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23/09/2022

Jornal Torrejano - Nº 1143 - Estou apaixonado pelo meu carro

Jornal Torrejano – Nº 1143 - 23/09/2022

Estou apaixonado pelo meu carro

A Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo, em que Torres Novas participa, assinou dia 8 de Setembro um contrato de concessão com a Rodoviária do Tejo, com a validade de oito anos, para o serviço público de transporte de passageiros. Esse contrato implica um investimento de 36M de euros para um retorno estimado de 68M de euros. A CIMT, no âmbito do Programa de Apoio à Redução Tarifária, assume a subsidiação de 40% do valor dos passes mensais, como já antes fazia. A autarquia torrejana quando questionada acerca da gratuitidade total dos transportes públicos, responde ser de todo impossível nesta altura, ou num futuro próximo. O presidente declara que, só em revisão de preços, a Câmara prevê um aumento superior a 1M de euros nos custos. Deduzo que se refira a custos operacionais, não é claro, não especifica. Detalhes desses são para gestores e aqui o que interessa é calar quem pergunta.

Bom… A razão de existência da CIMT (e de todas as outras) é precisamente a geração de sinergias com o objetivo de poupança. Redução de custos e despesas, melhoria do serviço prestado, numa óptica de coesão e inclusão para os cidadãos no território onde opera. Note-se que o financiamento para grande parte dos projetos da CIMT provém de candidaturas a dinheiros europeus. No entanto, não dá para “oferecer” transportes públicos ao cidadão. Porquê? Porque a despesa aumentou. Há presidentes de junta de freguesia a queixarem-se de exclusão. Porquê? Porque existem freguesias fora da cobertura dos transportes públicos. Há qualquer coisa que está a funcionar ao contrário. Mas uma margem bruta de quase 50% para a Rodoviária do Tejo, já não foge.

Na perspetiva economicista, só em camiões televisivos, revistas de propaganda, “ajudas” financeiras questionáveis e outras sangrias, se reúne a verba suficiente para uma solução de compromisso. Se não dá para todos os cidadãos usufruírem de todos os transportes públicos de borla, daria para alguns cidadãos usufruírem de alguns transportes públicos de borla. Que tal definir só alguns itinerários “verdes” (envolvendo a Associação de Comerciantes, ou não), sem custos? Que tal dias pares a preço normal, dias ímpares a preços reduzidos, ou um valor simbólico? Que tal estender a isenção dos ex-combatentes a reformados, pensionistas, idosos e cidadãos portadores de deficiência física ou mental? Que tal um protocolo com as escolas (envolvendo o ministério da educação, ou não) de modo a oferecer o transporte aos estudantes? Que tal um protocolo com os clubes e associações desportivas (envolvendo federações, ou não) e oferecer o transporte aos atletas? Mesmo que fosse exclusivamente nas deslocações para os treinos? Um não categórico desculpado por um solavanco na gestão operacional é resposta abusivamente ténue. Pensar um bocadinho, ser proactivo e, apresentar uma contraproposta, é o que se espera de pessoas responsáveis num sistema democrático. Mesmo uma maioria absoluta não é sinónima de feudalismo, que raio.

Por esta altura, já ninguém duvida das alterações climáticas e da importância do estímulo para a utilização de transportes públicos. Aqui faz-se ao contrário. Continua-se a cortar árvores, despejar esgoto não tratado diretamente para o rio e, forçar o recurso aos transportes individuais. Parabéns pela originalidade, irresponsável.

Á laia de nota pessoal: Ao reler as crónicas que escrevo para o Jornal Torrejano de há dois anos a esta parte, fico algo deprimido ao constatar que muitos dos temas abordados (quase todos) foram ficando sem resolução, sem resposta, ainda hoje existem. Ou pior: foram esquecidos, varridos da atualidade torrejana. Lembram-se das cabras que morreram à fome e sede fechadas num curral, tema da minha primeira crónica? Prescreveu o prazo, o processo foi arquivado. Felizmente existe um jornal com isso escrito. Se não, esse e outros episódios seriam varridos da memória, da história. Parabéns ao Jornal Torrejano por isso. Parabéns pela originalidade, responsável. E porque faz hoje 29 anos.




09/09/2022

Jornal Torrejano - Nº 1142 - APDPTN em Dó menor

Jornal Torrejano – Nº 1142 - 09/09/2022

APDPTN em Dó menor

Foi criada em Fevereiro de 2022 a Associação Para a Promoção e Desenvolvimento dos Produtos de Torres Novas. Esta associação declara comprometer-se a isso mesmo: promover e desenvolver os produtos endógenos do concelho. Segundo a própria, principalmente produtos agrícolas e alimentares, deduzo que não em exclusivo. Compromete-se também, a organizar eventos promocionais, divulgar os produtos internacionalmente e, agilizar parcerias internacionais. Neste sentido, a primeira ação materializou-se na edição de uma revista, exclusivamente em papel que, carenciada de um planeamento de distribuição em contexto, é espalhada aleatoriamente por Torres Novas. O destaque no primeiro número foi… o presidente da Câmara. Seis meses depois, a instituição permanece sem presença on-line, ou se sim, não se encontra indexada a motores de busca. A semana passada a Câmara Municipal de Torres Novas decide providenciar instalações para a referida associação funcionar e, atribui-lhe um apoio de 30 mil euros anuais. De notar que as pessoas envolvidas são exclusivamente do PS. Tanto os órgãos da dita associação, como a Câmara.

Promoção e relações internacionais sem presença on-line, no século vinte e um, não é coerente. Suscita dúvidas, mina a credibilidade e não é funcional. A não ser que esteja planeado envolver a Columbófila e tudo se processe via pombos-correio. Método amigo do ambiente. Sustentável e biológico.

Entretanto, a oliveira a azeitona o azeite, endógenos e icónicos da região, deitados ao desprezo nas últimas décadas, são objeto de um protocolo para a sua recuperação e promoção a nível internacional. Desafio lançado pela Câmara… de Alcanena. Citando o Mediotejo.net: “…Os dois municípios (Alcanena e Torres Novas) vão criar uma equipa cuja função será trabalhar a fileira do azeite, a criação de uma marca, encontrar fontes de financiamento, fazer a promoção internacional e ajudar os agricultores e os lagareiros a organizarem-se…”. Ouro sobre azul. O presidente da Câmara de Torres Novas aproveita a deixa e lança a APDPTN para o protocolo. Mais: sugere as instalações recém adquiridas da Fiação e Tecidos para hospedar este género de projetos para o desenvolvimento da região. Tudo encaixa, tudo faz sentido. Só que não. Como o próprio presidente afirmou anteriormente, a recuperação e recondicionamento da fábrica de Fiação e Tecidos, vai demorar muitos anos e vários mandatos. O projeto Ouro Liquido pode esperar sentado, em instalações provisórias.

Como a oposição salientou na última sessão pública da Câmara, a APDPTN em seis meses ainda não fez nada (tirando a revista a tresandar a propaganda), desconhece-se como pretende operar, desconhece-se como planeia pôr em prática tudo a que se propõe e, já levou 15k (2022) + 30k (2023) de dinheiros públicos. Resultado: Aprovado. Tanto o protocolo com a Câmara de Alcanena como o financiamento da associação.

Também anedótico, foi os microfones ficarem sem som várias vezes durante a sessão. Cortar o pio a políticos, quem nunca? Coisas que acontecem. Está no Youtube, podem verificar.

Resumindo, (mais) um veículo de propaganda partidária e promoção pessoal em andamento, sem entraves nem demoras, a custar 30k por ano mais infraestrutura física, ao contribuinte. Por outro lado, o Choral Phydellius na qualidade de escola de música, foi preterido a favor de outrem em concurso público, por uma diferença de 13 mil euros. A formação musical, a cultura, é sujeita a escrutínio pormenorizado, adotando o método do valor mais baixo, garantia óbvia de competência e envolvimento com a comunidade. Acho que o Choral Phydellius está a precisar de lançar uma revista. Ou fazer um painel em azulejo.

Tudo na mesma no feudo da maioria absoluta. Como dizia o outro, também do PS: Porreiro, pá!




26/08/2022

Jornal Torrejano - Nº 1141 - Salgalhada com toalhões turcos

Jornal Torrejano – Nº 1141 - 26/08/2022

Salgalhada com toalhões turcos

Mais ridículo que a moda masculina de praia deste ano é comprar um imóvel por 700k e não saber o que fazer com ele. Na falta de ideias, planeamento e orientação, mete-se ao barulho tudo e mais um par de botas que, assim, já dá um comunicado de imprensa decente em termos de volume de texto, de modo a passar a imagem de muito trabalho feito. Simultaneamente solicita-se isso mesmo: ideias: O que fazer com aquilo? Alguém falhou um bocadinho a interpretação do dito comunicado e, a área total oscila 2km quadrados consoante o meio de comunicação consultado. Pormenor insignificante. Mal dá para uma vivenda com piscina e um balouço para os miúdos. A proposta no imediato contempla 17(!) instituições de índoles tão díspares que vão de museus a restaurantes passando por desporto e saúde. E 53 lugares de estacionamento. Só para os empregados, já é curto. Se aparecer malta a contribuir com (mais) ideias, calha uma salinha de 9m quadrados a cada um, com sorte. Para perceberem a minha retórica com a gestão do espaço, esta proposta inicial da câmara inclui um espaço multiuso coberto. É o que a cidade está a precisar.

Mas nem tudo é mau. Esta salgalhada poderá ter o seu efeito positivo, ainda que em segundo plano. Na realidade, a câmara está a pegar numa unidade industrial inativa, construída em cima de um rio e, propõe-se requalificá-la (de forma caótica, infelizmente) para uso comercial e público. É impossível não ler nas entrelinhas uma chapada de luva branca à Renova.

Por outro lado, se o Costa sabe disto, vai ficar furioso. Se há lição cara, é nunca suplantar o chefe em competências. 17 Instituições (pelo menos) encaixadinhas dentro de um ex-espaço fabril, vai fazer sombra a um punhado de ministérios (à larga) no edifício da sede da CGD. Onde trabalham atualmente 3200 funcionários em salinhas com área ligeiramente superior a 9m quadrados cada. O fulano vai bufar. Passar a perna ao chefe, não é bom. Daí, provavelmente, esta coisa de solicitar ideias à população seja uma forma de disfarçar  responsabilidades e evitar um puxãozito de orelhas. “Não fui eu, foram os populares. Essa corja, cheia de ideias.”

De notar que esta aquisição é objeto de negociação há anos. Não foi propriamente uma compra de impulso. Pelo tempo passado, fico algo surpreendido por chegarmos a este ponto, na base do improviso. O urbanismo da área circundante e acessos, são outros quinhentos. Fica para outra altura, ou para outrem explorar.

Agora que já abri a válvula da sátira que chegue, porque não me deixam ocupar o jornal todo com a minha mordacidade, resta-me concluir num tom mais sério: As empresas de mediação imobiliária brotam que nem cogumelos. Estão na moda. Tal como a moda masculina de praia deste ano, arriscam-se a cair no ridículo, pela saturação de mercado. Votos de boas comissões, rapaziada. Vai dar para a piscina e o balouço para os miúdos, de certeza.