Jornal Torrejano – Nº 1120 - 8/10/2021
Ressaca.
Após as eleições autárquicas e, conhecidos os seus resultados, li on-line algumas tentativas de pseudojornalismo, outras tantas opiniões de pretensos analistas políticos e, também, algumas declarações de vencedores e vencidos. Ah! Espera. Não houve vencidos. Ganhou a democracia, segundo dizem. Quando quase metade dos eleitores se esteve borrifando para exercer o seu direito, eu diria que há vencidos sim e, não foram poucos. Preocupa-me que este facto não seja um problema, uma prioridade para os vencedores. Nem para os pseudojornalistas e pretensos analistas políticos. Neste cenário, dificilmente descortino a democracia como vitoriosa. Para o que escrevo a seguir, apesar de ter feito as contas numa folha de cálculo (com dados obtidos on-line) para o efeito desta crónica, arredondei bastante e, os números apresentados, são uma mera aproximação. É mais prático. Vejamos: A abstenção a nível nacional passou os 46%. Num universo de eleitores de cerca de 9,4 milhões, são 4 milhões de abstencionistas. As audiências nos canais de televisão para a cobertura das eleições, andou à volta de 5 milhões de espectadores. Partindo do pressuposto, quem vota tem interesse em saber quem ganha, bate certo. Por exclusão de partes, há 4 milhões de eleitores desinteressados, sem votar. Não há recenseamento nem sondagem a desmentir ou confirmar o preconceito que, o abstencionismo tem origem na indiferença ou na iliteracia política. A abstenção é também ela uma manifestação política. Sustentada por eleitores que não consideram válida a totalidade da oferta no painel, ou das regras do jogo sequer. Sem dados, só podemos conjeturar. É uma leitura possível, pelo menos. A abstenção em Torres Novas foi um pouco abaixo da nacional, 43%. Para um universo de 30 mil eleitores onde apenas 17 mil são votantes (dados de 2017), significa 13 mil abstenções. Quem ganhou, maioria absoluta com menos de 8 mil votos, na sombra de 13 mil abstenções, teve como bandeira, entre outras qualidades anunciadas, a proximidade. Ser próximo de metade da metade, é como aquele fulano que estava morto. Mas era só um bocadinho. Não fazia mal. Quase nem se notava. Senhores vencedores, deixem-se estar quietinhos. Já é tradição, por isso não se vai notar rigorosamente nada. Quase metade não vos vai exigir responsabilidades nem pedir por contas. Conhecem o futuro, já sabem no que vai dar, limitam-se a ir planeando a fuga, se não o fizeram já. A outra metade vota. Metade dessa metade, vota precisamente em vós. Identificam-se claramente os benefícios de, e para, a democracia. Instalou-se a ditadura da maioria de 8 mil sobre 30 mil. Para acontecer e se perpetuar, é do interesse dos poderes vigentes que o abstencionismo se mantenha, cresça até. É como pescar num barril, não tem como errar. Embora o próprio INE aponte a emigração para justificar a diferença entre eleitores e votantes (850 mil a nível nacional), festeja-se. Embora se ouçam avisos sonoros e luzinhas vermelhas a piscar a alertar para o perigo dos absolutismos, festeja-se. Pela democracia, afirmais vós, enquanto o número de peixes no barril continua a diminuir. Estou tentado a sugerir outra opção que não o ficar quietinho: servir todos. A definição de cargo público: servir a comunidade, toda a comunidade. Conceito ousado, não é? Implica trabalho. É melhor não. Os ilustres senhores não estão habituados, vai dar asneira. Como já deu antes. Ter mão nos subordinados, filtrar o que proferem em público, escrutinar detalhadamente os projetos e sua utilidade, o enquadramento dos equipamentos na comunidade, supervisionar as obras que propõem e executam, tem-se vindo a revelar uma dificuldade. Agora, uma impossibilidade. Sublinho o ponto negativo que o resultado destas eleições trouxe: o silenciar das vozes discordantes que, punham em causa, questionavam, e bem. Ficámos mais pobres. Por outro lado, também ficámos a saber que 2880 torrejanos ainda devem favores ao monarca anterior. O tal que ia ganhar isto. Só que não.
Fontes de dados: Pordata, INE, RTP, SIC, TVI, Expresso, Público
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