Jornal Torrejano – Nº 1228 – 03/04/2026
O castelo fácil
Jantar fora é banal, experiência gastronómica já não. Mesmo que se coma exactamente a mesma coisa, no mesmo sítio, em ambas as situações. A distinção semântica cria percepções diferentes, simulando patamares sociais desnivelados. Uma, é apenas refeição para o Zé. Outra, é uma experiência fotografada, filmada, partilhada e comentada nas redes sociais. Mas o Zé é o mesmo.
Agora que satirizei e reduzi o ego da experiência à sua justa insignificância, já me sinto confortável para falar da experiência onde ela é útil para enriquecer a consciência e criar conhecimento.
O memorial do holocausto em Berlim, foi construído numa arquitectura que propositadamente causa desequilíbrio físico e desorientação ao visitante. A sala museu documental é subterrânea, sem clarabóias, impondo a sensação de opressão e claustrofobia. Em todo o monumento não existe qualquer decoração, qualquer sugestão de beleza ou conforto. A experiência da visita é profundamente deprimente a par de solene. Como a morte de milhões de seres humanos deve ser. Todo o monumento foi objectivamente projectado para infligir experiência. Sem na realidade existir no local qualquer cemitério, depósito de cinzas, um singular cadáver, qualquer dispositivo destinado à tortura ou causar a morte, a sensação de tudo isso é omnipresente. Uma arquitectura inacreditavelmente hostil conduz o visitante ao estado de espírito certo, susceptível de perceber a mensagem. De forma indelével. A história é transmitida por via emocional. A experiência resulta em conhecimento.
Os castelos, tanto os de função militar como os decorativos, foram construídos em locais altos por várias razões. Sendo as principais, o maior alcance da vista e, a inacessibilidade. Repito: A inacessibilidade. Ver mais longe, para identificar qualquer potencial ameaça o mais precocemente possível. Dificultar ao máximo a aproximação da ameaça, com acessos tortuosos, difíceis e desgastantes. A subida íngreme e acidentada até ao (preferencialmente) único ponto de acesso ao interior, garantia que o inimigo chegava exausto, sem forças para lutar. O portão principal, no fundo de um funil de pedra, permitia que uma pequena força conseguisse deter e aniquilar invasores em número substancialmente superior. Ali chegados, viam-se entalados num espaço exíguo sem mobilidade, entre as armas dos defensores frescos à sua frente e a pressão dos restantes invasores a empurrar nas suas costas. Exaustos pela subida exigente, as vantagens somam do lado dos defensores do castelo. Uma zona de matança perfeita.
Diversos castelos europeus têm na sua história episódios que demonstram a eficácia desta arquitectura e posicionamento estratégico. O de Torres Novas também.
A construção de acessibilidade ao castelo, pode ser (mais) um exemplo ilustrativo do divórcio entre o município e a cultura. Pode ser (mais) um exemplo de delapidação do património. Pode ser (mais) um exemplo de erosão da identidade de Torres Novas. Mas desconfio que se trata apenas de (mais) um exemplo de oportunismo de candidaturas a financiamento. Se um dia abre programa de financiamento para formar palhaços, Torres Novas derruba o castelo e monta uma tenda de circo. Defendem-se dos invasores atirando tartes.
A experiência, seja pelo prisma de moda social, seja pelo prisma pedagógico, passa a oportunidade perdida se não acontecer mais nada além da iluminação LED e passadiços. Até parece que Torres Novas e seu castelo não têm história que justifique outro género de abordagem. Para quem não gosta de ler e só vê os bonecos, basta ir à praça 5 de Outubro olhar para o painel de azulejo que lá está. Mesmo degradado e sem manutenção, dá para ter uma ideia da história que nos assiste. Como se discute actualmente noutros locais noutros ambientes: o facilitismo só traz malefícios. Entre o pedagógico e o decorativo, não me parece existir dúvida acerca de qual é fácil.

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