Número total de visualizações de páginas

17/12/2022

Jornal Torrejano - Nº 1149 - 45 Milhões

Jornal Torrejano – Nº 1149 - 16/12/2022

45 Milhões

A maior parte da malta não tem paciência para assistir às reuniões públicas on-line da Câmara. Porque são extensas e chatas, não incluem vídeos de gatinhos, não incluem memes hilariantes, não incluem memes com frases magníficas que dão sentido à vida. Nem pornografia. Estas ausências pecaminosas, além de violarem descaradamente o propósito da internet, tornam o espetáculo já de si minimalista, muito enfadonho. Bom, desta vez a produção dispôs-se a fazer um esforço para atrair espectadores. Estão de parabéns, foi ótimo. Valeu a pena.

Assim por alto, a reter: Orçamento de 45M para 2023 aprovado. Como a prioridade é revitalizar a cidade e recuperar o centro histórico em ruínas, para esse efeito vão ser aplicados 200k desses 45M. Verdadeira fortuna, indicador do alto grau prioritário.

Atirar 1,5M á manutenção e requalificação energética das piscinas, com uma piscina de verão como brinde, também foi aprovado. Provavelmente vai custar a prancha de saltos, mas aquilo já não faz lá nada de qualquer modo. Ou não. Demolir coisas altas que já não servem para nada, é tema sensível de momento. Se calhar por isso, neste pormenor, todos concordaram. A torre de saltos deve ser mantida como símbolo. Símbolo de quê, ninguém sabia. Por ser inconveniente recordar que TNovas hospedou em tempos a modalidade de Saltos Ornamentais, ou por ignorância de tal facto, ficaram pelas memórias indulgentes de imperiais bebidas na esplanada, a olhar ternamente para a prancha de saltos que, não servia para nada, mas por motivo desconhecido ficava ali bem. Construir as piscinas de verão noutro local, não dá. Porque eram propostas de outros partidos. E o PS prefere investir numa asneira prévia mas sua, a ceder a ideias boas que não sejam do PS. Aproveitando a lição urbanística de elevada sensibilidade e carácter do presidente anterior, vão aumentar a asneira, com o dinheiro que sobrar da manutenção do cubo à beira rio plantado. O equipamento será certamente digno e, em todos os aspetos adequado, à população que propõe servir.

Foi decido alinhar na política de poupança de energia. Nesse sentido, a Câmara tomou a decisão de a iluminação pública, passar a ser ligada mais tarde e desligada mais cedo. Haverá dois períodos diários assim mais escurinhos, mais para o romântico. A reter: Vão abrir um buraco grande e fundo no meio da cidade. A seguir vão enchê-lo com água. E depois vão apagar as luzes. Esta malta é danada para a brincadeira.

Um rol de muitas obras e melhoramentos em diversas áreas ocuparam tempo de antena significativo. Todas, ou quase, dependentes de candidaturas a financiamento externo. Ou seja, só haverá obra “se”. A malta até quer fazer coisas, mas aqueles malandrecos lá em Bruxelas têm de colaborar. Cheguem-se à frente com a nota primeiro que a malta depois faz. Senão, ficamos pelos planos e promessas. O presidente afirma a atual capacidade de endividamento à banca como medalha atribuída pela polícia da sanidade financeira, à Câmara. Mérito da sua gestão. Muito bem. Quando o dinheiro estava barato, evitou-se a contração de dívida, poupou-se, apertou-se o cinto, remendou-se para além do saudável. Agora que as taxas de juro estão em subida galopante, o dinheiro está caro e com tendência a encarecer mais, estamos em sãs condições de contrair dívida. Genial. Há aqui matéria para um Honoris Causa em economia. Não é de estranhar, há precedente.

E, finalmente, o comic relief. Presidente e ex-presidente entram em duelo pela honra do grau de educação que cada um deles julga ter. Um mimo. E vocês a ver vídeos de gatinhos na internet. Nem sabem o que perdem. Para já, assim de repente, perderam 45M.




03/12/2022

Jornal Torrejano - Nº 1148 - Animais

Jornal Torrejano – Nº 1148 - 02/12/2022

Animais

Em Janeiro de1977 a banda britânica de Rock progressivo psicadélico Pink Floyd lançou o seu décimo álbum de originais, Animals. O primeiro álbum a ser gravado no seu próprio estúdio. A temática do disco é inspirada na obra satírica de George Orwell, Animal Farm (1945), traçando paralelos à realidade política e social vivida na Inglaterra dos anos 70, facilmente relacionável a vários outros pontos do mundo. Por esta altura os Pink Floyd já eram uma instituição reconhecida mundialmente. Tudo o que faziam era atentamente escutado nos quatro cantos do planeta e as posturas políticas, sociais, artísticas, registadas na música e nos poemas, estavam sob apurado escrutínio, tanto do grande público como de críticos e especialistas. Os Pink Floyd ao longo da sua carreira tiveram (quase) sempre algo a dizer sobre a sociedade, a civilização, a arte.

A capa do álbum, é uma montagem fotográfica produzida por uma empresa de design, mediante instruções da própria banda. Uma foto de uma central elétrica a carvão com quatro chaminés altas, no meio das quais paira um balão insuflável com a forma de um porco. A central elétrica na foto, foi construída nos anos 30 nos arredores de Londres à beira do rio Tamisa. Tendo cessado a sua atividade em 1983, desde então tem sido uma atração turística. Por figurar na capa de um álbum dos Pink Floyd, por os Beatles terem lá filmado cenas para o filme Help!, por ser o cenário de um videoclip dos Judas Priest, por outra foto (do interior) ser a capa de um álbum dos Hawkwind. Vários fotógrafos, amadores e profissionais, ao longo dos anos têm executado remakes destas imagens indelevelmente marcadas na cultura popular por via da música Rock. Desde a cessação da atividade de produção de energia, houve várias tentativas de rentabilização da infraestrutura para outras atividades mas sem sucesso. Foi comprada em 2006 por 400 milhões de libras por um consórcio imobiliário que, obteve licenciamento para lá construir 3400 habitações. O projeto foi abortado em 2010 pelos bancos credores desse grupo imobiliário. A central, com as suas 4 icónicas chaminés, ainda lá está.

É um exemplo de como a história da indústria não se resigna ao confinamento dos livros, não se rende ao obsoleto e, ganha vida própria. Sobrevive, quiçá para sempre, noutras ramificações culturais que não a arqueologia industrial, ou o livro académico resultante da investigação de um qualquer historiador. Daí a importância em manter erigidas estruturas cuja utilidade para a qual foram construídas se esgotou. São testemunhos físicos, palpáveis, existentes na vida real, não se resumindo a conceitos abstratos formados por palavras e imagens, num livro ou fotografia ou filme. Nessa condição, a utilidade torna-se vitalícia. A função, essa é variável. Passível de mutar de acordo com a evolução dos tempos. Não existindo, tendo sido demolida, tudo isto seria obliterado. Certamente os Pink Floyd, os Beatles, os Judas Priest, os Hawkwind, continuariam a fazer discos filmes videoclips. Teriam fotografado, filmado, noutros cenários. Provavelmente até num supermercado, quem sabe. Já o porco insuflável, graças a Orwell, ficará eternamente como a metáfora para o político sem escrúpulos.