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12/08/2022

Jornal Torrejano - Nº 1140 - Não (h)à crise

Jornal Torrejano – Nº 1140 - 12/08/2022

Não (h)à crise

Conto com mais de meio século de existência e não conheço Portugal sem estar em crise. Este estado perpétuo instalou-se no subconsciente coletivo, sendo aceite como a normalidade. Curioso como regularmente o governo nos educa para novas normalidades.

Ali por meados de ’80, os restaurantes apresentavam no menu um prato com esse mesmo nome: Crise. Era o mais barato da lista, consistindo numa omelete acompanhada de batatas fritas, com sorte, também uma porção de arroz. O sentido de oportunidade, e de humor, não enchia a barriga, estando apenas uns furos acima do último recurso do teso esfomeado, a lata de atum. Pelo estômago cheio de Crises, cozinhadas por governos frequentemente incompetentes e quase sempre corruptos, a desconfiança perante tudo o que fosse Estado também se instalou no subconsciente coletivo. Assim se desenvolveu o tecido empresarial português, pautado pela fuga aos impostos e pelo usufruto pessoal de subsídios externos debilmente fiscalizados, como convinha. Qual remake da lenda da sopa da pedra, as pontuais fiscalizações invariavelmente esbarram na paupérrima miséria dos empresários com nada a seu nome. Apesar das empresas, ano após ano, apresentarem prejuízos, continuam em funcionamento como por magia. As mansões em nome dos gatos, os carros de luxo em nome dos cães, as contas bancárias no estrangeiro em nome dos periquitos. Se os empresários fazem uma vida espartana a mesma coisa já não se pode dizer dos seus animaizinhos de estimação. Quem mais fugisse aos impostos, quem mais enganasse o Estado, era admirado, aplaudido e, visto como pessoa muito inteligente, com visão, empresário de sucesso, um exemplo a seguir. Sendo o pagamento de impostos a contribuição social base da estrutura organizativa a que pertencemos, o povo, aplaude e idolatra o nó corrediço cada vez mais apertado no seu pescoço. As dívidas à segurança social foram muitas vezes objeto de chantagem clara, é luz do dia: “Preferem que mande 200 trabalhadores para a rua, para serem sustentados pela segurança social, ou preferem que eu continue em funcionamento e vá pagando a dívida como e quando eu quiser?” E outros golpes de absoluta genialidade por gestores heroicos, preocupados com a sobrevivência e bem-estar dos seus trabalhadores, os tais que os idolatram.

Nascidos e criados num ecossistema com estas características, não é de admirar que, o povo, mais uma vez, idolatre um milionário que esbanja uma pequena fortuna num capricho de pouco mais de dez minutos, elevando-o à categoria de herói. De tripulante num Caralho Voador, a estrela mediática, Herói nacional. Por muito que me agrade ficar com os créditos da expressão, Caralho Voador, (quem me conhece sabe que assenta que nem um preservativo justinho ao meu léxico), não posso. Numa premonição incrivelmente acertada, os Faith No More anteciparam-se e, no seu álbum de 1995, King For a Day, Fool For a Lifetime, incluíram uma canção com esse título. Incrível como um heroico empresário português decalca na perfeição, à distância de 27 anos, um Caralho Voador num disco intitulado Rei Por Um Dia, Tolo Por uma Vida Inteira. Esta precisão não pode ser mera coincidência. Magia. Pura magia.




15/07/2022

Jornal Torrejano - Nº 1139 - Trve

Jornal Torrejano – Nº 1139 - 15/07/2022

Trve

Quem se interessa por música, em jovem e no caminho para a maturidade, é comum acontecer um sentido de propriedade, totalmente deslocado, acerca de algo que não nos pertence, nem por sombras está dentro da nossa esfera de influência. Descobrimos um grupo musical muito bom que mais ninguém conhece e, sentimo-nos com um superpoder secreto. Possuímos uma joia de incalculável valor. Quando esse grupo musical atinge eventualmente notoriedade, é de uma violência atroz. Fomos violados, violentados, roubados. Aquilo era só nosso. Agora… Agora, são uns vendidos, prostitutos do mainstream. Os seguidores são uns falsos. Nem conhecem a banda na tshirt que vestem. Este falso sentimento de posse, manifesta-se em paralelo no cinema, na televisão, no desporto. Ou qualquer outra atividade que tenha a capacidade de alienar, ocorrendo várias formas de transferência, despoletando reações emocionais por via de laços afetivos fabricados, sintéticos. Sem consultar análise profissional, conjeturo acerca de maturidade, inteligência emocional, equilíbrio afetivo, passado e presente. Sim, passámos por lá. Foi cachopice. Visto do presente, é risível. Embora nostálgico. Se calhar este comportamento ocorre precisamente para evitar ou contornar esta nostalgia. Denunciadora de experiência, aprendizagem, tempo passado. Senti-la, seria reconhecer a velhice. O que compromete o sonho vigente da juventude eterna. Conflito de parâmetros, crash do sistema. Crescer é tramado.

Num raio de poucos quilómetros é observável a aposta na cultura e na diferença, com um contraste berrante. Em Cem Soldos, o festival Bons Sons, apresenta mais um ano, mais um cartaz, irredutível de pedra e cal naquilo que é sua tradição. Em Paço da Comenda, o festival  Comendatio, vai esculpindo o seu caminho com firmeza no universo do som progressivo mais pesado. Por cá, o Virgínia vê uma candidatura ser recusada pela Direção Geral das Artes. Bons Sons e Comendatio, cresceram (apesar de ser tramado). O Virgínia, continua a pensar que é dono de algo que o transcende.

Ali ao lado, em Constância, foi inaugurada uma praia fluvial no rio Zêzere. Por cá, a nascente do rio Almonda permanece refém de uma empresa privada, enquanto o presidente da Câmara em declarações públicas afirma que, “a Renova é a legal proprietária da nascente” e, “a legislação tem de ser cumprida”. Quando o Ministério do Ambiente em 2021 declarou: “…a Renova não poderá impedir o acesso à nascente do rio Almonda, nomeadamente, no que diz respeito à servidão do Domínio Hídrico”. Um número ridículo e triste de sapateado a exalar a pestilência da maleabilidade. Entretanto, os acessos às instalações da Renova receberam um tapete de asfalto de alta qualidade novinho, pagamos todos nós. Constância cresceu (apesar de ser tramado). O presidente da câmara de Torres Novas e a Renova, continuam a pensar que são donos de algo que os transcende.




01/07/2022

Jornal Torrejano - Nº 1138 - Festejando

Jornal Torrejano – Nº 1138 - 01/07/2022

Festejando

O inquestionável apoio à cultura dado pelo governo, está sujeito a uma série de suscetibilidades, como ilustram os episódios de 1992, onde Cavaco veta a candidatura de Saramago ao prémio literário europeu. Uma birra contra alguém maior que ele. Casar com uma espanhola e ir viver para Espanha, que ousadia, irrita qualquer português de bem. E, de 2004, em que Maria João Pires foi acusada de corrupção e aproveitamento pelo governo português acerca de um subsídio (125k) que nunca lhe foi concedido. Repete-se a irritação. Os Moonspell foram forçados a trilhar carreira fora do país por serem liminarmente votados ao desprezo pelas editoras e promotores nacionais. Causa urticária. Quanto maior o mérito alcançado por via de processos alternativos ao método do beija-mão, mais alto na escala hierárquica a reação alérgica. Se irritas o presidente, deves estar a fazer alguma coisa bem feita. Devia haver prémios para isto. Se um gajo irritar um secretário de estado, vale X pontos, se irritar um ministro 2X pontos, o primeiro-ministro 5X pontos, irritar o Presidente 10X, e uma vida extra. Uma APP gratuita e a malta competia online. Os primeiros dez a ficarem sinalizados como “pessoa de interesse” por um organismo policial, nacional ou estrangeiro, ganhavam um voucher em combustível de bónus. Os mais irritativos, seriam candidatos a Nobel, vencedores de subsídios, descontos no supermercado, tudo de fofinho, bom, dourado e mágico, viria a si. Com unicórnios. O apoio invisível do estado à cultura é assim. Cheio de atitudes. O visível não é diferente, só que mercantil. Um cineasta pode sempre ajustar o produto ao valor pago entregando um filme todo preto, por exemplo. E colateralmente criar um marco na história do cinema. Um escritor pode tomar a mesma posição em essência, suprimindo a pontuação, por exemplo. E colateralmente criar um marco na história da literatura. Hum…

Recordando a agenda bastante preenchida de festas e festarolas pelas aldeias do concelho por esta altura, itinerantes da sardinha e frango assado, da batata frita de pacote, do bidon de plástico azul cheio de gelo e minis, o bailarico a decorrer, o ursinho de peluche ao lado do galo de Barcelos na prateleira da quermesse. A algazarra geral. Havia competição entre as festas. Havia brio nessa competição. Celebrando o verão, o regresso dos emigrantes, o interior pode ser um desfilar de comes e bebes com bailarico e animação todos os fins-de-semana dentro de um raio de poucos quilómetros. Juntando-se a esta agenda, a cidade de Torres Novas lá faz a sua festarola. Perdão, duas, festarolas. A cidade a mostrar às aldeias como é que é. Se quiserem ver como se faz uma “festa de aldeia” em condições, é assim. Com enxota cães e gatos no fim e tudo. Consegue-se tirar o aldeão da aldeia mas não se consegue tirar a aldeia do aldeão. O horizonte é cada vez mais exíguo, torna-se penoso ler o cartaz. Não percebo a pertinência de Feira Medieval e Festas do Almonda serem eventos distintos, ambos pálidos de interesse, ao invés de um evento único de verão, com algum músculo. É urgente tomar decisões que permitam apresentar cartazes dignos do estatuto de cidade. Não é que seja uma competição mas, se olharmos à volta, ficamos pessimamente posicionados. Este género de apoio à cultura, resume-se a comprar artigos da prateleira do supermercado. Não é astrofísica. São expectáveis decisões melhores. Analisando num gráfico, é uma curva descendente que mantém a tendência ao longo dos anos. É uma realidade extremamente insatisfatória. Algo tem de mudar. A continuar assim… Parece birra. Alguém muito irritado por “festa de aldeia” não constar oficialmente no património imaterial da humanidade.