Jornal Torrejano – Nº 1145 - 21/10/2022
Inconfidência oficial, confidência oficiosa
Típico de mentes fechadas, embrutecidas, atribuir maior importância ao mensageiro que à mensagem. A forma de comunicar, essa, está cientificamente tipificada. A fórmula usada pelo ditador alemão de bigodinho é a de maior sucesso. O recetor é influenciado maioritariamente pela postura, linguagem corporal, gestos e, veemência imprimida ao discurso. No fim, uns meros dez porcento da atenção do recetor, ou menos, são dedicados ao conteúdo. Resumindo, com a colocação de voz certa, com a postura certa, com a gesticulação certa, dá para vender o que quer que seja. A malta engole sem grandes questões. Os mecanismos cognitivos são assaltados por uma série de solicitações em simultâneo e o raciocínio crítico pura e simplesmente bloqueia. A publicidade, a propaganda, vive disto. Se observarmos auditivamente com atenção a publicidade televisiva, sem olhar para o ecrã, ou ao contrário, ver sem ouvir, uma fatia significativa dessa publicidade torna-se ridícula, carecendo de sentido. A Ideia é mesmo essa, bloquear o processo crítico e gravar o comando consumista no cérebro do individuo. Desativa-se a firewall e instala-se o malware.
Os políticos têm consultores para os formar neste género de desempenho. Mesmo um político menor, sem verba disponível para gastar em consultores, deverá ter absorvido esta metodologia por outras vias. Caso contrário, abre-se toda uma nova dimensão de incompetência profissional endémica, já de si gigantesca. Daí, ser algo estranho quando um político foge à fórmula de sucesso garantido e se põe a inventar o seu próprio método de comunicar. Perdão, vender o seu peixe.
O tema da poluição da ribeira da Boa Água, contaminação dos lençóis freáticos, saúde e bem-estar da população do concelho, cuja resolução estava a uns meros dez porcento de ser atingida, há dois anos, mais coisa menos coisa, voltou a ser endereçado pelo edil. Optando por uma forma de comunicar característica sua, que se situa algures entre a inconfidência pública e o secretismo oficioso, afirmou em reunião da Câmara, ter tido acesso a documentos com timbre do Fundo Ambiental, cujos conteúdos prometem mais de 800k para atirar ao problema. A parte do problema. Mas o edil ressalva: “…sem dados muito concretos…”(!). Então, são ou não são mais de 800k? Viu um número comprido a começar pelo algarismo oito e presumiu o resto? Em que contexto teve acesso a estes documentos? Estavam esquecidos em cima de uma mesa e passou por lá os olhos sem querer? Foi numa reunião de trabalho? No café? Onde? Com quem? Qual a ordem de trabalhos? Frutos secos azeite e só por acaso falou-se na Fabrioleo? Só viu a página do resumo financeiro? Não teve tempo para ler o plano de implementação sem ser apanhado? Não tinha datas? Estava assinado? Por quem? A APA? Afinal, que documentos são estes? Uma proposta? Um protocolo? Um acordo? Uma ordem judicial? Se são “dados não muito concretos”, esta comunicação deve ser interpretada como? Talvez declarações? Ficção? Diz que disse? Estava na hora de dar uma ajudinha ao vice para “lavar” a afirmação infeliz dos dez porcento e tentar mascarar uma nodoazinha? Afinal o que é que se passa, concretamente? Qual é o ponto da situação atualmente? O que será expectável a curto, médio, longo prazo?
Informação real: Zero. E assim se vai insultando a inteligência do recetor da mensagem. Sem o menor respeito pela população que representa, pelo ambiente, pelo futuro. Se é um problema que se vai arrastar ad eternum, sem solução, diga-o, assuma-o. Somos adultos, sabemos encaixar um “não”. Ou está a guardar a parte que realmente interessa para altura oportuna, em que possa maximizar dividendos políticos?
Talvez a sociedade civil, no exercício da cidadania, descortine soluções fora do alcance das instituições criadas e pagas para esse fim. Já vi coisas mais estranhas. Como por exemplo, um presidente de câmara em exercício oficial de funções, a fingir que está a contar um segredinho aos amiguinhos. Mas como não há nada de concreto, não vão contar a ninguém! Prometido?

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