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05/03/2026

Jornal Torrejano – Nº 1226 - Gestão de expectativa

Jornal Torrejano – Nº 1226 – 06/03/2026

Gestão de expectativa

Durante o meu percurso profissional tive a oportunidade de frequentar diversos workshops e formações externas proporcionados pelas empresas onde trabalhei. Num desses momentos formativos abordou-se um tema que me interessou bastante, não só pela pertinência para as minhas funções, mas também pela aplicabilidade na vida pessoal: a Gestão de Expectativa. Posteriormente indaguei mais sobre o assunto e fiquei surpreendido pela sistematização e transversalidade do tema.

Área comercial, recursos humanos, implementação de projectos, psicologia, relações humanas, relações públicas, investigação e desenvolvimento, tudo o que envolva pessoas, produtos, serviços e desempenho funcional, a gestão de expectativa tem um papel crucial. Não se resume a encaixar a oferta com a procura numa união sem costuras. Essencialmente trata-se de tornar a comunicação transparente, isenta de ambiguidades, de modo a que todas as partes envolvidas possam tomar decisões perfeitamente alinhadas com os seus objectivos, de forma consciente e esclarecida. Obter exactamente aquilo se estava à espera. Eliminar a frustração, o engano, a insatisfação.

Ajuda à concretização de negócios, sem atritos e desilusões. Ajuda a que as pessoas se entendam, evitando discussões de malas à porta, incompatibilizações irreversíveis, mau estar, ambientes e relações tóxicas, infrutíferas. No limite, evita despesas supérfluas com advogados.

Olhando em retrospectiva, assisti a uma formação patrocinada pelo mundo corporativo, a dizer-me que a honestidade compensa. A mesma coisa que quarenta anos antes a minha mãe me tinha ensinado. Redundante, portanto.

Aplicando as linhas orientadoras da gestão de expectativa à política, saltam imediatamente à vista algumas incompatibilidades. Não prometer o que não se consegue entregar, será talvez a mais evidente. Fornecer exactamente o que se prometeu é fundamental para uma relação saudável, de confiança. Comunicar de forma clara, sem zonas cinzentas, sem ambiguidades, também sobressai. A possibilidade de interpretação múltipla, tão útil a fornecer meios de fuga aos políticos, ficaria obliterada.

Essencialmente, a gestão de expectativa, vincula ao cumprimento. Conceito totalmente incompatível com a política.

O prisma ético implícito na gestão de expectativa é incontornável. Por muito latim que se gaste a tentar lubridiar a realidade, ela mantém-se irredutível. Manipular a percepção da mesma, é eticamente errado e moralmente indefensável. Quando a entrega difere da encomenda, algo de errado se passa. Quando o Ministério Público olha e vê crime, a Câmara Municipal olha e nem processo disciplinar vê, durante anos a fio. Algo de errado se passa. Os advogados aumentam a facturação.

Confirmando a fatalidade melancólica tantas vezes usada para nos ilustrar como povo, na política, mentira e manipulação são virtude. Lamentavelmente, quem ousa exigir honestidade e cumprimento na política, é adjectivado de ingénuo, infantil, inexperiente. Em suma: Otário. Se não tivesse obtido a confirmação na actividade profissional que a honestidade compensa, diria que a minha mãe tinha cometido um erro.

Já lá vão uns meses com a nova gestão autárquica. A oportunidade de marcar a diferença está a esvair-se em decisões inconsequentes, passividade agressiva, mediocridade continuada, prioridades trocadas. Foi prometida mudança, para melhor. Pelo menos, assim foi entendido. Outra coisa qualquer, implicaria um erro de interpretação colectiva monumental. A existir por ali alguém ciente dos conceitos de Gestão de Expectativa, a mensagem é clara: Baixar a expectativa para mínimos nunca vistos. Só mudaram as moscas.




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