Jornal Torrejano – Nº 1136 - 03/06/2022
Aquela máquina.
Somos conhecidos no mundo inteiro como o povo do desenrasca. Não é pelo vinho do Porto, não é pelo CR7, não é pelos descobrimentos, não é pelo clima e pelas praias. É pelo desenrasca. Como testemunham os hábitos de leitura nacionais, temos uma facilidade nata em absorver conhecimento pela prática. Pela teoria, somos alérgicos. Quem ler o manual antes de tentar colocar qualquer equipamento a funcionar, é sumariamente achincalhado por todos como maricas e tótó. Experimenta-se tudo e mais um par de botas primeiro. Só quando nada resulta, então, recorre-se ao manual. Ainda assim, a contra vontade, emitindo em voz alta imensas críticas à organização e redação do mesmo, impregnando as inflexões com o maior desdém possível. Muitas são as histórias na mitologia popular acerca de problemas insolúveis num qualquer estaleiro ou fábrica num país distante em que chamam o português e, ele põe aquilo a funcionar, o que quer que “aquilo” seja, desenrascando a situação, salvando o mundo de desastre iminente. Qualquer fabulosa máquina, projetada pela engenharia alemã com design sueco e fabrico japonês que empanque por motivo desconhecido em qualquer canto remoto do planeta, arrisca-se a enfrentar um português. Recrutado para equipa de limpeza e destacado de urgência para a linha de produção pelos quadros superiores com aval da administração, aflita. Macacão seboso, barba de três dias, cigarro ao canto da boca, arrastando atrás de si uma grade de minis, aproxima-se da máquina, cospe para o chão, limpa o suor da testa com algumas folhas amarfanhadas do manual técnico, faz saltar a carica de uma mini com o isqueiro Bic que, imediatamente se infiltra na máquina por uma fresta que ninguém sabia lá estar (nem o manual técnico), dá duas goladas na cerveja, senta-se na grade de minis e pronuncia estoicamente a frase mágica que dá inicio a todo o processo: “É que tá aqui uma porra!” Com o maior desleixo pela segurança, a sua, a da máquina, e restantes trabalhadores à sua volta, começa a intervenção obedecendo a uma metodologia apenas compreensível a si. Desconhecedores, ignorantes destas coisas, poderiam interpretá-la erradamente como “chafurdar”. Passado algum tempo, o português emerge das entranhas da máquina, ainda mais sujo do que quando entrou, exibindo uma carica de mini segura entre o indicador e o polegar, soltando um sonoro “Ahh!” com ar vitorioso. Reacende a beata que entretanto se apagou, abre outra mini, disfarçadamente cuidadoso para a carica não sair disparada, dirige-se ao chefe da linha de produção e diz: “Podem ligar a máquina. Está desenrascado.” Dá duas goladas seguidas na cerveja e fica a fitar a máquina com o olhar parado. Ligam a máquina e, “aquilo” funciona. Mais ruidosa que antes, mais fumarenta que antes, mas funciona. Os quadros superiores voltam finalmente a respirar, a administração sorri, o português sorri. Chegados a este ponto, perfilam-se imediatamente três certezas: Primeira certeza, o design sueco fica irremediavelmente comprometido, passando à designação artística oficial de chaço. Segunda certeza, a engenharia alemã fica reduzida ao ridículo por uma carica de mini. Terceira certeza, daqui em diante apenas e só o português sabe como pôr a máquina a funcionar. Independentemente do número de técnicos especializados japoneses que atirem a ela.
Prometeu-se calçada para o Largo do Lamego. Em vez disso aplicou-se alcatrão. Está desenrascado. Prometeu-se ligar o escoamento à rede de esgotos. Em vez disso, despeja diretamente para o rio. Está desenrascado. Deu-se a obra como oficialmente concluída quando ela ia a meio. Está desenrascado. Prometeu-se competência. Em vez disso, obtivemos irresponsabilidade. Está desenrascado. É aquela máquina.

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