Jornal
Torrejano – Nº 1218 – 07/11/2025
Da evolução das espécies
No
início dos anos noventa do século passado a Internet deu os primeiros passos em
Portugal. Primeiro pela comunidade científica e académica, depois, muito
rapidamente, expandiu-se às empresas e cidadãos comuns. Como em tudo que é
novidade, houve cépticos a par de entusiastas. Muito antes das redes sociais se
insidiarem nos hábitos quotidianos, existia uma boa fatia da população que já
não vivia sem internet. As potencialidades de um meio de comunicação a tempo
real, foi desde cedo instrumentalizado para abreviar distâncias, tempos de
espera e, intermediários. O choque que provocou nos meios de comunicação social
ainda não terminou. Uma revolução em curso.
Como
Darwin pensou, não é o mais forte que sobrevive. É o que se adapta melhor. E
mais rápido.
A
presença on-line passou a ser obrigatória para a generalidade
das instituições. Se não está na Internet, é porque não existe. A face visível
das empresas deixou de ser a loja a oficina ou o escritório e, passou a ser
um website. Este facto tornou-se ainda mais relevante para os
órgãos de comunicação social, todos eles. Televisão rádio e jornais,
adaptaram-se ao novo meio dando continuidade ao cumprimento da sua função. A
turbulência que persiste, prende-se com a monetização dos conteúdos. Como obter
retorno financeiro de algo cujo acesso é pago pelo cliente ao operador
(ISP, Internet Service Provider) e não a quem produz os conteúdos?
O café é mais caro se o cliente ler o jornal que está em cima do balcão? Como
adaptar os modelos de sustentabilidade tradicionais, patrocínios e publicidade,
a esta nova realidade? Como assegurar direitos de autor? Como garantir a
segurança e idoneidade de operadores e utilizadores? Como aplicar legislação
nacional num universo internacional, sem fronteiras? Como impedir a subversão
de um meio que se pretendia, na sua génese, verdadeiramente livre? Algumas
destas perguntas já vão tendo resposta, mas, no seu todo, os métodos e
processos permanecem muito dinâmicos e fluídos. Frágeis. Nada é definitivo.
Uma
rápida consulta a alguns dos websites de instituições
torrejanas é deveras esclarecedora acerca da importância atribuída à presença
na Internet cá pelo burgo.
A
julgar pelo seu website, a Banda Operária Torrejana (BOT) é,
aparentemente, uma escola de música em exclusivo. Rigorosamente informação
nenhuma acerca da história e actividade, passado presente e futuro, da banda em
si. Apenas e só, a escola de música.
A
rádio local, Torres Novas FM (TNFM), revela que, a grelha de programação inclui
programas produzidos e/ou apresentados por colaboradores já falecidos. Um
desrespeito incrível pela memória de colaboradores que, provavelmente, deveriam
ser homenageados ao invés de insultados. Na secção de notícias, a notícia mais
recente data de 2019. Manter a posse da frequência não constitui
definição para uma rádio.
A
presença on-line da biblioteca municipal (Gustavo Pinto Lopes) é... curiosa.
Existe no instagram, existe no facebook, em duplicado.
Um perfil activo, outro sem actividade visível, há anos. É referenciada na rede
nacional de bibliotecas (link para o catálogo da rede municipal de
bibliotecas), é referenciada no website da câmara municipal (o
mesmo link para o catálogo da rede municipal de bibliotecas)
mas, não possui domínio próprio. Não existe um website proprietário
para a biblioteca. Numa instituição cuja actividade não se resume a
disponibilizar livros à população, hospedando vários eventos públicos por ano,
é no mínimo curioso. Alguém tem a opinião que a vida virtual se resume às redes
sociais.
O
rancho folclórico de Torres Novas, não tem website próprio.
Está presente no facebook e, tem um blog. Onde
a mais recente publicação data de 2012. Se calhar é melhor ir lá
alguém ver se estão bem.
Os websites do
museu municipal (Carlos Reis) e da Central do Caldeirão são... exactamente o
mesmo. E, está hospedado num subdomínio da câmara municipal. A Central do
Caldeirão aparenta assim, ser a mesma coisa que o museu municipal. E, ambos
aparentam ser meros departamentos da câmara municipal. Coisa que não acontece
com o Teatro Virgínia, por exemplo.
O
Clube Desportivo de Torres Novas (CDTN), tem presença no facebook, no instagram e,
tem website próprio. "Em construção" desde 2016. Sem
qualquer alteração entretanto e, sem qualquer tipo de informação institucional
além da data da fundação do clube. História, actividade, passada presente
futura, palmarés, modalidades, calendário, captação... nicles. Aqui, também
alguém é de opinião que a vida virtual se resume às redes sociais. Se calhar, o
mesmo alguém.
Terminei
o périplo por aqui, não fui verificar as funcionalidades dos sites nem
fui validar links. O impacto de uma imagem pública
caracterizada pelo desmazelo, um desdém óbvio pelos utilizadores, afastou-me.
Se quem tem o dever de cuidar, não cuida, não é ambiente onde me sinta
confortável. Esta é, resumidamente, a imagem institucional on-line de
Torres Novas.
A
iliteracia digital não justifica tudo. A presença on-line atamancada
de várias instituições torrejanas, na soma das partes, configuram um cenário de
negação da realidade, que se vem afincadamente afirmando nesta geografia.
Incompetência, desleixo, falta de carácter, não são só bem-vindos, são
premiados. Darwin estava errado, só a subserviência importa. A evolução das
espécies também nos presenteou com uma espécie de peixe baptizada de Peixe
Palhaço (Amphiprion). Animal decorativo.

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