Jornal Torrejano – Nº 1127 - 21/01/2022
Com o fogo não se brinca.
Uma das maiores catástrofes, senão a maior, que atingiu Portugal, foi o terramoto seguido de tsunami em 1755. Assim, resumido num parágrafo, somos levados a pensar que, derrocadas de edifícios e subida abrupta das águas seriam os principais fatores a causar vítimas. Não. O elemento que causou mais vítimas foi o fogo. Na época, iluminação e aquecimento eram feitos com fogo vivo e brasas. A vincada presença católica no país, impõe um número elevado de locais de culto, onde as velas são características, contribuindo para a origem de focos de incêndio. Um inexistente ou deficiente planeamento urbanístico ajudou à rápida propagação. Ruas estreitas, edifícios muito próximos uns dos outros, negam tanto a fuga como acesso de ajuda. Num histórico e polémico movimento político, aproveitou-se a oportunidade da reconstrução de forma racional, planeando um futuro urbano com menos riscos. A oportunidade de repensar e refazer de forma mais segura e eficiente o ambiente urbano voltou a acontecer aquando da segunda guerra mundial. Várias cidades obliteradas ou gravemente danificadas pela guerra foram reconstruídas com ruas mais largas, acessos mais fáceis, melhor distribuição de água, descentralização dos meios de socorro. Para o bem e para o mal, não participámos, ficámos de fora e consequentemente fiéis às inovações do marquês de Pombal. Inovações com duzentos anos. Entretanto, os materiais de construção civil e fabrico de recheio sofreram alterações radicais. A madeira usada na altura, combustível, foi substituída por materiais sintéticos derivados de petróleo, muito mais inflamáveis. Agora, não lidamos com fogões a lenha, braseiras e velas. Lidamos com gás canalizado, corrente elétrica e plástico, muito plástico. Aumentou o perigo de incêndio mas não ocorreu restruturação do planeamento urbano e meios de socorro a acompanhar. Não é um problema exclusivamente nosso, acontece por todo o mundo. Por exemplo, em países evoluídos, as corporações de bombeiros têm na sua posse, além de plantas atualizadas, a memória descritiva dos materiais usados na construção dos edifícios, de modo a ser possível planear em segurança uma eventual intervenção, evitando envenenamento por gases tóxicos assim como providenciar apoio imediato e encaminhamento adequado às vítimas. Em casos extremos, no limite, as boas práticas são: Deixar arder, mantendo uma distância segura. Preservar a integridade física do socorro é prioritário. Se o socorro cai, quem resta para socorrer? A esta “nova” realidade acresce os edifícios devolutos. Que, mais crise económica menos crise económica, têm tendência para crescer em número. Nos USA, do mais de meio milhão de incêndios urbanos por ano, 6% têm origem em edifícios devolutos. Causando cerca de 50 mortes e 700 milhões de dólares de prejuízo. Por ano. A análise dos dados relativos a incêndios originados em edifícios devolutos resultou na obrigatoriedade de esvaziar por completo o recheio e remover todos os materiais com elevado grau de combustão, nalguns casos até a tinta das paredes tem de ser removida. Ninguém expropria ninguém, ninguém obriga ninguém a fazer obras de recuperação. Mas, a estrutura tem de ficar vazia, de modo a minimizar o risco de fogo, espontâneo ou intencional. Isto é nos USA. E nós por cá? O que está pensado para enfrentar esta “nova” realidade, em todas as suas vertentes? Perguntar não ofende, ouvi uma vez um brasileiro dizer. Isso é no Brasil. E nós por cá? Arriscando a perda de alguns amigos de Facebook, arriscando a incompatibilização com alguns amigos na vida real, arriscando o esfriar de algumas relações sociais, continuarei a fazer perguntas. Porque um centro histórico, mesmo desabitado e esvaziado de funções, continua a ser o centro da cidade.

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