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01/04/2022

Jornal Torrejano - Nº 1131 - E=mC2

Jornal Torrejano – Nº 1131 - 18/03/2022

E=mC2

Aprendemos através de estudos recentes do genoma humano que, o povo ibérico é uma das maiores mixórdias genéticas no mundo. Derivado tanto a migrações por via terrestre, como pela localização geográfica, que nos coloca como porto de descanso e abastecimento para navegantes. Visitantes pontuais, invasores, conquistas territoriais, impérios civilizados, bárbaros menos civilizados, ao longo de milénios um pouco de tudo molhou a sopa por estas bandas. Tudo isto antes da época dos descobrimentos. Fomos primeiro recetores e, mais tarde, difusores do património genético acumulado, pelo globo inteiro, ou quase. Somos, provavelmente, o povo que menos argumentos tem para ser xenófobo. Essa coisa do pedigree, a nós, não se aplica. Talvez por estar ciente disso, a grande compaixão portuguesa ficou registada na história por um Aristides que meteu o pescoço no cepo para salvar de morte certa o número de judeus que conseguiu. No passado cronologicamente mais recente, passámos pela experiência de absorver (porque a expressão “integrar” não reflete a realidade do que se passou) os “retornados” das ex-colónias e, desde então, vamos igualmente absorvendo imigrantes nativos dos diversos países de expressão portuguesa em busca de melhor vida. Por ocasião da Expo 98 e, um pouco mais tarde, pelo campeonato europeu de futebol, a mão-de-obra estrangeira veio preencher uma procura que os locais, só por si, não conseguiam suprir. Muitos desses estrangeiros ficaram. Constituíram família, adaptaram-se, fixaram-se. Apesar de alguns ghettos pontuais, genericamente a malta integrou-se bem. Por sua própria iniciativa, pelos seus próprios meios. Tinha mesmo de ser porque, em termos institucionais, o apoio, os mecanismos para tal, foram praticamente zero. Infelizmente, não possuímos a visão necessária para identificar as mais-valias trazidas por esses “estrangeiros” e aproveitá-las para o bem comum. Desperdiçamos competências, saberes. No pós 74, os “retornados”, sobejamente mal recebidos, protagonizaram um salto evolutivo de mentalidades na sociedade civil, deram exemplos de trabalho, iniciativa empresarial, geraram riqueza, postos de trabalho, enquanto os que cá estavam temiam pelo seu mesquinho e miserável emprego. Pode-se pensar que serviu de lição. Não.

Na febre de parecer bem, registam-se iniciativas individuais na ajuda aos ucranianos a fugir da guerra, um pouco por todo o país. Brotam campanhas para angariação de bens, sem articulação, sem coordenação, sem identificação prévia de necessidades. Já houve casos de ajuda neste contexto que, chegados à Polónia, voltaram para trás por não haver necessidade. Tão rápidos a querer ficar bem na fotografia, mas lerdos em tudo o resto. Pior que isto, sim há pior, tem sido a relativização de todo este tema por parte de alguns esclarecidos. Ao Zé comum, não peço mais. Mas aos formados e esclarecidos? Não peço, exijo, mais. Traçam paralelos e fazem comparações nas respostas à guerra na ex-Jugoslávia, à guerra na Síria, à constante postura bélica dos Estados Unidos no mundo. Relativizam, também eles, para parecer bem. Para passar a imagem de especialistas em geopolítica, para passar a imagem de detentores dos mais elevados padrões morais, chamando hipócritas e cínicos a quem acha boa ideia ajudar os ucras. Porque são brancos, loiros, de olhos azuis, ao invés dos outros, morenos, com religiões esquisitas, inferiores. Pela equação de Einstein, são rápidos, a roçar a velocidade da luz. Têm muita energia e, como tal, pouca massa. Pouca massa cinzenta.




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