Número total de visualizações de páginas

22/12/2025

Jornal Torrejano – Nº 1221 - Nossa senhora da energia elétrica

Jornal Torrejano – Nº 1221 – 19/12/2025

Nossa senhora da energia elétrica

Actualmente demonizamos os combustíveis fósseis e idolatramos a electricidade. A poluição, a destruição do planeta, adquiriram protagonismo mediático e a engenharia de manipulação não tardou em tomar as rédeas. Mas os factos, despidos de propaganda, apontam para problemas igualmente graves nas opções eléctricas. Tanto o fabrico como o fim de vida dos dispositivos eléctricos revelam-se tão poluidores, ou mais, que o petróleo nas suas diversas formas.
O homem interessa-se pela electricidade há milénios. Desde que foi domada enquanto recurso útil, há pouco menos de dois séculos, o problema do seu armazenamento nunca foi verdadeiramente ultrapassado. A rede de distribuição eléctrica baseia a sua mecânica de funcionamento num equilíbrio, o mais apurado possível, entre a produção e o consumo. A electricidade que consumimos neste momento, está a ser produzida neste momento. Um piparote neste equilíbrio resulta num apagão, como o de há pouco tempo atrás. Depois desse "abre olhos" (fragilidade prevista com muita antecedência pelos especialistas, a que as empresas e políticos fizeram orelhas moucas), a rede está a ser agora reestruturada pela Europa toda de forma a garantir a restrição das zonas afectadas em caso de falha. A única forma de armazenamento de energia eléctrica, as baterias, tem uma autonomia curta, tempo de vida útil também ele curto, descarregam mesmo sem serem utilizadas, demoram a carregar e quando carregadas parcialmente ficam viciadas com facilidade. Podemos observar esta ineficiência no electrodoméstico mais popular da época, o telemóvel. Podemos observar esta ineficiência nos carros eléctricos encostados à berma da estrada ou nas longas e lentas filas para o posto de carregamento. Daí o petróleo teimar em manter-se como a principal opção.
Várias tecnologias de produção de energia "limpa" foram desenvolvidas com a finalidade de alimentar a rede eléctrica. A eólica e a solar são as de maior protagonismo. Ambas obviamente dependentes das condições metereologicas, não garantem produção contínua fiável no paradigma produção/consumo a tempo real. Outros aspectos destas tecnologias também colocam entraves sérios. O elevado custo de fabrico e instalação dos equipamentos, a manutenção frequente, as largas áreas necessárias para a exploração, o impacto ambiental, a baixa rentabilidade resultante, são problemas relevantes. Há quem seja de opinião que se deve continuar a investir no desenvolvimento, de modo a atingir um ponto óptimo algures no futuro, há quem defenda que é um desperdício de recursos, deve-se explorar outras soluções.
Ainda nos factos despidos de propaganda, a maior "solar farm" dos Estados Unidos, instalada no deserto de Mojave na Califórnia, vai ser desactivada em 2026. Os motivos da desistência, são precisamente a baixa rentabilidade e o impacto ambiental.
No Canadá, na falta de um deserto, actualmente estimula-se o conceito de "agrivoltaic", que consiste no aproveitamento dos terrenos das "solar farms" para cultivo de espécies vegetais tolerantes à sombra, numa tentativa de rentabilização dos projectos. Os painéis solares, além da sombra, impedem uma dispersão saudável da água da chuva pelos terrenos, a água que escorre cria valas de caudal significativo (ou terão de ser feitas, para garantir escoamento, mantendo a integridade do terreno evitando deslizamentos), condicionando grandemente a fertilidade do solo pela distribuição desequilibrada da humidade. A degradação da biodiversidade nos sítios das "solar farms" e áreas limítrofes é significativa, as aves são particularmente atingidas. A manutenção frequente para limpeza dos painéis solares, implica produtos poluentes e elevado consumo de água (painéis com película de pó, tornam-se ineficientes), e, os próprios painéis podem libertar elementos químicos poluentes para o solo. O desenvolvimento económico local proporcionado, é residual, resume-se a poucos postos de trabalho indiferenciado, afectos à manutenção. Os serviços especializados, que incrementam valor, serão sempre fornecidos pelos fabricantes dos equipamentos. Existem de facto, uma série de questões pertinentes que a propaganda verde convenientemente oculta. Na realidade, este caminho só é apetecível por causa dos incentivos, apoios, isenções, financiamentos com juro baixo ou a fundo perdido. Sem nada disso, seria mau negócio.
Além disso, se a produção de energia limpa, verde, tem algum tipo de custo ambiental, seja ele qual for, já não é verdadeiramente limpa nem verdadeiramente verde.
Felizmente, temos actualmente um presidente de câmara cuja formação académica é precisamente nesta área, o ambiente. O município fica assim devidamente capacitado para resistir às pressões dos interesses económicos de oportunismo. Possuindo o know-how adequado para reflectir e ponderar de forma equilibrada os prós e contras, pode tomar decisões acertadas, em defesa do ambiente, em defesa dos interesses da população.
Ou não.
Uma cunha para entrar na Opus Dei dá sempre jeito. Há comunistas com trajectos curiosos.



Sem comentários:

Enviar um comentário