Jornal Torrejano – Nº 1237 – 21/08/2026
Menos é mais. Do mesmo.
Num passado semirecente surgiu uma expressão que se popularizou, embora com alguns adversários. No original em inglês: Less is more. Menos é mais. Paradoxal á primeira vista, alude ás vantagens da simplificação. Claro que dependendo do contexto, pode ser instrumentalizada para iludir e manipular. No absoluto, mais é mais e, menos é menos. Foi nesta literalidade que os adversários da expressão se basearam. Mas, na realidade, por experiência na prática, a simplicidade é vantajosa. A perigosidade está, na redução de objectos complexos ao preto e branco. Outra expressão próxima será "o óptimo é inimigo do bom". Percebe-se perfeitamente o conceito funcional mas, não devemos permitir que ele nos iniba de perseguir a evolução no sentido da melhoria. Assim como o "menos é mais" não nos deve impossibilitar de compreender a complexidade por detrás de um único botão de liga/desliga.
O actual presidente de câmara foi durante largos anos presidente da assembleia municipal. O anterior presidente de câmara, é actualmente presidente da assembleia municipal. Ambos do mesmo partido, o partido que detém poder autárquico há três décadas consecutivas. Posto isto, torna-se pouco credível qualquer justificação baseada em ignorância. Se não sabe, é porque não quis/quer saber. Se está bom, se resultou durante trinta anos, para quê mudar? Menos é mais, verifica-se. O óptimo rejeita o bom, verifica-se.
Apesar desta evidência de continuidade e homogeneidade, o actual presidente (de câmara), insiste em tentar passar a imagem das caixinhas herméticas. Percebe-se que tenta inventar uma linha imaginária que separe um "antes" de um "depois". Eu sou do tempo das reuniões da Tupperware. Isto transporta-me para esse passado. Um grupo de donas de casa ociosas e de ego frágil a venderem umas ás outras caixinhas herméticas num ambiente artificialmente elitista. Se o produto era necessário ou funcional, não interessava para nada. O importante era o cabelo e as unhas arranjados, o vestido novo, o perfume caro, a casa imaculadamente limpa e organizada, os canapés saborosos de preferência exóticos, a simular uma experiência de vida mundana, lida numa revista feminina qualquer. Todas fingiam acreditar na encenação. Quem não comprasse nada nessas reuniões, ficava com o rótulo de "pobre" e era excluída de tão rica e fervilhante vida social. Calculo que hoje seja igual com as Bimby e Air Fryer. Se não for, na câmara municipal, é.
O juiz de qualquer mantra ou buzz word da moda, é a eficácia, os resultados. No caso torrejano, o único resultado é a manutenção do poder no mesmo sitio. Tudo o resto segue a desmoronar-se. A desertificação, o emprego precário, o urbanismo caótico, o delapidar das mais valias, o desprezo pelo ambiente, a corrupção patente nos serviços camarários (objecto de investigação pela Policia Judiciária), mais todas as promessas que ficaram lá no fundo da gaveta do congelador dentro de uma caixinha hermética.
Se hoje está ocupado a (tentar) resolver problemas com vinte anos, caro presidente, está a (tentar) resolver problemas do seu partido, que já existiam quando era, também presidente, mas de outro organismo autárquico. Não existe caixinha hermética de plástico que mude esta realidade. Para efectivamente existir uma linha a separar um "antes" de um "depois", é preciso resultados, são precisas evidências. Senão, resume-se a cumprir o protocolo que o seu partido cumpre há trinta anos, exclusivamente para se manter no poder. Continuem a vender caixinhas uns aos outros e a sentirem-se uma elite muito exclusiva por isso.

