Jornal Torrejano – Nº 1130 - 04/03/2022
Da guerra e da água.
O meu avô materno, no desempenho das suas funções profissionais, foi uma única vez na sua vida a Torres Novas. Jurou nunca mais voltar. “Então porquê avô?” Perguntava eu que, ouvia as histórias de outros tempos contadas por ele e pela minha avó com toda a atenção quando ia passar o verão lá a casa. “Porque em Torres Novas tinha de pagar para os clientes ficarem com os meus produtos! Disse ao meu chefe que nunca mais lá voltava! E assim fiz.” Isto aconteceu algures pela década de 1930. Pouco tempo depois, veio a guerra. O senhor que mandava nisto, disse que nos livrava da guerra mas não da fome. Numa altura em que a agricultura de subsistência era a principal atividade no país, prometer (mais) fome, foi de líder.
De facto, o lucro do negócio não reside na
venda. Reside na compra. Daí, esfolar o fornecedor, ser condição obrigatória
para fazer bons negócios. O conceito de “um bom negócio é um negócio onde todas
as partes ficam satisfeitas”, não estava presente. Noventa anos depois, ainda
não está. Mas a guerra está. Outra vez. Se é que alguma vez cessou.
Para um país que depende das importações para praticamente
tudo, exceto rolos de papel higiénico, impor limitações à importação de bens
oriundos da Rússia como medida de retaliação à invasão da Ucrânia, traduz-se na
dificuldade em encontrar vodka e caviar nas prateleiras do supermercado. Bens
de primeira necessidade. A população tem razão para estar preocupada. Hoje,
mesmo que quiséssemos soubéssemos, a agricultura de subsistência não nos iria
safar. O alcatrão, o cimento, o eucalipto, a poluição, a Monsanto/Bayer, a
escassez de água, levaram praticamente à extinção toda a produção agrícola que
não seja feita por métodos intensivos, artificiais. Dependemos do resto do
mundo para quase tudo. Exceto limpar o cú. Numa realidade destas, uma guerra, é
preocupante para além dos horrores e dramas das vítimas diretas, tem
implicações globais. Não é um espetáculo de entretenimento televisivo
inconsequente, longe da nossa casa com atores anónimos.
A ilustrar a escassez da água: A malta do
festival da lampreia queixa-se que não há lampreia. Porque o rio Tejo vai com o
caudal de um ribeirinho e demasiado poluído. No entanto, afirmam que o festival
se irá manter, nem que tenha de ser com lampreia importada de França. Que modelo
vai ser adotado para o negócio da lampreia? Aquele onde todas as partes ficam
satisfeitas, ou o outro. Aquele que implica esfolar alguém? A necessidade não
se compadece com negócios éticos. Se precisas mesmo, é vital, não há volta a
dar… Vais ser esfolado por quem vende o que precisas. As condições dos negócios
são dinâmicas, voláteis por vezes, diretamente relacionadas com a necessidade,
com a dependência. Em guerra não existe ética em lado nenhum e, como escrevi atrás,
somos dependentes do resto do mundo para quase tudo. Vamos ser (mais)
esfolados. Mas de cú limpinho. É preferível ter o rabiosque limpo com papel da
Renova do que usar o bidé. Desperdício de água fica muito mal visto à data de
hoje. End-to-end, ou seja, no
processo completo, desde o cultivo do eucalipto á folha de papel duplo,
azul-bebé, com aroma a alfazema, quantos litros de água são consumidos? Mais
que no bidé? Pois…
O desprezo ou incapacidade ou incompetência,
venha o diabo e escolha, que a Câmara Municipal tem dado continuadamente à
gestão dos recursos hídricos, tanto no tema Renova/Rio Almonda, como no tema
Fabrióleo/Ribeira da Boa Água (irónico não?) e lençóis freáticos, a manter-se o
cenário de guerra global que se perfila no horizonte, virá a julgamento de
forma natural e bem mais rápido do que se possa pensar. Quando a necessidade,
vital, sem volta a dar, nos bater á porta, veremos se o vendedor de água
potável tem vontade de regressar a Torres Novas para fazer negócio. E em que
moldes.

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