Jornal Torrejano – Nº 1195 – 15/11/2024
Nasceu Saramago. Celebremos.
Sousa Lara, (sub-secretário de Estado da Cultura em 1992), quando
o livro «O Evangelho Segundo Jesus Cristo» de José Saramago, cuja submissão ao
concurso para prémio europeu da literatura foi vetada pelo governo português,
proferiu as seguintes declarações:
«Este senhor atingiu, não se percebe muito bem porquê, um patamar
de impunidade que a humanidade concede, tipo Berlusconi. Há umas pessoas que
podem dizer tudo, que podem fazer as coisas mais absurdas e as pessoas
habituam-se a isso e não levam a mal. Só tenho pena que não enxovalhe, da mesma
forma que enxovalha o património católico, por exemplo os muçulmanos, porque
esses não perdoam e vergam-lhes pela pele. Aí é mais difícil insistir muito
numa gracinha reiterada contra a religião muçulmana. Calculo que depois não lhe
corra bem o futuro.»
«Até morrer todos temos de nos arrepender porque somos todos pecadores e
esperar pelo desígnio divino. Como ele não acredita em nada palpita-me que lhe
vai correr mal no futuro, mas isso é um problema dele não é meu.»
A crítica é melhor tolerada pela entidade divina que pelos seus crentes.
Oram pelo regresso das cruzadas e Deus envia-lhes o Saramago. Quem não tem
sentido de humor?
Admitamos o percurso para-além-da-morte preconizado pelo cristianismo. A
confirmar-se, por esse prisma, os diálogos devem estar a ser
interessantíssimos. Entretanto, a separação entre a igreja e o estado, no
século XXI, permanece dúbia. Continua-se a matar e a morrer em nome de deus,
porque em nome da economia e do poder, parece mal. Enxovalha princípios e
valores humanos. Ambos alheios a um eventual património religioso.
José Saramago nasceu a 16 de Novembro de 1922, na Azinhaga, ali ao pé da Golegã.
Em 1998 foi galardoado com o prémio Nobel da literatura. Hoje, recordo o
nascimento de Saramago. Hoje, quem se recorda de Sousa Lara? Que José Saramago
descanse em paz. E que este cantinho à beira-mar plantado, consiga continuar a
produzir, mesmo que só de tempos a tempos, pessoas menos condicionadas, menos
medíocres. Menos cegas. Com o seu trabalho, capazes de remeter à obscuridade os
asnos no poder.
Obrigado pelo legado.
Texto originalmente publicado no blog Mortalhas e Lume (https://mortalhaselume.blogspot.com)
em Junho de 2010, editado para a presente publicação.

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