Jornal Torrejano – Nº 1154 - 03/03/2023
São 80€ por sessão. Os pés em cima do sofá, não, por favor.
Finalmente aconteceu alguma coisa. Um episódio novo no caso Fabrioleo. Afinal a sinusite não desculpa tudo e, o cheiro nauseabundo faz-se sentir inequivocamente. A ponto de aparecer a polícia, alheia como é hábito, a perguntar aos transeuntes e mirones curiosos: “O que é que se passa? Mas o que é que se passa? Hum?” Numa espécie de remake da adaptação teatral de Dinis Machado, O que diz Molero. A recolha de amostras para análise hoje, pode significar eventualmente a procura de prova da continuidade nas infrações. Não deve ser difícil. Aguardemos atentamente mais informações. E respostas. Na realidade, ainda não aconteceu nada no sentido da despoluição, o cenário desejado. Ainda assim, chegar aqui, levou sete anos. Antes que apareça oportunisticamente alguém a tentar colher crédito, sublinho os sete anos de juros. Claro que é positivo acontecer alguma coisa no processo, seja ela qual for. Mas numa fotografia com sete anos de exposição, mesmo que muito quietinhos ficam todos tremidos, ninguém fica bem. Graças à visibilidade conquistada, não é tema que se possa varrer para debaixo do tapete. Veremos qual o lapso de tempo até que uma próxima ação ocorra. Operacional ou administrativa. Infelizmente somos um país pobrezinho que não cruza dados entre instituições. Daí, “tiro no pé” e “conflito de interesses”, poderem ser sinónimo. Contribuindo também para o empobrecimento da língua. Somos pobres.
Segundo informação da PORDATA sobre dados do INE, existem atualmente no país 1,4M de pobres. Graças a prestações e apoios sociais. Caso contrário, ultrapassaria os 2M. A comer todos os dias em casa ou a ir ao restaurante às sextas, o ponto da situação é: 1,4M de pobres. O caminho que aí vem é a subir, a ladeira é íngreme. O número crescente de pedidos de ajuda denuncia a ineficácia da resposta casuística. Apesar de partir com atraso, penso ser preferível perder algum tempo em planeamento e estruturação agora, que enfrentar falências futuras. Quando a inclinação da ladeira revelar inclemência é quando a ajuda tem de funcionar, e bem. Não é alguém ir a um guichet, dizer que tem fome, estenderem-lhe uma lata de salsichas e um papo-seco enquanto gritam “Próximo!” que pode ser chamado de, apoio planeado e estruturado, para resposta ao cenário social previsível, perante as tendências atuais. Declinando o papel de profeta da desgraça, torna-se cansativo, e algo irritante diga-se, tropeçar constantemente no conflito “proatividade/reatividade” na teia de entropias governamentais. Não é por os desempregados deixarem de estar recenseados que deixam de existir. São “estágios” sucessivos de afinidade evidente com “terapia ocupacional”, é a definição elástica de “trabalho temporário”, é a obrigação ao “período à experiência” que, mascaram os números. Independentemente da criatividade do malabarismo, o impacto social é inegavelmente visível. Calculo que deva ser ingrato estar na posição de ter que dar resposta à realidade verdadeira enquanto se defende a realidade fabricada como versão oficial. O problema imediato com a versão oficial é, ser cara. Não é para todos os bolsos. Felizmente, ocorre espontaneamente e com frequência, no meio de quem navega confortavelmente a versão oficial, uma vontade irresistível de comprar uma lata de salsichas e um papo-seco para dar aos pobrezinhos que, vivem por negação auto imposta, nessa tal realidade verdadeira. Coitadinhos. A recompensa por ter cumprido a vontade básica irresistível é, uma descarga de endorfinas. Sentirem-se bem consigo mesmos. A paz beatífica proporcionada pelo ato de condescendência, o poder do indulto. Os pobrezinhos só existem porque os ricos precisam de se sentir bem acerca deles mesmos com frequência. Não é capitalismo, não é fascismo, não é economia, não é uma questão de castas. É terapia.

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