Jornal Torrejano – Nº 1236 – 07/08/2026
Caderneta completa
Torres Novas está prestes a completar a caderneta. Faltava o Mercadona, ele aí vem. Acontece sempre uma sensação de excitação e plenitude quando finalmente o cromo em falta se revela ao abrir a saqueta. Claro que a defesa do comércio tradicional, argumento de vendas em várias campanhas e discursos, foi defendido heroicamente. Mas pronto... no fim, perdemos a guerra. Parece a selecção nacional de futebol. Promete-se, exulta-se, elevam-se os espíritos, e no fim, nunca ganha. O município criou condições para que os desempregados e falidos do comércio tradicional tenham uma hipótese de emprego nas grandes superfícies. A malta aplaude e dá palmadinhas nas costas uns do outros. O que seria de nós sem os políticos a zelar pelos nossos interesses? Como dizia o ébrio Vasco Santana, chapéus há muitos, ó palerma.
Como metade dos conformados está a regressar de férias, antes que se entusiasmem a comparar os escaldões com pedigree do Algarve com os escaldões rafeiros da costa oeste, convém domesticá-los para o regresso ao rengo rengo da rotina, onde vão existir durante mais um ano. Nesse sentido, a autarquia preparou dois workshops de regresso à normalidade: as piscinas que não abriram como prometido e, as obras do largo do Virgínia que não arrancaram como prometido. Assim o pessoal habitua-se imediatamente à rotina, aos velhos hábitos. Quando a outra metade dos conformados, a ir de férias agora, regressar, haverá novos workshops preparados. Muito provavelmente os mesmos. Porque a equidade também é palavra frequente nas campanhas e discursos. Há que cumprir com o prometido.
Entretanto, para quem não participou no êxodo sazonal e ficou por cá, além de manter o lugar na fila para tirar ticket habilitador a melanoma, porque rodeado de ingleses genuínos e franceses falsos na praia, ou a comer pó beber minis e a levar cornadas no campo, o sol é o mesmo, a festarola riachense meteu um visto nos quadradinhos todos. Num golpe de brilhantismo, o presidente da Câmara achincalhou duramente quem teve a ousadia de criticar o evento, de onde resultaram 4 feridos. Pagar bilhete para servir de objecto de diversão de um touro bravo, num evento apoiado financeiramente e institucionalmente pela Câmara, é incriticável, na opinião dele. Não satisfeito com este brilhantismo, decidiu incrementar lúmenes e ofuscar tudo e todos com a proposta de submeter a Festa da Bênção do Gado de Riachos à UNESCO como património imaterial da humanidade. Até à presente data, nunca nenhum país submeteu à UNESCO um evento onde estivesse incluído uma componente tauromáquica. A acontecer, esta será a primeira vez. De notar: nem Espanha, nem México, nem... NINGUÉM, teve a ousadia de submeter algo do género à UNESCO. Tinha de ser um cromo torrejano. Incrível. Apesar da UNESCO não ter uma posição definida em relação ao tema, grandemente porque nunca foram confrontados com tal coisa, a rejeição de todos os argumentos da causa animal, pactuar com a barbárie, ocupar a cadeira de pária num espetáculo/diversão que, à sua frente, enviou quatro seres humanos, um em risco de vida, para o hospital, é considerado boa ideia.
Percebem agora ao que me referia no início? Aquela injecção de adrenalina quando ao abrir a saqueta sai de lá um cromo raríssimo que completa a colecção? Tah dah!
