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04/09/2025

Jornal Torrejano – Nº 1214 – À deriva? Ou derivado?

Jornal Torrejano – Nº 1214 – 05/09/2025

À deriva? Ou derivado?

Quando as cadeiras do poder são ocupadas com saudável rotatividade, daí as regras democráticas o potenciarem, há sempre a possibilidade de atribuir responsabilidades aos ocupantes anteriores pelas asneiras, cujas consequências, agora, têm de ser enfrentadas e resolvidas. Não contribui em nada para a solução mas, é um salvar de face usado com frequência pelos políticos. Sacudir a água do capote instrumentalizando a legitimidade conferida pelo histórico da governação.

Quando as cadeiras do poder são ocupadas pelos mesmos ao longo de trinta anos, sacudir a água do capote torna-se um exercício difícil, senão de todo impossível. Mesmo num contexto de povo com fraca memória.

Quando tomada a decisão de realocar a Câmara Municipal para o edifício do antigo hospital, a questão da escassez de estacionamento que isso iria provocar foi colocada. Duas instituições de grande dimensão fisicamente tão próximas, a Escola de Polícia e a Câmara Municipal, iriam competir pelos lugares de estacionamento, já manifestamente insuficientes para uma só, como fez prova a anterior convivência da Escola de Polícia e Hospital. Inclusive, numa tentativa despropositada de mitigar o problema, ocorreram expropriações injustas que penalizaram significativamente património imobiliário privado (prioridades pertinentes se elevaram). A resposta da autarquia, na altura, a esta questão foi a do costume: Nunca estão satisfeitos. Só sabem criticar. Está sempre tudo mal. Se fazemos é porque fazemos, se não fazemos é porque não fazemos. Desdém. O estacionamento do Virgínia foi dando alguma ajuda no escoamento mas, agora, com a "requalificação" desse espaço, inibindo a possibilidade de ali estacionar, a bolha estoirou.

Sem assumir e enfrentar as decisões do seu próprio passado, a autarquia surge então com soluções idiotas, vendidas como poção mágica. Impõe-se evitar a todo o custo admitir erros e mau planeamento. A gravidade de uma ausência gritante de planeamento urbanístico, é, mais uma vez, ocultada por cortinas de fumo. Permanece a postura de arrogância e prepotência característica do provincianismo, pequeno demais para lhe ser concedido poder. Um penso rápido para acudir a uma hemorragia arterial e aparecem sorridentes quais salvadores da pátria. O importante é fazer coisas. Ineficazes, inúteis, inadequadas. Porque o importante é ter uma lista de coisas feitas, para atirar à cara de quem ousar ver através da cortina de fumo.

A primeira "grande" intervenção do Partido Socialista quando chegou ao poder foi arrancar os castanheiros da Avenida Dr. João Martins de Azevedo. As raízes do Castanheiro são de características radiculares (espalham-se em estrela próximo da superfície), estavam a causar danos no pavimento, às infraestruturas de águas e esgotos e já começavam a ameaçar as edificações. Foi uma intervenção necessária que, para alívio de muitos interesses imobiliários (na política as prioridades são muito fluidas e dinâmicas), aconteceu em tempo útil. No contexto urbano, preferencialmente usam-se árvores de folha caduca, de modo a providenciar sombra no verão e sol no inverno, de crescimento rápido, para não ter de se esperar séculos pelos benefícios e, raiz a prumo (raiz vertical), evitando assim eventuais danos nas infraestruturas urbanas. Carvalho Vermelho, Tília e Plátano são alguns exemplos de árvores com estas características. Trinta anos depois deste conhecimento adquirido, o que é que o mesmo Partido Socialista, ainda no poder, planta na Avenida 8 de Julho? Dica: não são Carvalhos Vermelhos, Tílias ou Plátanos.

Comportamento errático, contraditório, sem um rumo, sem uma rota, sem um plano. Vão-se fazendo coisas, porque o importante é ter uma lista de coisas feitas.

Assegurando continuidade à pouca coerência camarária, faz-se mais um arraial. Música na Ald... Festival na Vila. No programa consta algo tremendamente impressionante e inovador, o video mapping (prática existente desde os anos 60 do século XX, embora imensamente melhorada pela tecnologia actual). A espetacularidade do video mapping depende directamente da morfologia da superfície onde o video está a ser projectado. Quanto mais liso e uniforme, mais pobre o espetáculo. Até parece que alguém foi a Paris por ocasião dos jogos olímpicos, achou piada ao video mapping mas não percebeu a pertinência de um ecrã potenciador do propósito. Arco do Triunfo e Torre Eiffel, são telas substancialmente diferentes da Praça 5 de Outubro. Beber cerveja e mijar pelos cantos mantém o povo feliz, siga-se esse caminho, o tradicional. Pela cultura, dizem eles, enquanto debitam entretenimento popular. Também nisto, não fazem a mínima ideia do que é, nem como se faz. Se Torres Novas for elevada a cidade, talvez algo mude. Ou não.

 



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