Jornal Torrejano – Nº 1119 - 24/09/2021
Cara Doçaria Regional.
Dois presidentes consecutivos resolveram ignorar deliberadamente um problema. Os problemas quando ignorados tendem a agravar-se. Hoje, vamos pagar meio milhão por algo, se resolvido atempadamente, custaria uns milhares, poucos. Além do termo “responsabilidade civil” que me ocorre automaticamente, a relação com as leis que Arthur Bloch tão bem reuniu, dando os devidos créditos ao autor original, Murphy, sobrepõem-se por assentarem como uma luva neste infeliz, e caro, episódio. Senão vejamos:
“Sendo-lhe dado um mau princípio, um problema crescerá a uma taxa exponencial.”
Pela atitude inicial de desresponsabilização e subsequente postura de indiferença. Verifica-se.
“Qualquer problema simples pode ser tornado insolúvel se se fizerem suficientes reuniões para o discutir.”
Pela propaganda difundida pelos responsáveis, a preocupação ao longo das décadas que entretanto passaram, foi constante, logo imensas reuniões. Verifica-se.
“Quando os remédios do estado não se adequam aos problemas, devem mudar-se os problemas, e nunca os remédios.”
É época de eleições, prometo tudo a toda a gente, também prometo resolver isto. Por meio milhão. De acordo? Ora então, tomem lá uma ciclovia (a sério, parem lá com isso, já não tem piada) e um elevador para o castelo. Verifica-se.
Aqui há uns anos, depois da queda do muro de Berlim, um cidadão comum, empreendedor, começou a vender pedacinhos do muro como souvenirs. O negócio prosperou, até apareceu na Forbes. Rápidamente qualquer muro, com grafitis só de um lado, em Berlim ou nas imediações, foi desfeito aos bocadinhos para alimentar um mercado paralelo, a aproveitar a onda. Os originais passaram a ser embalados, numerados, com certificado de autenticidade. Mas o sentido de oportunidade venceu. Enquanto houver muro, há negócio.
Por cá, a malta tentou copiar o modelo, mas houve algo que escapou. A coisa não funcionou como esperado.
Passo um: Atirar muro alheio abaixo. Feito.
Passo dois: Ora gaita. Não tem grafitis.
Passo três: Esquecer o assunto. Deixar passar duas décadas.
Passo quatro: Ah! Isto tem dono? Pronto… Pago meio milhão. Mesmo destruído e sem grafitis.
Os berlinenses, ainda há mais tempo atrás, foram chamados de bolos de pastelaria, Bolas de Berlim, pelo líder máximo do capitalismo nessa altura. Não levaram a mal, até acharam piada. Riram-se muito. Uns anitos depois, estavam a negociar o muro que vedava o capitalismo à outra metade, em frações muito pequenas, a um preço acessível, a clientes de todo o planeta. Nem os Pink Floyd foram tão longe na ironia. Em Türme Neue, os Bolos de Cabeça, aplaudem outros Bolos de Cabeça, que apregoam ruidosamente promessas avulso pelas ruas, o paraíso na terra e outras maravilhas. Ninguém concebe que, uma confusão menor, uma mera e insignificante inversão na interpretação entre, “vender entulho barato” e, “comprar entulho caríssimo”, poderá abalar a convicção dos Bolos de Cabeça. Daí, seguir a festa. Talvez se aparecer alguém do lado de fora a chamar-lhes “Bolos de Cabeça”, abale as convicções e os desça á terra. Vale a pena tentar, na pior das hipóteses riem-se muito.
(Entre aspas: A Lei De Murphy, Arthur Bloch, Edições Temas da Actualidade S.A. 1994, ISBN 9727480009)
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