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05/02/2026

Jornal Torrejano – Nº 1224 - Cristina

Jornal Torrejano – Nº 1224 – 06/02/2026

Cristina

Quando o furacão Katrina arrasou New Orleans em 2005, demorou quatro dias para que água potável chegasse às vítimas. Isto num dos países mais desenvolvido do planeta. Onde ocorrem eventos climáticos extremos, furacões ciclones tornados, com frequência.

Em Portugal a recente tempestade Kristin, depois de tão intensa intimidade julgo legítimo poder chamar Cristina, classificada como "depressão", com ventos na casa dos 150km/h, intensidade bastante inferior à de um furacão, veio pôr a nu uma série de fragilidades.

O desleixo a que foi votada a orla costeira, sem manutenção preventiva adequada a enfrentar a erosão natural, quanto mais eventos climáticos excepcionais, arrasou praias e localidades cuja principal fonte de rendimento é o turismo.

O desleixo a que os leitos e margens das linhas de água e rios foram votados, bastando um inverno um pouco mais rigoroso para revelarem capacidade débil, transbordaram causando inundações, dependendo da morfologia do terreno, algumas bastante extensas.

A falta de eficácia do escoamento de águas pluviais em ambiente urbano, no limite adequado ao inverno médio mediterrânico, insuficiente para qualquer coisa mais que isso, provocaram inundações em casas, prédios, ruas, estradas.

As consequências da devastação dos fogos florestais e as consequências da exploração agrícola intensiva/industrial, responsáveis por alterações nas características dos solos, ficando incapazes de reter a água. Água essa que, iria descendo gradual e lentamente pela terra até chegar aos lençóis freáticos, agora escorre em força à superfície, levando consigo nutrientes, acentuando a erosão, e, privando os lençóis freáticos de renovação.

Infraestruturas vitais, electricidade e comunicações, cuja publicidade comercial as tem afirmado ao longo do tempo como "as melhores da Europa", deram de si com uma facilidade surpreendente. Evidenciando que os valores elevados pagos pelo cliente na factura mensal, não se destinam à qualidade do produto em si, mas sim às mais valias das empresas nos mercados financeiros.

Os acessos terrestres, rodoviários e ferroviários, pejados de detritos e estilhaços que impedem a circulação, revelam que árvores a poucos metros da via, é capaz de não ser boa ideia, por muita pressão que a indústria de celulose faça sentir. Mas, quem manda, pode.

Finalmente, a inépcia do estado em prestar apoio atempado e suficiente às populações afectadas. Antes do desalojado ter um saco cama para dormir e uma garrafa de água para beber, o governo já tinha anunciado milhões de Euros disponíveis, mesmo sem recorrer aos fundos europeus de emergência previstos para o efeito. Sim, bastou a promessa de dinheiro, essa abstracção mágica que resolve, para sossegar tudo e todos.

As vítimas do Katrina, tiveram quatro dias para reflectir se estavam entregues a si próprias ou não. As vítimas da Cristina, exclusivamente culpada de tudo isto, não tiveram direito a esse tempo de reflexão. Puserem-lhes imediatamente um prato à frente atestado com promessas de milhões. Quando há promessas de milhões, não há memória de fragilidades. Tudo resistiu e funcionou.




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