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03/03/2022

Jornal Torrejano - Nº 1102 - Coltur… Quoltur… Coultur… Hábito.

Jornal Torrejano – Nº 1102 - 08/01/2021

Coltur… Quoltur… Coultur… Hábito.

A arte pode dividir-se em dois grandes grupos. A arte comercial e, a arte não comercial. A não comercial, por se reger pela criatividade, originalidade, inovação, profundidade, talento e virtuosismo, acaba por ser a produtora de matéria-prima para a arte comercial, regida essa pelas leis de mercado. Por vezes o contrário também acontece. Um objeto artístico nascido na arte comercial pode eventualmente deixar a sua marca na arte não comercial por mérito próprio, ou seja, por se evidenciar obedecendo aos mesmos parâmetros. Mesmo que seja um flop de vendas (habitualmente, é). Não são universos estanques. A criação pura e livre, verdadeiramente independente, isenta de objetivos financeiros, também precisa de pôr pão na mesa, daí a necessidade de mecenato. Ou acontecem os diversos exemplos históricos de génios que morreram na miséria por ousarem criar como atividade exclusiva, sem qualquer apoio. Para junto de uma gravitam as mentes curiosas, irrequietas e muitas vezes irreverentes, para junto da outra o consumo descartável, superficial e frívolo. Mas ambas constituem cultura. E a cultura, por definição, tem de ser cultivada.

Um sistema fechado produz sempre os mesmos resultados. A mesma matéria-prima e os mesmos processos resultam sempre no mesmo produto. Para um resultado diferente, ou se altera a matéria-prima ou se alteram os processos. Uma sociedade ou civilização que não incorpora o novo, o diferente, não evolui e está condenada a perecer. Quanto mais não seja, de tédio. Apostar tudo na arte comercial, dar ao povo aquilo que o povo quer, em detrimento do novo, diferente, mesmo que estranho e desconfortável à primeira vista, é o mesmo paradigma. É fechar o sistema. No imediato é imensamente popular, é a zona de conforto da maioria, mas, no longo prazo conduz à asfixia intelectual generalizada. Tirando algumas raras e honrosas exceções que exibem um amor enorme à camisola e um sentido admirável de dever cívico, é aqui que a oferta cultural torrejana está. Os critérios de seleção são claramente simples. Resumem-se a escolher qualquer coisa que tenha aparecido num qualquer programa da manhã na TV, apresentando-o como conteúdo de elevado valor cultural à populaça que o engole sem ser preciso mastigar. Viva a festarola.

Na mesa ao lado, um grupo de fans de Stockhausen, após devorar uma sandes de porco no espeto e vários jarros de sangria, fica trinta minutos em silêncio com um sorriso nos lábios. No fim, batem palmas que nem loucos. Lá mais ao fundo noutra mesa, seis imperiais em copo de plástico e dois pães com chouriço quentinhos animam uma acalorada discussão acerca de Vertov e a influência do construtivismo soviético nas técnicas de montagem e edição atuais. No tabuleiro da praça, alguém já bastante alcoolizado tenta reproduzir um Basquiat com cálices de chocolate da ginginha de Óbidos. Ébrios da cultura que têm, desdenham a cultura que não têm, sem refletir sobre a cultura que querem ter.

É frequente ouvir dizer que “em equipa que vence, não se mexe”. Pois… Mas o problema é que o campeonato onde esta equipa vence, é o campeonato da aldeola. E Torres Novas já é cidade há uns anitos.




02/03/2022

Jornal Torrejano - Nº 1101 - Quatro e meia. Está na hora.

Jornal Torrejano – Nº 1101 - 18/12/2020

Quatro e meia. Está na hora.

Aqui há uns anos, a maior empresa de refrigerantes do mundo estava a ver a sua quota de mercado a ser reduzida e, consequentemente, os lucros a diminuir. Situação intolerável para os acionistas. Decidiram colocar um determinado fulano como CEO para inverter a situação. O êxito foi imediato, os lucros como por magia regressaram. Algum tempo decorrido, os acionistas tomaram conhecimento do método empregue: perante o relatório trimestral, indiciando descida de receita, o CEO despedia funcionários e fechava unidades da empresa, cortando assim despesa, de modo a que no fim do ano as contas prestadas apresentassem lucros. Imediatamente se aperceberam que por esta metodologia, brevemente não haveria empresa de todo. Correram com ele e colocaram no lugar outra pessoa que, restruturou a oferta diversificando os produtos e investiu grandemente em marketing. Esse investimento foi de tal ordem que, ainda hoje, há uma hora do dia associada a um dos seus produtos na mente coletiva da população. Uma singularidade comum às estratégias díspares, foi a manutenção da imagem de marca. Nem o incompetente vazio de ideias nem o responsável pela recuperação que lhe sucedeu, ousaram tocar na imagem de marca. O logotipo, as cores, a forma da embalagem e o produto core, mantiveram-se inalterados. A perceção que o valor mais alto de qualquer instituição é a identidade, foi respeitado. A concorrente direta desta empresa optou pela estratégia inversa. Deu-se mal e caiu a pique. Arrepiou caminho, levando anos a recuperar a confiança do consumidor, mantendo-se ainda hoje mais abaixo na tabela, sem constituir ameaça. Até o incompetente, cuja estratégia de gestão deixou um rasto de cadáveres, conhecia a importância da identidade. E manteve-a. A identidade torna-se uma referência. A empatia gerada para com produtos, instituições, locais, e até pessoas, perduram para além de épocas, modas, gerações, se a identidade for mantida. Registamos inconscientemente uma imagem de idoneidade, confiança. Uma sensação de continuidade intemporal reconfortante.

As machadadas à identidade de Torres Novas são mais que muitas. Algumas afetam apenas uma janela cronológica geracional específica, como a machadada das piscinas municipais ou a do largo da feira de Março. Outras atingem a identidade histórica, como a machadada do porto da bácora, a da ruina do centro histórico, a do Convento do Carmo. Demasiado numerosas para mencionar todas aqui. Como ilustra o case study descrito acima, obter sanidade financeira a qualquer custo, delapida e compromete a sobrevivência do objeto institucional em causa. Difícil, senão impossível de compreender, é, para a finalidade que uma estratégia deste género se propõe, existirem operações que a contradizem, como são exemplo a redução de receita e aumento de despesa afetos aos episódios Inter Marché e Renova. Quantos anos de existência iriam garantir estes diferenciais financeiros ao defunto Café Concerto, por exemplo? É imbuída neste mindset que a CMTN pretende lançar a marca “Torres Novas”. A existir nesta jogada uma aposta, diria que é na passividade e indiferença dos acionistas.

Faz lembrar a história daquele indivíduo que quis desabituar-se de comer. Alimentava-se cada vez menos a cada dia que passava. Quando estava quase desabituado de comer… Morreu de fome.




01/03/2022

Jornal Torrejano - Nº 1100 - Houston, we have a problem.

Jornal Torrejano – Nº 1100 - 04/12/2020

Houston, we have a problem.

Há mais de 50 anos, esta civilização, a nossa civilização, foi e veio à lua sem problemas de maior, num foguete cujo sistema de navegação assistido por “computador” tinha pouco mais de 72Kb de memória. Depois dessa, houveram mais 5 viagens tripuladas e várias não tripuladas. Já somam tantas que se pode dizer que é “normal” os americanos irem à lua. Dizem os entendidos que, o diferencial de desenvolvimento entre Portugal e EUA oscila entre 20 e 50 anos. A ser verdadeiro, por esta altura deveríamos estar em condições, tecnológicas pelo menos, de igualar a façanha de 1969. Mas não. Em 2020 e ciente da minha escala, não exijo ir à lua. Mas há mínimos, que raio. Por uma impossibilidade qualquer que me escapa, o nosso nível tecnológico deslumbra com circulação em autoestradas com via verde, instituições paper free, células fotovoltaicas revolucionárias, transplante de órgãos, mas, continuamos perfeitamente incapazes de nivelar tampas de esgoto com o pavimento. É um mistério. Olhando a coisa pela positiva, aparentemente somos mesmo bons a criar obstáculos. Uma habilidade nata que vem apimentar a vida quotidiana, porque isso do “normal” é para totós. Se acham que estou a brincar, pensem um bocadinho e, por favor, indiquem-me o caminho mais curto entre a cidade e o hospital que a serve, sem lombas transversais. De um ponto aleatório na cidade, tipo… a escola Maria Lamas, por exemplo. Imaginem que um fulano se aleija e precisa de ser levado ao hospital. Imaginem que é um problema na coluna vertebral. Imaginem ainda, com grande esforço, que o hospital tem serviço de urgências. Conduzir de forma competente e eficaz esta ambulância não é de facto para totós. Em tempos fui transportado de casa para o hospital com uma cólica renal e não desejo a experiência a ninguém. Exceto ao idiota que cercou uma unidade hospitalar com lombas transversais. Não duvido que trouxe benefícios a alguém, à população, não.

Constata-se que o conceito de “normal” varia muito e, a maior parte das vezes, é difuso. Depende. Por exemplo, ter a judite a vasculhar a nossa casa, é normal. É tão normal que nem vale a pena mencionar o facto aos restantes familiares. A esposa vai casualmente à cozinha fazer um cafezinho e depara-se com… “Bom dia senhor inspetor, como está a esposa? O Manelito sempre entrou para a universidade? Não? Isto é tudo padrinhos e cunhas, coitado do puto. Por acaso não mandou fazer umas lombas transversais na rua do reitor? Não? Ora aí está. Filhos da mãe corruptos. Essa gente merecia ser levada para a serra, fechá-los num curral e mandar a chave às urtigas”.

Numa terapia para aquisição de responsabilidade, é normal, atribuir inicialmente ao paciente responsabilidades simples, básicas, como cuidar de um ovo durante um período estipulado de tempo. O paciente deve andar rigorosamente sempre com ele e regressar na sessão seguinte com o ovo intacto. Mesmo com o pavimento com buracos, tampas de esgoto desniveladas e lombas transversais. Ao ter todos os cuidados para não o quebrar durante uns dias, o paciente aprende ser responsável por algo, preocupar-se com alguma coisa além de si próprio. Caso seja bem-sucedido, o passo seguinte é algo vivo. Cuidar de uma planta, não a deixar morrer. Nessa fase da terapia, cuidar de plantas, ficou sobejamente claro o empenho e desempenho do paciente. Regressem ao ovo.