico, ou hiperespaço, precisamente isso: a responsabilidade. Daí considerar inúteis auditorias externas. É do senso comum que, no período pré auditoria, destruidores de papel tornam-se psicoticamente vorazes (perigosos até) e discos rígidos avariam em catadupa (até parece bruxedo). Um caso clássico de “sorri e acena”. Mas, dizia eu, aproveitaram a distração para, tosquiar as margens do rio Almonda. Surpresa. Só que não foi no dia 14 de Fevereiro, foi agora. Tudo aparado rente. Resta comentar que, chamaram “renaturalização” àquilo. Algures no processo alguém erradamente interpretou como “naturismo” e… toca de aparar rente. Potencia-se a erosão, danifica-se o ecossistema, mete-se umas plataformas (na expetativa que atraia pescadores, por magnetismo, ou assim) para o turista se sentar confortavelmente ao sol e, apreciar a procissão das fezes a boiar. Ah! Lembrei-me agora: os esgotos foram redirecionados. Basicamente, gastou-se uma pipa de massa para o esgoto fazer um percurso mais longo (provavelmente com fins lúdicos) para ser despejado no rio á mesma, só que num sítio mais discreto. Mea culpa. Ignorem a parte das fezes a boiar. Quem achar exagero escatológico, para além do bom gosto, recorde-se da nascente do rio Almonda. Dentro de uma fábrica de papel higiénico. Atrás das grades.

O zelo com que esta “renaturalização” é operacionalizada, testemunhado pelas diversas espécies de aves autóctones, devidamente anilhadas que, povoam o rio em colónias monitorizadas tanto a nível demográfico como sanitário, num ecossistema funcional e saudável, fica perfeitamente contextualizado com a tosquia à “máquina zero” nalguns trechos da margem. O rio Almonda ficar no mapa da pesca desportiva seria ótimo. Mas, teria de ser pelas melhores razões. As razões certas. Um rio com histórico de décadas remetido ao abuso e desprezo, não se transforma num cartão-de-visita apresentável, apelativo ao turismo (desportivo ou outro), com “uns toques” de cosmética. Haja o discernimento para ponderar acerca da salubridade que se pretende expor. Os maiores flops são sempre precedidos de grande alarido. Cautela. Talvez fosse melhor reunir com o proprietário da nascente para conferir se os planos da autarquia não chocam com os planos que a Renova tem para o aproveitamento turístico do aproveitamento. Não vá alguém melindrar-se e fechar a torneira. Pior que uma procissão de fezes rio abaixo, é uma procissão de fezes estagnada ali à porta. Perante o olhar aparvalhado do pescador em plena competição e interesse mórbido das câmaras de TV.