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24/02/2022

Jornal Torrejano - Nº 1094 - As cabras do Reino.

Jornal Torrejano - Nº 1094 - 11/09/2020

As cabras do Reino.

Era uma vez um reino. O Rei, tomou conhecimento que uma república aliada, doava dinheiro a quem quisesse criar cabras com o intuito de limpeza do mato nas serras, de modo a diminuir o risco de incêndios. Uma solução barata, neste caso de borla, e acima de tudo não poluente, amiga do ambiente, tema muito em voga entre os gentios. Era isso mesmo que o Rei precisava, ser popular entre os gentios. Se bem o pensou, melhor o fez. Vindo o financiamento a fundo perdido, o Rei delegou a operacionalização num dos Nobres da sua confiança. Passou um ano. Lá para o lado esquerdo do reino, estava uma Amazona descansadamente em casa a ver TV. Não havia zapping que a livrasse de ser bombardeada com a notícia de um incendio numa serra distante que vitimou uma quantidade de animais. Serra + incêndio + animais… Acendeu-se uma lamparina cerca de quinze centímetros acima da sua cabeça. “Pois é. Que será feito das cabras? Após a pompa e circunstância da inauguração desse projeto, nunca mais ninguém ouviu falar delas”. Pôs-se a caminho e, foi solicitar audiência na coorte. Ia inteirar-se do ponto da situação. Os elementos da coorte olharam uns para os outros, encolheram os ombros e responderam que não sabiam nada. De nada. Perante a ignorância e falta de resposta acerca de uma ideia sua, o Rei, viu-se numa situação desconfortável. Rapidamente e em segredo, foi perguntar ao Nobre a quem delegara a responsabilidade, o que se passava. O Nobre, com a maior cara de pau que conseguiu afivelar, respondeu: “Excelentíssimo e Iluminado Rei, segui o seu exemplo. Tal como vós fizestes com a recolha de lixo e limpeza das ruas do Reino, subcontratei o serviço. Infelizmente, o subcontratado foi de uma incompetência tal, que deixou morrer as cabras à fome e sede”. O Rei percebeu que as palavras do Nobre nunca poderiam chegar à Amazona, muito menos à plebe. Decidiu ser ele a responder diretamente à questão. Na sessão pública seguinte, perante a Amazona e os muitos gentios que se a acotovelavam ao fundo da sala para saber as novas, aflito, pelo golpe que a notícia de tal incúria iria trazer à sua imagem, quis expulsar os jornalistas da sala… não espera, isso foi o outro. É o que dá ter Reis consecutivos da mesma cor, um gajo baralha-se. Onde ia eu? Há! O Rei, num golpe de genial improviso, aclarou a voz e disse: “Trago más notícias. As cabras andavam a pastar junto da nascente do rio, desequilibraram-se, caíram à água e… foram sugadas pela turbina da Renova.” Assim tudo encaixava, o assunto estava encerrado sem penalizações para ninguém, exceto as cabras. Acidentes acontecem. A Amazona, pouco convencida, regressou a casa, e à sua TV. Um canal estava a transmitir uma reposição da série Baywatch. Calções + biquínis + água… Acendeu-se uma lamparina cerca de quinze centímetros acima da sua cabeça. “Pois é. Que será feito das piscinas?”

Porquê uma parábola monárquica? Porque numa República existe uma constituição, leis, regras, protocolos. E penalizações por incumprimento.




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