Número total de visualizações de páginas

07/10/2022

Jornal Torrejano - Nº 1144 - In absentia Dei

Jornal Torrejano – Nº 1144 - 07/10/2022

In absentia Dei

Apesar de andar escarrapachada na comunicação social há anos, existe uma tolerância silenciosa revoltante da sociedade civil aos abusos sexuais e pedofilia praticados dentro da igreja católica pelos seus representantes. A política interna para lidar com estes casos aberrantes foi de encobrimento, desvalorização, negação. A instituição não reagiu em obediência às leis de cada país onde se registaram as ocorrências, preferindo uma postura de conivência com os criminosos. Tão aberrante ou mais que isto, é a atitude subserviente dos acólitos. Bastaria um caso singular isolado para vincular moralmente qualquer cidadão católico a confrontar o seu pároco local e exigir que este transmitisse à escala hierárquica a insatisfação com a prática criminosa. Ou a igreja não é toda a mesma? Aparentemente, os padrões morais, valores e princípios propagandeados, são para os outros. Porque não se registou em nenhuma paróquia uma manifestação, uma voz singular ou coletiva a exigir justificações e justiça junto do representante mais próximo da instituição, ao alcance do povo? Assim, foram são e serão, todos, coniventes com o crime. Mediante as informações vindas a público recentemente, este problema não é exclusivo “dos outros”. Existe cá. Com crianças portuguesas, com padres portugueses. E os católicos continuam a frequentar a missa dominical, a andar de crucifixo ao peito, como se nada se passasse.

É patente uma ausência de sentido de responsabilidade na sociedade civil que se alastrou a toda a sua orgânica. Cometem-se asneiras atrás de asneiras de forma descarada e sem medo de consequências. Porque na realidade, as penalizações por tais comportamentos são leves ou nulas. Uma palmadinha na mão, quando muito. As gloriosas e autodenominadas elites, compram cursos superiores sem nunca terem assentado o rabo numa aula, como se as universidades fossem supermercados. Loja de conveniência se calhar é a expressão mais adequada. Para eles, os tribunais tornam-se a imagem da flexibilidade quando inquestionavelmente apanhados com a boca na botija. Ou a 160kmh na autoestrada. Subitamente, chegar uns minutos atrasado a uma reunião, torna-se assunto de estado, fechado num segredo de justiça hermético, exclusivo de alguns.

Já passámos há muito tempo o paradigma da maçã podre. É o cesto que está podre, infetando toda e qualquer saudável maçã que lá caia dentro. A democracia, imperfeita mas, o melhor sistema que temos, é sujeita a maquinações onde vale tudo. Como se tem visto em diversos casos pelo mundo inteiro, até os mortos votam. Cá pelo burgo, menores votam. E votam sem saber que votaram. Confirmando a ausência de sentido de responsabilidade e a ausência de penalizações para a trafulhice, o partido, ciente do episódio por comunicação oficial, faz de conta que não se passa nada. O partido, torna-se assim indistinguível da religião. O padreco abusador, criminoso, transita para bispo, por trás das cortinas. É como a proverbial vaca em cima de uma árvore. Ninguém sabe como foi lá parar. Mas é de todo evidente que não pertence lá.




Sem comentários:

Enviar um comentário