Jornal Torrejano – Nº 1108 - 09/04/2021
As árvores morrem de qualquer maneira e feitio.
Comemorou-se a 21 de Março o dia da floresta. O Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) resolveu assinalar a data disponibilizando 50.000 árvores gratuitamente à população. Quem as quisesse plantar, teria de se identificar, inscrever, levantar a árvore (até um máximo de dez árvores por pessoa) e, num prazo de 48 horas, declarar o local onde plantou documentando com fotos. Excelente. Tudo espécies autóctones e o número de árvores disponibilizadas subiam para 100, caso se destinassem a propriedade rural. Duplo excelente. Além da ação em si ser louvável e, aparentemente bem estruturada, interpreto no subtexto uma preocupação, também ela do lado da solução. A preocupação com a responsabilização e a continuidade. Não foi uma coisa à toa, tipo: “está aí, sirva-se, andor”. Talvez seja indicador de uma consciencialização, a correr atrás do prejuízo diga-se, mas pronúncio de melhores dias. Dias mais eficazes e produtivos que deem a oportunidade à árvore de crescer e se tornar numa… árvore. Em vez dum galho seco, num vaso esquecido em cima do frigorífico.
A Câmara Municipal, por via do programa “Floresta Comum” onde o ICNF é parceiro, recebeu 10.000 árvores destinadas a terrenos públicos. Excelente. O grosso da coluna das candidaturas a este programa destinam-se a rearborização de área classificada e área ardida, apenas 8% são para floresta urbana, o pulmão das cidades. Não excelente. É um número demasiado baixo para ser animador. Conversão para espécies autóctones e recuperação de área ardida destacam-se como uma nódoa. A aparente irrecuperabilidade do pinhal de Leiria e eucalipto até à linha do horizonte, são testemunhas de um sistema avariado, que consome, polui, sufoca o que é de todos, remetendo para o campo cívico a responsabilidade de contrariar o mau funcionamento. Cada vez mais a área urbana é gerida com inclusão de espaços florestais e hortas comunitárias, alternativas mais eficientes aos jardins de flores meramente decorativos, consumidores ávidos de água e cuidados. Visto a Câmara Municipal possuir uma preferência declarada por espaços decorativos e, precedente no desleixo de espaços verdes, deposito a minha esperança nos mecanismos de monitorização do programa “Floresta Comum” para que nada fique esquecido, como ficou ali para os lados da Vila Cardilium. Não se resume a um vaso esquecido em cima do frigorífico. Não se trata do dinheiro deitado à rua. Trata-se de responsabilidade e credibilidade que escasseiam. Ficamos sem saber ao certo o número de plantas, são mais de 10 mil, dizem. Ficamos sem saber quantidades ou percentual entre árvores e arbustos, desde 1 árvore e 9.999 arbustos ao inverso, tudo é possível. Ficamos sem saber a que locais se destinam exatamente, vão ser distribuídos por uma área total de 50km2 e, ficamos assim. Na realidade, a única informação possível de extrair é: Mais de 10 mil plantas vão ser distribuídas por 50km2. É só. O que devia ser transparente, torna-se opaco. Se isto se passasse num jornal, seria mau jornalismo. Sendo num comunicado da Câmara Municipal, é mau quê? Mais árvores só é boa ideia se for para os netos e bisnetos usufruírem da sombra. É estranho ter de ser um gajo sem descendência a recordar isto.
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