Jornal Torrejano - Nº 1098 - 06/11/2020
Para quem é, bacalhau basta.
Quando vou a um restaurante e peço um bife, a minha
expectativa é que a próxima pergunta do empregado de mesa seja: “Quer da vazia,
lombo ou alcatra?” Sei que estou no sítio errado quando as expectativas são
defraudadas pela pergunta: “Quer bem ou mal passado?” Sem me poder considerar
mundano, sou suficientemente rodado para perceber a diferença, tanto de
qualidade como de preço, entre as duas perguntas. Apesar de cair pontualmente
na tentação da mixórdia de gordura e farinha, com um picle, a que chamam eufemisticamente
fast
food, não considero tais sucursais de consumo, restaurantes. Porque,
por todos os parâmetros, não o são. Muito me admira a existência de quem os
considere como tal. Pior, quem os considere de nível. A ponto de levarem a
família ou os amigos a comer lá por ocasião de celebrações festivas. Datas
especiais que ficam marcadas por fezes quase líquidas, não é propriamente
compatível com o apreço que tenho pelos meus e os que me são próximos. Prefiro
assinalar esses momentos de forma mais sólida e consistente. O facto de tais
estabelecimentos serem percebidos por alguns, muitos, como restaurantes de alto
gabarito e qualidade, diz muito, senão tudo, sobre o patamar social de
determinada região. Referi “social” excluindo propositadamente o “económico”
porque de facto, não tem nada a ver com poder económico, dinheiro. E tudo a ver
com informação, educação e cultura. Perfeitamente capazes de ir passar férias
com a família a um paraíso tropical, e, comer sistematicamente a tal mixórdia
de gordura e farinha, com um picle, porque são férias. Já basta as limitações a
que se sujeitaram o ano inteiro para conseguir uma semanita de liberdade, vamos
lá gozar isto à grande. Lanchar um par de maçãs e visitar o museu Carlos Reis,
passear pela avenida e ler um livro na biblioteca Gustavo Pinto Lopes, é para
quem gere os recursos mediante outras prioridades. É uma realidade social e não
económica. Por esta perspetiva, entendo ser de grande responsabilidade
governativa, um ordenamento urbano que coloque macieiras à volta das escolas (impraticável
porque a política camarária é adversa às árvores) e os hidrocarbonetos saturados
fora do alcance fácil de quem, sujeito às pressões de integração social e
afirmação de personalidade próprias da juventude, ainda não sabe escolher bem.
Em tempos decidiu-se que num raio de X metros à volta de uma escola, não
poderiam existir salões de jogos. Serviram todas as justificações baseadas na
saúde (nessa altura podia-se beber álcool e fumar em todo o lado) assim como a
vulnerabilidade infantil e juvenil na exposição ao jogo e outros vícios. Apesar
de nenhum jogo de snooker causar
diabetes nem uma jogatana de flippers causar
obesidade mórbida, concordei com o princípio. Como consequência, houve
investimentos sem retorno, postos de trabalho perdidos, áreas de negócio
inviabilizadas. Assumiu-se este custo por um bem comum, superior. Para muita
pena minha, estes valores não são refletidos na gestão autárquica atual.
Perderam-se. Ou melhor, venderam-se. A troco de meia dúzia de postos de trabalho
precário, a troco do que é popular, a troco do que é nefasto. Não duvido que
haja retorno em votos. Retorno líquido, certamente.
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