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20/11/2024

Jornal Torrejano - Nº 1195 – Nasceu Saramago. Celebremos

Jornal Torrejano – Nº 1195 – 15/11/2024

Nasceu Saramago. Celebremos.

Sousa Lara, (sub-secretário de Estado da Cultura em 1992), quando o livro «O Evangelho Segundo Jesus Cristo» de José Saramago, cuja submissão ao concurso para prémio europeu da literatura foi vetada pelo governo português, proferiu as seguintes declarações:

«Este senhor atingiu, não se percebe muito bem porquê, um patamar de impunidade que a humanidade concede, tipo Berlusconi. Há umas pessoas que podem dizer tudo, que podem fazer as coisas mais absurdas e as pessoas habituam-se a isso e não levam a mal. Só tenho pena que não enxovalhe, da mesma forma que enxovalha o património católico, por exemplo os muçulmanos, porque esses não perdoam e vergam-lhes pela pele. Aí é mais difícil insistir muito numa gracinha reiterada contra a religião muçulmana. Calculo que depois não lhe corra bem o futuro.»

«Até morrer todos temos de nos arrepender porque somos todos pecadores e esperar pelo desígnio divino. Como ele não acredita em nada palpita-me que lhe vai correr mal no futuro, mas isso é um problema dele não é meu.»

A crítica é melhor tolerada pela entidade divina que pelos seus crentes.
Oram pelo regresso das cruzadas e Deus envia-lhes o Saramago. Quem não tem sentido de humor?
Admitamos o percurso para-além-da-morte preconizado pelo cristianismo. A confirmar-se, por esse prisma, os diálogos devem estar a ser interessantíssimos. Entretanto, a separação entre a igreja e o estado, no século XXI, permanece dúbia. Continua-se a matar e a morrer em nome de deus, porque em nome da economia e do poder, parece mal. Enxovalha princípios e valores humanos. Ambos alheios a um eventual património religioso.

José Saramago nasceu a 16 de Novembro de 1922, na Azinhaga, ali ao pé da Golegã. Em 1998 foi galardoado com o prémio Nobel da literatura. Hoje, recordo o nascimento de Saramago. Hoje, quem se recorda de Sousa Lara? Que José Saramago descanse em paz. E que este cantinho à beira-mar plantado, consiga continuar a produzir, mesmo que só de tempos a tempos, pessoas menos condicionadas, menos medíocres. Menos cegas. Com o seu trabalho, capazes de remeter à obscuridade os asnos no poder.
Obrigado pelo legado.

 

Texto originalmente publicado no blog Mortalhas e Lume (https://mortalhaselume.blogspot.com) em Junho de 2010, editado para a presente publicação.




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