Jornal Torrejano - Nº 1097 - 23/10/2020
É um pássaro!? É um avião!? Não! É o Super Mercado!!
Corria o distante ano de 1987 quando foi inaugurado o segundo hipermercado em território nacional, na Amadora. O primeiro foi em Matosinhos, em 1985, mas por causa da pronúncia do norte, foi mal interpretado e a malta não ligou. Os torrejanos, sedentos de modernidade, apressaram-se a ir à Rodoviária Nacional, que hoje é um monte de entulho vedado por um muro para não ferir suscetibilidades, alugar uns autocarros para excursionarem probatoriamente a novíssima coqueluche do consumo, tudo muito cosmopolita, claro. Mal o sol se erguia, estavam todos de mala vazia na antiga garagem dos Claras, que hoje é… Bom, ninguém sabe muito bem o que é aquilo, por isso chamemos-lhe “a coisa” que assim toda a gente percebe, para partirem rumo à capital, a cidade da Amadora, com o intuito de encher a mala, alguns, ver as vistas, outros. Lá, nesse destino de sonho, descobriram as mais recentes novidades que só a modernidade e o progresso poderiam oferecer. Deslumbrados com tanta luzinha, tanta corzinha e o ritmo frenético com que tudo se processava, compraram laranjas do Pafarrão, doces e suculentas. Figos de Torres Novas, enormes e brilhantes como se tivessem sido encerados. Garrafas de bebidas espirituosas, temperadas com álcool destilado em Torres Novas. Rolos de papel higiénico, macio, dupla folha, imaculadamente branco, fabricado na Zibreira. Álcool em gel fabricado nas Lapas (não viesse para aí uma virose qualquer e, mais vale prevenir que remediar). Azeite virgem, fabricado a partir das azeitonas do concelho de Torres Novas. E outros artigos igualmente raros.
Quando as malas já estavam cheias de todas estas iguarias,
apenas acessíveis aos que heroicamente se aventuraram na expedição, regressaram
ao burgo com as palas dos autocarros a arrojar pelo chão. Chegados cá, do alto
da sua recém adquirida urbanidade, esfregaram na cara dos conterrâneos, saloios
cobardes, que não se interessaram pela aventura da expedição ao progresso, toda
uma experiência transcendente, a roçar o religioso. E feitas as contas,
considerando o custo da viagem, os bens de consumo terem ficado pelo dobro do
preço, não fazia mal nenhum. No dia seguinte, na Amadora, as prateleiras foram
repostas com indiferença por indiferenciados. Em Torres Novas, o rio Almonda
recebeu os bens de consumo, depois de processados pelo aparelho digestivo dos
torrejanos, nunca mais se recompondo do trauma até aos dias de hoje. Dizem as
lendas desses dias longínquos, acerca da profundidade do impacto desta heroica
expedição que, houve homens feitos, de barba rija, a jurar de lágrimas nos
olhos que, se um dia Deus permitisse a vinda de tais supermercados para Torres
Novas, cairiam de quatro, esticavam a língua e ficariam de cauda a abanar,
arfando em êxtase.
Não sou aventureiro expedicionário, talvez por isso me ecoem
na cabeça as palavras do meu avô: “Não sirvas quem nunca serviu”.
Vou reforçar o que já tinha reforçado. Fazes o trabalho de casa quando escreves. É um facto. Os teus leitores entendem!? Os leitores que gostam e mesmo os que não gostam, entendem. Os outros, os que só gostam de títulos, não acredito que entendam. Repara só nos títulos que deste às crónicas: ‘Mais rápido que a própria sombra’; ‘Para quem é, bacalhau basta’, ‘É um pássaro!? É um avião!? Não! É o Super Mercado!!’. Mas melhor que os títulos, é a tua análise ao assunto.
ResponderEliminar