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29/03/2022

Jornal Torrejano - Nº 1128 - A costa do medo.

Jornal Torrejano – Nº 1128 - 04/02/2022

A costa do medo.

A cultura do medo trouxe-nos aqui. A um estado de espírito onde perdoamos tudo e esquecemos o resto. É o preço a pagar pela manutenção das nossas vidinhas medíocres. Nada pode ameaçar a construção fictícia de segurança e estabilidade, o “felizes para sempre”. Um primeiro-ministro que cumpriu pena, reinventando-se depois como comentador e consultor de sucesso. Um ministro que, subjugado à petulância do seu motorista, atropela e mata na estrada. Um presidente de câmara e vereador, borrifando-se para o povo que os elegeu, literalmente deixa-os arder e, a seguir ainda os burla. Uma página de jornal é insuficiente para elencar todas as asneiras cometidas. Tudo perdoado tudo esquecido. Enquanto coletivo, queremos mais do mesmo. Qual casamento disfuncional, mantido a todo o custo como um carro velho e decrépito, porque “a este, já lhe conheço as avarias”.

Porquê? Porque temos medo.

Medo de um vírus que, só pode ser combatido com o governo certo, este. De voltar a viver acima das nossas possibilidades, de sermos forçados a emigrar, de assinar um acordo hidrográfico com Espanha, altamente penalizante para nós, só um governo o pode evitar, este. De uma direita fascista, tão organizada e credível que, só pode ser combatida com o governo certo, este. Do risco que a bazuca milionária se perca nos meandros da corrupção, defraudando idoneidade e distribuição eficaz, só um governo o pode evitar, este. Dos comunistas, pois podem construir uns gulags lá para os lados do Alentejo e Algarve, onde seres humanos escravizados seriam condenados a uma vida de trabalhos forçados, só um governo os pode impedir, este. Dos liberais que querem transformar o nosso paraíso à beira mar plantado num shark tank, onde os maiores comem os mais pequenos, só um governo os pode deter, este. De uma esquerda que quer condicionar os nossos filhos a serem fufas e paneleiros, enquanto assassinam os nossos queridos velhinhos nos lares onde os despejámos com a promessa de serem tratados que nem realeza, só um governo se atravessa no caminho deles, este. Dos defensores da natureza e dos animais, pois corremos o risco de soltarem touros bravos nas povoações, proibirem o abate de árvores, e pior: nos obrigarem a ir dar de comer aos patos no rio, só um governo os pode impedir, este. É muita coisa a meter medo. Se não for medo, será o quê? Ignorância, subserviência, cretinice, cobardia? Nunca. Só pode ser medo.

Uma interpretação do resultado das eleições, desprezando a redução da abstenção (pouquinho, mas baixou), é pautada pela diferença de meio milhão de votos entre a maioria absoluta e todo o resto. Três milhões de cidadãos (nada unidos, é certo) demonstraram estar suficientemente fartos do estado das coisas e das coisas do estado para votar no lado do medo ao invés do lado dos felizes para sempre. Mas numa coisa estamos (quase) todos de acordo: Não queremos comprar mais submarinos.




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