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06/03/2022

Jornal Torrejano - Nº 1105 - Altruísmo heroico e outras fábulas.

Jornal Torrejano – Nº 1105 - 19/02/2021

Altruísmo heroico e outras fábulas.

O herói nacional, melhor jogador de futebol do mundo de sempre, segundo dizem, foi protagonista numa daquelas histórias que são matéria-prima para solidificar lendas. Nessa história, sublinhando as origens humildes, o estratosférico conquista mais um laço com o Zé comum. Revelado num episódio da sua juventude, contam que, matava a fome com as sobras de uma cadeia de fast food, cujas funcionárias, encantadas pela sua simpatia, lhe ofereciam disfarçadamente nas traseiras das instalações. É um facto que o controlo do tempo entre confeção e consumo destes produtos é apertado. Para isso servem aquelas marcas que os funcionários vão colocando no papel ou caixa que embrulha o artigo. Mais de xis vezes reaquecido, vai para o lixo, mais que ípsilon tempo na calha, vai para o lixo. Para evitar eventuais reclamações e consequências legais, é cumprido à risca o prazo de validade do artigo. Tipicamente de vinte a trinta minutos. Derivado a este procedimento, as sobras aparecem. Basta estar no sítio certo à hora certa para evitar que um hambúrguer e fritas gerem desperdício, contribuindo para salvar o planeta, enquanto o marketing vai cristalizando uma imagem universal do sonho americano tornado realidade. É possível nascer desfavorecido e chegar ao topo. As pessoas são genericamente boas e, a ideia deprimente de uma sociedade “faca na liga”, atenua-se. Aconteceu na vida real. Deu na televisão. É verdade. Há esperança. Processos de transferência e necessidades de escapismo obrigam a que heróis por mérito próprio surjam. Melhor: sejam absolutamente necessários.

É a mesma coisa com as vacinas para a Covid 19.

Para obter uma dose da esperança líquida, também basta estar no sítio certo à hora certa que, as sobras criadas pela metodologia aparecem. Nem é preciso saber jogar futebol nem fazer beicinho ou olhos de Bambi. Daí recentemente se verem vários cidadãos comuns, anónimos e irrelevantes na pirâmide social, a vaguear pelas traseiras dos centros de saúde, aparentemente a matar o tempo, sem nada para fazer. Estão disfarçadamente à espera que a funcionária apareça com as sobras. O intervalo entre preparação e administração não é propriamente de vinte minutos como no hambúrguer. É de cinco dias. Segundo o fabricante, entre o descongelar e o administrar há uma janela de cinco dias (desde que mantida em frio). Cinco dias são muito tempo, dão perfeitamente para uma gestão efetiva das sobras, seguindo as prioridades delineadas no plano nacional. Voluntariado para evitar o desperdício neste contexto é um argumento infantil, risível. Com a agravante de passar um atestado de inutilidade aos profissionais, aos métodos, ao plano. Calculo que exista na bíblia uma passagem que sustente os valores e princípios patentes nesta postura. Para palmadinhas nas costas entre pares e auto elogios pela excelência do serviço prestado, calculo que também. É um livro muito universal, providencia justificação para quase tudo. Por associação de ideias ocorre-me o ditado: “De presunção e água benta, cada qual toma a que quer”. Ambas.

Neste complexo de inferioridade latente, pelos poetas declamado e por músicos tocado, recetivo a heróis e sedento de glórias, mesmo que em segunda mão, há uma esperança que se debate e teima em não morrer. É a esperança no dia em que a pergunta “És filho de quem?” não seja formulada na entrevista de emprego, ou a resposta signifique zero face às competências do indivíduo. Esta esperança tem de acontecer na vida real, passar na televisão, ser verdade. Não pode andar esquiva e envergonhada nas sombras das traseiras de um centro de saúde.




05/03/2022

Jornal Torrejano - Nº 1104 - Hill Street Blues.

Jornal Torrejano – Nº 1104 - 05/02/2021

Hill Street Blues.

Agrada-me que a Escola da PSP necessite de expansão. Agrada-me que o município tenha soluções para essa expansão. Afinal, deve-se a esta presença algum dinamismo, sazonal e de impacto moderado na economia local, é certo, mas ainda assim importante. O seu crescimento é bem-vindo. Tivesse existido bem maior que justificasse o entendimento com o ensino superior no passado e, hoje estaríamos a discutir uma cidade totalmente diferente. De qualquer modo, ter um polo na zona (ainda) viva da cidade, parece-me sempre uma ótima movimentação estratégica. Sugiro que aproveitem estas mudanças para acrescentar ao currículo académico umas visitas de estudo à ribeira da Boa Água. Há uma necessidade premente em mostrar aos alunos os conceitos de legalidade que vão defender e representar no futuro. Com cheiro. Assim vão perceber as tonalidades subtis que distinguem os conceitos de “legalidade”,” ilegalidade”, “ilegalidade tolerada”, “ilegalidade assim-assim”, “ilegalidade pendente”, “qual ilegalidade?”. Hey… os americanos têm uma série de classificações legais diferentes para quando uma pessoa mata outra pessoa, e eles são bué evoluídos e assim, quem sou eu para legislar as infinitas tonalidades possíveis entre um “sim” e um “não”? Um dia de exercício físico ali à volta também teria impacto indelével na memória, certamente. Nada como uma formação de qualidade, com exemplos práticos e experiência no terreno. A ironia de uma decisão de um tribunal ser interpretada de forma vaga e criativa ocorrer na mesma cidade onde se formam as forças da lei e da ordem, é deliciosa. E tão irrefutável quanto um eventual candidato adotar como slogan de campanha: “Vote em mim. Eu pelo menos sei guardar cabras”. Irrefutável. Fica a ideia.

Confundem-se “canais de comunicação” e “propaganda” com demasiada facilidade para ser saudável e a malta distrai-se com as obras de cosmética. Só quando volta a cheirar mal é que… Pois é. Ainda há isto por resolver… Entretanto passou uma semana, um mês, um ano, e outro, e cinco. O que não devia lá estar, está, infiltra-se no terreno, na água, vai ficar a poluir por décadas, séculos. Remeter isto à gaveta dos incómodos menores, é um insulto. E alimenta ironias de gosto duvidoso que de outra forma estariam extintas, como os dinossáurios e o bom senso. Não basta concordar que está mal e acenar com a cabeça. Alguma pro-atividade institucional precisa-se. Como já devem ter notado, há quem não esqueça. A cosmética não distrai todos.

Entretanto ocorreu-me outra sugestão, aproveitando a ligeireza e normalidade com que se admite a participação de instituições policiais em procedimentos triviais, há sinergias que não deviam ser desprezadas. Poder-se-ia adicionar outra visita de estudo ao programa curricular: A Câmara Municipal. Se algum destes estudantes seguir carreira até à Policia Judiciária, no futuro vai dar jeito já conhecer os cantos a esta casa e, uma aula prática é mais eficaz que uma aula teórica. Estas duas visitas de estudo não devem ocorrer no mesmo dia, senão, na segunda visita, o olfato estará completamente embotado, inútil portanto. Seja qual for a ordem. 




04/03/2022

Jornal Torrejano - Nº 1103 - Veni vidi vici.

Jornal Torrejano – Nº 1103 - 22/01/2021

Veni vidi vici.

- Ó querida, sou tão bom. Mas tão bom que até vais trepar pelas paredes.
- Ai sim? E como é que vais conseguir tal proeza?
- Ora… Isso agora é cá comigo. Eu é que sei.
É uma estratégia. Questionável, mas ainda assim, uma estratégia. Há quem tenha nenhuma. A par da revelação estrondosa do planeamento planeado, houve outra que até me fez cair da cadeira com o impacto. Esta, verdadeiramente incrível. Fui informado, a vermelho, que, Talvez Recandidato, (T.R.), a propor-se a correr, será para ganhar. Uma reviravolta embasbacante nos mais elementares objetivos da competição. É do senso comum que toda a gente que se propõe a correr almeja o penúltimo lugar. Com muita competência, engenho, e sorte a rodos, quem sabe, o último. Talvez Recandidato (T.R.) faz mira à vitória. Inacreditável. Surpresa das surpresas. Há ali claramente um lugar vago para guionista, ou, como gosta de dizer um amigo meu: coreógrafo. Com tanto pessoal a precisar de emprego…
Por falar em emprego, segundo notícia num meio de comunicação regional, uma empresa privada manifestou interesse em abrir instalações no concelho. Para não variar, mantém-se a caracterização de emprego indiferenciado na eventual oferta para preenchimento de quadros. Viva a tradição. E como tradicionalmente, elementos do executivo apressaram-se a partilhar com a populaça esta declaração de intenções da tal empresa privada, como se eles tivessem tido algum papel relevante no processo, ou tivessem desenvolvido esforços e contactos para que tal interesse ocorresse. Para além de alterar o PDM de modo a acomodar as instalações da empresa em total legalidade, entenda-se. A proximidade do entroncamento A1 – A23, é pura coincidência, não relacionável. Eu próprio adotei esta metodologia. Partilhei nas redes sociais uma peça de Wagner, na expectativa da malta pensar que fui eu que fiz. Mais logo já vou ver a quantidade de likes e comentários elogiosos. A julgar pelos resultados para uns, a glória imortal do mestre também deve recair sobre mim. Estratégia inovadora. Se Talvez Recandidato (T.R.) estiver de pestana aberta e topar esta, deixa de haver lugar vago para guionista. Mas não deve estar assim tão atento. Se estivesse, não tinha deixado passar em claro os auto elogios do executivo acerca da redução de IMI, esforço sobre-humano de tão nobres mártires que se bateram e sacrificaram por esta redução significativa nas despesas dos munícipes, exibindo como comprovativo a Análise da Execução Orçamental dos Municípios divulgada pela Ordem dos Contabilistas Certificados, onde o município de Torres Novas aparece em… trigésimo quinto lugar. O último do seu grupo. Isto sim, é cumprir com os objetivos. Último. Segundo as mais recentes tendências, é muito mainstream, eu sei, mas a distinta lata merece ovação em pé.

O documento é público e pode ser consultado aqui:
https://www.occ.pt/news/Anuarios/afmp2019.pdf

Até Iznogoud, que queria ser Vizir no lugar do Vizir, estava mais atento e aproveitava melhor as argoladas do Vizir para seu proveito. E era, é, uma personagem imaginária. Por aqui, na vida real, sejam da oposição, sejam do assim-assim, sejam agnósticos ou crentes, tudo aceitam complacentemente. Tal como fazia quando lia os livros desta personagem criada por Goscinny, resta-me rir.