Jornal Torrejano – Nº 1132 - 08/04/2022
(in)Gratidão.
Algumas figuras torrejanas que, infelizmente já não se encontram entre nós, tiveram papéis importantes em diversas áreas. De uma forma ou de outra, influenciaram positivamente gerações. Nas artes, no desporto, na comunicação, no ensino, na ação social, fizeram e concretizaram. Pautaram a sua vida pela dedicação à causa sem alarido ou necessidade de chamarem a si a atenção da generalidade do público. Trilharam o seu caminho com talento, competência e dedicação, sem golpes publicitários, sem o nome em painéis de azulejo. A sua conduta fala por si, o trabalho feito é suficiente. Alguns deles, talvez por possuírem uma costela boémia, ou, recusarem alinhar no paradigma do beija-mão, foram varridos da memória coletiva, enxovalhados até, pelo puritanismo torrejano. Pertenço à geração que, em jovem, foi positivamente influenciada por algumas dessas figuras. Custa-me perceber a ausência de reconhecimento institucional, zanga-me o sistemático desprezo pelo legado, pelo papel positivo que tiveram. Entristece-me testemunhar o lugar vazio que deixaram. A sociedade torrejana, tão cheia de valores e princípios, tão militantemente católica, tem sido incapaz de produzir substitutos à altura. No entanto, à falta de melhor, exorta-se o banal o medíocre. Quem soube ser boémio numa privacidade muito reservada muito exclusiva, quem alinha no beija-mão voluntariamente, recebe destaque gratuito. A realidade é mais estranha que a ficção.
Uma das figuras que se destacou, pela dedicação, pela competência, pelos resultados e, acima de tudo caracterizada por uma vontade indómita, foi homenageada institucionalmente. Tudo bem, se a ideia original para essa homenagem não tivesse sido usurpada a outrem. Um aproveitamento de baixo nível, uma falta de carácter assombrosa. Com esta atitude fizeram questão de macular uma celebração merecida, justa. Uma vergonha.
Mas, como a memória é curta, rapidamente este episódio cairá em esquecimento e o que conta é o painel de azulejo. Saber usar a limitação da memória e o impacto da propaganda para proveito próprio, é tão intrínseco à política que ninguém estranha. Já ninguém sabe o que é feito do Cherne, nem do movimento de escalada profissional que protagonizou, desdenhando o povo que o elegeu assim como o sistema, democrático, que permitiu executar o truque tecnicamente dentro da legalidade. Como também já ninguém se lembra como é que o Costa chegou ao cargo que ocupa. Os cargos vão sendo passados de mão em mão mediante conveniência. Trata-se a democracia como se fosse uma cerveja: Olha… Guarda aí a minha imperial enquanto eu vou à casa de banho. Sólon dá voltas na sepultura.
Neste campo, há precedente na autarquia torrejana e, os indícios são no sentido de repetição. Ou não estivesse em curso uma operação de contratação de recursos a granel para os quadros da Câmara Municipal. Sem justificação da gestão de RH, sem justificação de necessidade operacional, contrata-se porque sim. Aparentemente, alguém anda a pagar favores, a cumprir com promessas, enquanto os restantes assobiam para o lado ou, nem sequer estão presentes, como convém. Uma exceção confirma a regra, ainda assim, talvez justificada pela inexperiência, louvo-a. Deixar a casa arranjada e lavadinha é o que se faz quando se a vai passar para as mãos de outro locatário. Evitar reclamações futuras, principalmente aquelas que são passíveis de comprometer o carácter e imagem pública. E, espalhar propaganda o máximo que se puder. Até usar os canais de comunicação oficiais da instituição para promover um programa de televisão de um canal privado onde quem manda, é o irmão do Costa. Tudo da mesma cor, tudo bons rapazes. Aguardar debaixo da mesa que caia uma migalha de gratidão é exclusivo aos fiéis, aos talentosos e competentes resta trabalhar.

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